H� uma
convic��o generalizada entre a maioria dos psiquiatras que, de certo modo, � a
ant�tese do que deles espera quem a eles recorre. Trata-se de facto de um dos maiores
mal-entendidos que campeiam na sa�de. E no entanto, ainda h� bem poucos dias o Director
dos Servi�os de Sa�de Mental se pronunciava no sentido de que, sendo "a psiquiatria
diferenciada e a sa�de mental duas faces de uma mesma moeda", urge "deslocar
a t�nica da doen�a para a sa�de"; e mais adiante, referindo-se a aspectos
formativos, acrescentava que n�o pode o m�dico continuar a ignorar a vertente
psicossocial do sistema Pessoa que tem perante si (Prof. Doutor Caldas de Almeida, em
palestra proferida no H. Magalh�es de Lemos / Centro de Sa�de Mental Ocidental do Porto,
a 14 de Mar�o de 1989). Se n�o, vejamos.
A imagem que o leigo tem da praxis psiqui�trica, a n�o ser conotada com a
loucura, a aliena��o e a perda de contacto com a realidade, com a cronicidade e a
irreversibilidade, ou com a tara gen�tica, �, ainda hoje, dominada pela heran�a desse
grande vulto que foi Sigmund Freud. O seu nome est� na mente do homem da rua como o de
nenhuma outra figura da psiquiatria at� aos nossos dias. E se a revolu��o freudiana,
libertadora dos sentidos e da sensibilidade, � uma revolu��o datada e limitada no
tempo, o mesmo se n�o poder� dizer, por exemplo, das suas implica��es sociol�gicas;
problem�tica essa, ali�s, desde logo reconhecida pelo pr�prio Freud (1930).
Assim � que, ao referido comum dos mortais n�o s�o de todo alheios, chegando mesmo
a serem queridos e tidos como indispens�veis, sobretudo em caso de se sentir na
necessidade de recorrer ao aux�lio psiqui�trico, um sem n�mero de conceitos que,
partindo da psican�lise, passam pelas no��es de consciente, inconsciente, ego,
complexo, conflito, sentimentos de culpa, recalcamento, sublima��o, sonho, e, de uma
maneira geral, de "problemas psicol�gicos".
E do lado da psiquiatria, o que se passa? Desilus�o! Tendo h� largos anos
determinado que o seu modelo de aproxima��o seria o biom�dico, acabou por esquecer por
completo uma das suas �reas privilegiadas de actua��o. Essa � a pesada heran�a da
s�filis, no dizer de Thomas Szasz (1977).
As consequ�ncias de tal pr�tica, ao longo dos anos, conduziram � actual
situa��o em que paciente e terapeuta est�o totalmente dissociados, uma vez que o corpo
de conhecimentos de um n�o corresponde minimamente �s expectativas do outro. Adiantando
um pouco mais, podemos mesmo verificar que, frequentemente, a veem�ncia anti-freudiana do
terapeuta � tanto maior quanto maior � a ignor�ncia com que pontifica sobre as
quest�es que lhe s�o levantadas. E a solu��o � sempre a mesma: omnisci�ncia a
coberto das grandes conquistas terap�uticas na �rea cient�fico-m�dica.
De facto a forma��o psiqui�trica, independentemente da boa ou m� pr�tica a que as
institui��es a quem tal tarefa incumbe d�o cobertura, a forma��o psiqui�trica,
dizia, n�o contempla em nenhuma das suas val�ncias obrigat�rias qualquer est�gio em
psicoterapia. E se � indesment�vel que a parafren�lia farmacol�gica �, hoje em dia,
algo de que seria inimagin�vel abrir m�o, tal como � ineg�vel a imprescindibilidade do
reconhecimento diagn�stico e categoriza��o nosol�gica, � minha convic��o pessoal,
que deste modo quero patentear, de que a psiquiatria n�o s� n�o termina a� como, muito
antes pelo contr�rio, � a� que come�a no que de mais nobre a caracteriza.
Tentando ir um pouco mais al�m no que, te�ricamente assumido e aparentemente �bvio,
se pode dizer de acordo com a posi��o a ser defendida, a compet�ncia t�cnica capaz de
permitir a actua��o especializada que, atrav�s de um diagn�stico, leva a uma
terap�utica farmacol�gica, n�o s� n�o esgota o acto psiqui�trico, como deve mesmo
ser encarada antes de mais como um simples meio para capacitar o paciente para uma
comunica��o eficaz.
Pobre do paciente cuja raz�o, que lhe anima os passos at� uma consulta
psiqui�trica, se depara com um t�cnico irrepreens�vel, algu�m que sabe outros nomes
comerciais para o Tryptizol �, que n�o ignora a sua
insufici�ncia hep�tica antes de lhe prescrever uma benzodiazepina, ou que atenta na toma
de dicumar�nicos antes de lhe prescrever um anti-depressivo, mas que, inflex�vel na sua
autoridade sobre tudo o que ignora, lhe diz que "isso s�o tretas, tome mas � o seu
remedinho porque isso � que lhe vai resolver os seus problemas!"; e, ou a situa��o
� auto-limitada no tempo e ultrapassada apesar do psiquiatra, ou ent�o arrasta-se
levando a alterar a dose ou o f�rmaco e a continuar a observar o que passa a ser encarado
ent�o como hist�ria natural da doen�a.
N�o se pretende de modo algum que o psiquiatra ignore tal faceta de conhecimento sem
d�vida obrigat�rio, mas que reputo de puramente t�cnico na acep��o de que �
pass�vel de ser introduzido num sistema pericial. Antes se pretende que, sendo o
psiquiatra um m�dico, ele sabe ab initio as precau��es gerais a ter antes de
prescrever seja o que f�r a um idoso, a uma crian�a, a uma gr�vida, a uma pessoa com
uma afec��o card�aca, renal ou hep�tica, a tomar anti-coagulantes, etc; como tal, face
a um caso concreto, rapidamente ele excluir� determinados comportamentos habituais que se
n�o aplicam, dispondo de conhecimentos que lhe permitem, em situa��es de tal forma
invulgares que o exerc�cio n�o transformou em rotina, e por simples consulta a um simposium
terap�utico actualizado, encontrar a solu��o farmacol�gica adequada. Concluida a
tarefa t�cnica devia come�ar a psiqui�trica propriamente dita; de facto, deviam ser
simult�neas, complementares e indissoci�veis. Mas tudo n�o passa de uma cortina de
teatro com tais requintes de elabora��o que a assist�ncia acaba por aplaudir e sair sem
se aperceber que n�o chegou a abrir, id est, que o espect�culo era afinal
ela mesma.
Exige-se do psiquiatra que saiba quais as benzodiazepinas que pode ou n�o prescrever
caso a caso, se bem que na maioria esmagadora deles se limite a prescrever, e
correctamente com toda a certeza, duas ou tr�s; por outras palavras, exige-se-lhe que
saiba ab initio as contra-indica��es deste ou daquele f�rmaco mesmo em
situa��es que se sabe que dificilmente encontrar�, mas que se porventura encontrar
tamb�m sabe � partida reconhecer como de actua��o prudente. N�o tem ele sempre
presente a m�xima primum non nocere? No entanto nada se lhe exige ou sequer �
ensinado como fazendo parte das suas atribui��es no tocante a interven��o
psicoterap�utica. Porque, n�o tentemos iludir a quest�o, "o problema da
personalidade, os desajustamentos, as actividades preventivas, a sa�de do esp�rito, s�o
hoje a nossa principal ocupa��o. Em crit�rio pragm�tico s�o doen�as psiqui�tricas
todos os desvios suscept�veis de ser assistidos pelo psiquiatra." (Pedro
Pol�nio, 1989). Ali�s, mesmo no que se refere � compet�ncia t�cnica conferida pelo
curr�culo m�dico para lidar com seres humanos na sua verdadeira dimens�o - seu
esquecido "objecto" de actua��o -, salvo raras e honrosas excep��es que
quase diria fruto de investimentos pessoais, ela � pouco mais do que nula.
A grande revolu��o, a que o leigo n�o � de todo alheio quando caricaturiza o
psiquiatra, resume-se afinal a "chumbar" o doente que, pelas suas altera��es
de comportamento, se tornou demasiado inc�modo? Ainda h� quem o negue, e � mesmo contra
este tipo de pr�tica que nos devemos insurgir.
Claro est� que, numa sociedade de mercado como a nossa, a reac��o n�o se faz
esperar, e essa �rea de interven��o que t�o menosprezada tem sido, vem sendo
progressivamente invadida pela assim designada psicologia cl�nica, a qual se come�a a
reivindicar de toda a actua��o que n�o implique interven��o farmacol�gica de monta,
uma vez que o receitu�rio lhe est� vedado pelo exerc�cio ilegal da medicina.
Mas ser� que se pode dividir assim por duas actua��es especializadas estanques a
mesma problem�tica existencial de uma e uma s� pessoa? Acredito firmemente que n�o,
sendo que a maior v�tima � naturalmente o paciente que, opte por qual dos especialistas
optar, sai sempre a perder da ignor�ncia na especialidade preterida, quando n�o v�tima
dessa mesma ignor�ncia, uma vez que � grande a tenta��o de intervir quando ele,
incapaz de se dissociar ou tributar a dois especialistas pela mesma coisa, est� disposto
a reconhecer compet�ncia, a priori, ao primeiro a cujo aux�lio recorreu, quantas
vezes a despeito de reticente.
E aqui voltamos � mesma quest�o. A n�o ser pela inexist�ncia de um bom-senso n�o
exigido nem quantific�vel, com que direito se pode o psiquiatra arvorar capacitado para
as suas interven��es psicoterap�uticas, ainda que aparentemente ausentes ou mesmo
negadas? Ou, ao inv�s, com que direito poder� ele ser recriminado nessas mesmas
interven��es ou pela sua aparente aus�ncia? E digo que a aus�ncia de tal interven��o
� antes de mais aparente, ainda que negada, na medida em que a entrevista anamn�stica,
se por um lado tem uma finalidade diagn�stica, nem por isso deixa de ter, por outro, um
efeito terap�utico; assim � que, enquanto interrela��o verbal e de atitudes, ela n�o
s� confunde como obsta ao isolamente desses dois aspectos, os quais devem, por isso
mesmo, ser encaradas como duas faces de uma s� porta.
Sendo que o foro da psiquiatria � reconhecidamente o da natureza psicol�gica humana,
como pode a forma��o esgotar-se na hist�ria da conceptualiza��o psicopatol�gica, na
semiologia fenomenol�gica fina, e nas terap�uticas farmacol�gicas ou f�sicas com todas
as suas implica��es? Ser� sequer defens�vel a ignor�ncia arrogante em �reas como a
da din�mica psicol�gica ou a da sist�mica familiar? E digo arrogante porque
interveniente atrav�s de t�cnicas conversacionais que n�o domina � partida, uma vez
que lhe n�o s�o reconhecidamente exigidas, e em �reas de que se auto-mutila e cujos
discursos, portanto, frequentemente desconhece.
Como reflex�o final, e ressalvando naturalmente todos os casos pontuais, fica que
determinadas exig�ncias hipertrofiadas postas ao progresso na carreira psiqui�trica
antes se afiguram "manobras de divers�o" perante as insufici�ncias e m�
pr�tica generalizada e institucionalizada a que, atentat�riamente, se vai chamando de
cl�nica.
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