
Anamnese
Identificação
Nome: C. C. A. M. Procº Nº 11
849
Naturalidade: Porto Sexo: Feminino Idade: 11.8 anos (11/Out/77)
Morada actual:
Data de admissão: 7/Abril/89 Altura: 1.33 m Peso:
30 Kg
Motivo de admissão
Enviada pela
médica de família com
informação de recusa de ir à escola com duração de duas semanas, sob
alegação de queixas somáticas.
Doença actual
Cerca de 2 semanas
antes da 1ª entrevista deixou de ir à escola com queixas de vómitos e desfalecimento.
Refere a criança que a professora bate com uma régua metálica, mesmo sem ter grande
razão para isso, no seu entender; "quando se irrita" - diz. Nessa altura tinham
de fazer os trabalhos da Páscoa e ir apresentá-los ao quadro, arriscando-se a apanhar
caso errassem. Começaram então os acessos de choro, as náuseas e as recusas de ir à
escola.
História familiar
Genetograma

Sucessos / insucessos e dificuldades intra-familiares
Avós paternos e maternos falecidos. O pai tem duas irmãs mais velhas e um
irmão mais novo. A ligação a estes irmãos é praticamente inexistente, tanto mais que
estes nunca aceitaram o seu casamento; a mulher acusa-os mesmo, sem que ele a conteste, de
oportunistas e interesseiros. "Não são de ligar muito à família", diz o pai.
Quanto à mãe, esta considera-se só no mundo, pois que, sem pais, apenas lhe resta uma
meia irmã por parte do pai, a qual terá agora uns 74 anos, e com a qual não tem
qualquer contacto. Referindo-se aos familiares do marido diz: " eles queriam que ele
casasse no Porto, mas ele foi casar comigo a Braga...!" Rejeita-os em bloco
referindo-os como interesseiros e corroborando com um episódio em que o marido recebeu um
"dinheirito" em virtude de um acidente; nessa altura, conforme descreve,
apareceram todos mostrando-se muito amigos, para logo desaparecerem com o acabar do
dinheiro.
Pai: A. M. S. M., 44 anos, picheleiro / canalizador, arte que tem
desde que aos 14 anos se iniciou como aprendiz.
Segundo diz a mãe "o pequeno-almoço dele é um café e um
bagaço!" "- Fumo e bebo bastante", admite, "mas às
refeições", acrescenta. Tem história de úlcera péptica.
"- Enerva-se por qualquer coisinha", diz a mãe; ao que ele
acrescenta: "- ou as coisas correm como eu gosto ou... ainda que tenha de mandar um
estalo a um filho. Em casa descarrego!"; e perguntado como agia fora de casa,
responde: "- fora de casa engulo!".
Antes de ir para a tropa, vivia-se então o clima da guerra colonial, teve
um acidente em que amputou o indicador direito. Refere-se ao acidente como tendo sido de
trabalho, numa fábrica de louça de alumínio e cobre; havia aí uma guilhotina
eléctrica, de cortar chapa, com molas que, sem aviso, disparavam automaticamente. Os
acidentes com amputação de dedos e mesmo de braços, segundo refere, ocorriam com
relativa frequência; contava então 19 anos e "estava apurado para a tropa... e fui
na mesma; só que fiquei como impedido do comandante", diz.
Descreve-se, em resumo, como "muito nervoso". Durante as
entrevistas, sobretudo antes e no início, mostra-se algo ansioso, preocupado, inquieto
mesmo, seja por exemplo alegando razões de emprego para onde vai telefonar a avisar onde
está. Esta postura mantém-se nas sucessivas entrevistas a que comparece. Na
comunicação refugia-se bastante atrás de preceitos morais rigidamente inatacáveis,
porque assumidos sem reflexão, pelo que se traduzem por lugares comum com a carga
afectiva dos tabus. Sendo pedida a presença da mãe, ele não deixa de comparecer, ainda
que de braço engessado por acidente de trabalho que lhe confere baixa: esteve um dia
inteiro a trabalhar com um martelo pneumático, embora isso não fosse da sua
competência. Posteriormente, pela mesma razão, vem só a acompanhar a filha, uma vez que
tem passe de cidade para os transportes colectivos, argumenta, e assim poupa as duas
senhas que a mulher gastaria.
Mãe: E. S. A., 48 anos, doméstica; faz trabalhos de lavadeira para
fora, o que lhe rende uns 2 mil e quinhentos escudos... Originária de Braga, desenraizada
e sem família, tossindo durante toda a entrevista a que comparece, refere que tem
"bronquite e chiadeira" desde criança. Diz que dorme muito mal, sobretudo
devido à tosse e à "falta de ar."
Na medida em que o consegue extraverter na entrevista, sem ser
interrompida, que a culpa é da professora, que a professora é má, que bate nas
crianças com régua de alumínio, etc., etc. Tal atitude é conforme com um reforço da
permanência da C. C. A. M. em casa, permanência essa a que o pai se opõe com veemência
e impede a despeito do choro e vómitos.
Fratria:
R. F., 16 anos, operária; reprovou no 3º ano (7º de escolaridade) e por
aí ficou.
A. A., 15 anos, electricista; ajuda às suas despesas com os 15 contos que
ganha. Ficou no 2º ano.
Atmosfera familiar e adaptação da paciente:
Os pais casaram em 1as núpcias em 1972; a mãe, embora fosse de Braga,
"estava a servir cá no Porto". Assim, cá se conheceram e sempre viveram.
Não gosta de ver televisão; só gosta de teatro português ou folclore.
Já o pai gosta de "filmes de cow-boys e do Tarzan.". A criança,
de sua vez, gosta dos desenhos animados. Assim, a hora privilegiada para reunir a família
é ao jantar.
Depois de um difícil período de 4 anos em que esteve desempregado, o pai
começou a trabalhar, há cerca de ano e ½, nas obras da nova ponte ferroviária sobre o
rio Douro; arrisca-se porém a ser despedido uma vez que está contratado "a
prazo", embora possa vir a ser recontratado por mais um período de ano e ½.
Durante a 1ª entrevista, e na ausência do pai, que tinha ido telefonar, a
C. C. A. M. refere espontaneamente que a irmã mais velha não é filha do seu pai.
"Eles discutem", conta, "e ela diz-lhe: você não é meu pai!". Nessa
mesma 1ª entrevista o pai, por seu turno, ao dar as indicações para preenchimento da
ficha de identificação da C. C. A. M., comete o lapsus linguae de fornecer a data
de nascimento correspondente, de facto, à irmã mais velha, id est, 7/10/1972 em
lugar de 11/10/1977. Já com a mãe presente, quer um quer outro conseguem tergiversar
quando se lhes fala na R. F., seja por exemplo, sobre quanto ganha e se contribui para as
despesas da casa; isto dá-se, no entanto, sobretudo à custa do pai, que consegue, nessa
altura, "tomar conta" da rede comunicacional.
História pessoal
1ª infância
A gravidez materna, acompanhada medicamente, decorreu sem
problemas. Sentiu a criança mexer aos 3-4 meses, embora com maior intensidade pelos 6-7.
Não teve enjoos ou vómitos durante este período.
Não foi uma gravidez planeada; "Esta veio esquecida", diz a
mãe, logo acrescentando a mostrar que no entanto foi aceite: "mas o pai disse logo -
não se come uma batata, come-se metade! - e agora já não vê outra coisa."
O parto, de termo e eutócico, foi assistido em casa por uma enfermeira do
H. S. João que vivia em frente lá na Rua de Camões onde moravam na altura. Seriam umas
4 e tal quando começaram as dores, e "às seis já estava cá fora", conta a
mãe. Chorou logo. Pesava 2 Kg e seiscentas. O pai estava a trabalhar, pelo que só a viu
às 7 da tarde quando chegou.
Hábitos alimentares precoces e desenvolvimento: só lá para as 8-9 horas
é que tomou água fervida, e o leite passadas mais duas horas. Não foi amamentada; diz a
mãe que só tinha "aguadilha". Nunca teve problemas alimentares ou de sono.
"Não era uma criança que chorasse muito, antes era sossegada", descreve a
mãe.
Aos três meses teve um internamento no H. Geral de Stº António de 15
dias, presumivelmente com uma gastrenterite.
Aos 13 meses deu os primeiros passos e começou a falar entre o ano e meio
e os dois anos. O controlo esfincteriano diurno remonta aos 15 meses e o nocturno aos 17.
Usou chupeta até tarde; tinha 5 anos e, "se de dia largava, à noite
para dormir... estava a ver que ainda ia para a escola de chupeta", relembra a mãe.
Apresenta onicofagia.
2ª infância
Teve alguma dificuldade em se adaptar à escola, sendo que a mãe a
acompanhou até à 3ª classe. Diz esta que ela "prefere brincar sozinha", só
tendo companheiras na escola; porém, relaciona-se com elas sem problemas.
Reprovou na 1ª classe, racionalizando: "a professora ia lá para fora
fumar, e depois só passou quem quis." De um modo geral tem sido uma boa aluna,
assídua, pontual e bem comportada. "Vou sempre para o recreio.", conclui a C.
C. A. M. como resultado de ser boa aluna e não sofrer castigos. No entanto, afirma
peremptoriamente que não gosta da professora.
Aos 10 anos teve varicela.
Habitualmente dorme com a irmã. Quando está de férias, deixa o pai sair
para o trabalho e mete-se na cama com a mãe.
Exame
Mental: desenvolvimento adequado à idade,
mostra-se uma criança marcadamente ansiosa e exigente consigo mesma. Revela um locus
de controlo externo de tipo "pessoas poderosas", e recurso frequente a
mecanismos de defesa de cunho alegadamente neurótico como meio de lidar com os
acontecimentos vitais vivenciados como ansiógenos, protegendo assim a autoestima.
A escala de autopreenchimento Children´s Depression Inventory, de
Maria Kovacs, indica-nos, mais do que uma total ausência de depressão, uma certa postura
defensiva, virtualmente equivalente da dissimulação. De facto, no decurso das
entrevistas a C. C. A. M. revela-se de um trato a tal ponto respeitador e submisso que
mais sugere rigidez de caracter conferidora de superficialidade relativa, a nível
interaccional, quando contraposta à riqueza afectiva da vida interior.
Somático: sem alterações aparentes.
Neurológico: sem alterações aparentes, designadamente sem
reflexos arcaicos, sem sinergias ou sincenesias viciosas, sem insuficiências posturais ou
motoras, seja em termos de estabilização postural ou, mais em pormenor, de nistagmo
ocular. Sem alterações da marcha ou do discurso. Reflexos tendinosos, rotulianos em
particular, algo bruscos, id est, reprimidos e com descontracção lentificada. Os
membros opõem-se em crescendo à movimentação passiva. Os modos até certo ponto
embaraçados revelam mal-estar e constrangimento nas relações com outrém; no entanto
mostra-se prestável parecendo procurar conciliar-se com o novo ambiente. Verifica-se uma
reduzida actividade motora, não por simples diminuição, mas antes por inibição com
acumulação de tono. Esta atitude hirta faz-se acompanhar de ansiedade, o que traduz o
bloqueio entre o desejo ou a excitação e o gesto ou o pensamento. Generalizada a rigidez
à vida vegetativa, pode surgir a ameaça de síncope como clímax de uma das crises
descritas pelos pais. De facto, este tipo emotivo de tendência espasmódica, conforme
descrito por Henri Wallon (*), não escapa à regra do comportamento infantil de
apresentar, quando se oferece a ocasião, explosões súbitas de incontinência emotiva; a
sua multiplicação, também conforme regra geral, vai depender do educador na medida em
que, sendo um meio de acção sobre o que a rodeia, estas crises espásticas facilmente se
transformam em comportamentos reflexos de tipo condicionado.
Como orientação para proceder ao exame psicomotor seguimos ainda as
linhas gerais preceituadas por René Zazzo no seu Manual para o exame psicológico da
criança (**). Assim, e quanto à dominância lateral, concluímos pela esquerda bem
integrada: usa o olho esquerdo para espreitar por um tubo de papel, o ouvido esquerdo para
escutar o relógio, na prova da diadococinesia (marionetas) a melhor mão é a esquerda, e
usa o pé esquerdo para chutar e "jogar patela". Quanto à orientação
direita-esquerda, não apresentou dificuldades nas provas de braços cruzados (Piaget) ou
de imitação das figuras "mão-olho-orelha" (Head). Quanto às gnosias digitais
também aqui a exactidão das respostas nos leva a concluir pela ausência de problemas.
Não mostrou sincinesias nas provas de sincinesias, designadamente da motricidade facial,
da motricidade digital, ou de sincinesias dos membros superiores (marionetas /
diadococinesia). Nos cubos de Kohs-Goldstein fez correctamente até ao 7º, e não fez o
8º, o 9º, nem o 10º, o que corresponde a uma pontuação de 80, sugestiva de uma
estruturação espacial pobre (<= 8 anos). Na prova gráfica de organização
perceptiva (Bender) a maior dificuldade no modelo I e a sua ausência no modelo III,
aliadas a um grau moderado no modelo 5, estão de acordo com a média da idade,
designadamente 56.5 para os 11-12 anos.
Quanto à prova do bestiário e aos três desejos, os três desejos foram
(1) ter uma casa nova, (2) ter uma criada e (3) ter um carro com chauffeur,
"porque", disse, "não sabemos guiar". Em relação aos animais, (1)
gostaria de ser "um pássaro, para voar, conhecer países... um pássaro
pequeno"; (2) não desejaria ser "uma cobra; não gosto delas porque
ferram", concluiu; os animais que mais aprecia são o cão, o gato - tem um - e o
papagaio - "porque fala", explica -; finalmente, "porque metem medo",
não aprecia o tigre, o leão, nem o urso.
As escolhas animais, quer em termos de escolha, quer de rejeição, estão
inteiramente de acordo com o sexo e o grupo etário. Sendo a C. C. A. M., fisicamente, uma
criança pequena, encontrou no pássaro a característica física identificadora do
animal, em regra tido como amável e necessitado de afecto, projectando sobre ele os seu
anseios de liberdade e mobilidade. A necessidade de ser objecto de afecto confirma-se,
aliás, no cão, se bem que acrescentando uma retribuição através de amizade cordata,
de uma gentileza com tonalidade servil. Num segundo plano, vai a afirmação pessoal ser
encontrada na expressão verbal não reprimida, característica conferida pelo papagaio, a
que acresce a confirmação da liberdade de ir para toda a parte, agora de tonalidade
felina, ou seja, a liberdade de, muito particularmente, afirmar, sem ruído, a sua
sensualidade, por um lado, e maternidade, por outro. De acordo está também a
contra-identificação com a agressividade cruel da serpente, da qual ninguém gosta. Por
outro lado, quer o tigre, quer o leão, quer ainda o urso, se são igualmente símbolo de
crueldade, são, por outro, exemplos de animais feios porque grandes, ou mesmo gordos.
Expressão gráfica: constata-se uma certa rigidez do controlo emocional
traduzida pela falta de espontaneidade do refúgio na simetria - das figuras humanas,
casas, árvores, balões agrupados, escola, baliza, etc. Essa defesa, em relação a um
mundo encarado como hostil, é tanto mais evidente quanto é frequente o recurso ao
traçado de uma aura arqueada em torno da figura humana - guarda-chuva, arco de S. João,
"balão de legenda", etc.
Expressa-se também o reconhecimento pré-púbere de caracteres sexuais,
seja através de balões que se erguem, distintivamente, a partir das figuras masculinas,
seja ainda das lâmpadas, seus equivalentes, que o irmão coloca, rejeitando as usadas,
quais pequenos sóis num céu que, rebaixado à altura de um teto, se encontra por baixo
do seu modelo paterno.
A repressão e racionalização desta criança insegura exprimem-se aqui,
não só na simetria bilateral, mas também na rigidez da exactidão e do detalhe com que
os elementos criados e sucessivamente repetidos afrontam o caos do mundo exterior e
mantêm o self. Esta atitude defensiva e impeditiva da espontaneidade está também
patente na postura erecta e na tensão vigilante que se extrai do estatismo das figuras
humanas; essa fraqueza do eu, receoso de se deixar levar pelo caos interior dos seus
impulsos, bloqueia uma certa irresponsabilidade indulgente necessária à
auto-afirmação.
Esta criança inteligente, mas com problemas emocionais, indicia pois
inibição da personalidade traduzível como timidez e desajuste ao meio. Esse receio nas
relações com os outros, essa instabilidade emocional para a inter-relação, torna-a
relutante em estabelecer contacto, em se expor, e leva-a a retrair-se e autodirigir-se. Da
porta da casa que sucessivamente nos desenha, somos levados a concluir igualmente pelo
desejo de protecção, o que é particularmente reforçado pelas janelas da casa feita a
15 de Junho (de 1989), as quais denotam, efectivamente, retraimento e extrema relutância
à interacção com os outros.
A chaminé, símbolo fálico patente na "casa a que se dirige depois
de sair do lar", e aqui reportamo-nos à representação gráfica da história da
menina do capuchinho vermelho que espontaneamente elabora em 8 de Junho (de 1989), a
chaminé, dizíamos, liberta fumo dirigido para o lado, como que por efeito do vento,
reflectindo os sentimentos de pressão ambiental. As florzinhas que ocasionalmente
ornamentam as casas dizem-nos provavelmente de um desejo seu de conquistar algo.
Também a ausência de galhos nas árvores que nos apresenta traduz a
ausência de expansão no trato com os outros. O tronco curto, mas mais longo do que a
copa como é habitual nas meninas desta idade, aparece-nos aberto nas partes superior e
inferior à custa de curvas para a esquerda e para a direita, o que sugere de igual modo
pressão externa e falta de expressão do eu, porém com vivacidade de fundo emocional;
mais sugere indecisão e comportamento flutuante entre apego à mãe e desejo de
expansão. As dificuldades de tipo neurótico exprimem-se também pela linha que separa a
copa do tronco, copa de linhas simples, em regra, como sinal reforçador de imaturidade
afectiva. A sua forma elíptica fechada, como que envolvida por uma membrana, sugere, por
um lado, convencionalismo, puerilidade, ingenuidade, medo da vida real, e por outro, num
paralelo reforçador da leitura dos traçados arqueados em aura, retraimento e timidez. O
esboço de arcadas prefigura os bons modos e a obsequiosidade, e o facto de, em regra, só
ser contornada, de não ter recheio no campo da expressão do indivíduo, traduz um certo
vazio de alma. A árvore em si, relativamente pequena, traduz controlo, regressão,
desencorajamento.
Quanto à proporção entre as figuras humanas apresentadas pela ordem que
segue no desenho da família, não sendo concordante com as respectivas idades, aponta
para uma hipervalorização da irmã mais velha a qual, maior de facto, e surgindo em
primeiro plano, é encarada como figura dominante e alvo de ciúme. A C. C. A. M. e o
irmão, na sua distribuição espacial, formam um subgrupo, tal como o pai e a mãe,
inicialmente omitidos. Nas cores, por outro lado, a C. C. A. M. atribui-se, tal como à
irmã e ao pai, variantes do azul, por entre inibição, desejo de afirmação e tristeza;
já para a mãe os tons são mais afins do encarnado, num misto de vigor e ansiedade. O
irmão, a roxo, surge neste enquadramento numa posição de compromisso. Estas foram,
aliás, as cores que a C. C. A. M. pôs em confronto, imediatamente antes, num campo de
futebol que desenhou.
Os olhos, representados como um traço, sugerem imaturidade afectiva para
enfrentar problemas, introversão, não aceitação do meio, e mesmo fuga perante
situação de facto. O cabelo encaracolado, muito certo, sugere moralismo e repressão
sexual. O traço da boca, confirmador de introversão e/ou rejeição do ambiente, aparece
ocasionalmente como um sorriso de palhaço em busca de simpatia forçada. A omissão das
orelhas, relativamente comum, sugere uma passividade que, de algum modo, vai de encontro
à feminilidade do queixo redondo, feminilidade essa também expressa através do
guarda-chuva aberto. Já a omissão do pescoço, essa zona de conflito entre o controlo
emocional e os impulsos corporais, aponta para uma dificuldade de coordenação dos
impulsos de caracter regressivo. Os braços e mãos, expressão da inter-relação,
conduzem-nos ao desenvolvimento do eu e sua adaptação social, designadamente em termos
de grau e espontaneidade. Assim é que o ângulo em relação ao corpo, na sua
horizontalidade mecânica, reflecte superficialidade e não afectividade no contacto,
reforçada pela falta de confiança no mesmo patente nos contornos imprecisos da mão;
esta, porém, estando aberta, traduz a necessidade de afecto, se bem que reprimida
conforme mostram os dedos quase ausentes. A cintura aparece-nos marcada com o traço da
preocupação com os impulsos, e os pés, para um e outro lados, dissimulam conflito,
indecisão e ambivalência.
A história da Menina do Capuchinho Vermelho, cuja representação
gráfica, conforme já foi mencionado, elaborou espontaneamente, é uma história que, de
certa forma, com a morte do lobo, traduz o aliviar das angústias próprias da
pré-adolescente que tem de enfrentar o mundo fora da família. Claro que a história tem
sentido a diversos níveis, e só a criança pode saber quais os sentidos que têm
significado para ela num determinado momento. À medida que vai crescendo descobre novos
aspectos. No entanto esta história em particular levanta alguns problemas cruciais que a
rapariga em idade escolar tem de resolver se os afeiçoamentos edipianos se vão deixando
ficar no inconsciente. Ou seja, esta história é passível de ser lida em dois planos a
não confundir: o do problema identificado, e o da rapariguita que, na entrada da
puberdade se sente fascinada pela reactivação dos sentimentos edipianos de seduzir e ser
seduzida pelo pai.
Em sua própria casa, capuchinho vermelho, protegida pelos pais, é a
criança pré-púbere, sem perturbações, bastante competente para lutar. Na escola, id
est, em casa da avó, a pequena sente-se indefesa e incapacitada pelos seus encontros
com o lobo. Esta casa da avó, numa perspectiva oral, representa a má mãe que a
abandonou; no entanto, ultrapassada a angústia oral, ela compartilha alegremente os
alimentos com o caçador. O mundo fora da casa paterna, efectivamente, não é tão
ameaçador que a criança não possa encontrar o seu caminho; de facto, a mãe
ensinou-lho, e agora, ao pedir-lhe para ir levar os bolinhos à avó, demonstra-lhe a sua
confiança e reconhece-lhe (não sem dificuldade) maturidade suficiente.
Na história que nos é apresentada a menina pura e simplesmente encontra o
lobo, sem que para isso tenha de desobedecer às instruções da mãe e ir colher flores
fora do caminho. Esta é uma criança obediente, ou seja, subjugada pelo princípio da
realidade, e o perigo só a assalta porque está lá à partida, porque faz parte do mundo
exterior, e não porque ela ceda ao princípio do prazer quando se apanha fora de casa.
Aliás, neste caso a mãe não necessita de fazer recomendações; ela como que sabe quem
tem, antes aparecendo a pedir-lhe que faça uma incursão fora de casa.
Capuchinho é pois uma criança que, sem estar emocionalmente preparada
porque ainda não dominou os seus conflitos edipianos, tem de lutar com problemas
púberes. Ela projecta esses conflitos nos perigos que o lobo materializa, livrando-se
depois deles. Para isso, no entanto, as figuras maternais da mãe e da avó não são de
grande valia, pelo que têm de recorrer ao auxílio do pai figurado, responsável, forte e
libertador, a quem depois recompensam. Na fantasia da C. C. A. M. este pai, seu aliado,
vai materializar um ego que se protege, não necessariamente da sedução
masculina, mas pelo menos das tendências egoístas, violentas e potencialmente
destruidoras do id, atribuídas ao lobo, à professora que fuma e bate com régua
metálica. O amadurecimento, para ela, terá de passar pelo reconhecimento dessa natureza
contraditória, reconhecimento que permitirá a integração.
As dificuldades edipianas que permanecem sem resolução patenteiam-se
antes no facto mal aflorado de ela fornecer ao lobo indicações específicas que lhe dão
a oportunidade de suprimir a mãe figurada. O capuchinho, se sugere que a miúda é
pequena, também tem a cor das emoções violentas para as quais ela não se sente
preparada; e assim é que reage regressivamente, desembaraçando-se à maneira edipiana da
concorrente que é a mãe do segundo grau. A angústia inerente à culpa, surge face ao
castigo que o lobo, e a professora, ameaçam infligir-lhe. Resolve-se no entanto
deslocando-se para o outro prato da balança da ambivalência, id est, ela evita a
destruição empurrando a solução para o pai. E assim é.
Neste ponto constata-se que a cena em que a menina vai para a cama com o
lobo e o questiona sobre várias partes do corpo aparece censurada; não sabemos porém,
se a supressão é ou não anterior à criança, pelo que não a podemos valorizar.
Sabemos, isso sim, é que as possíveis implicações sexuais são pré-conscientes. O
lobo não a come mal a encontra, pois que ela nunca será sua enquanto a avó-mãe
existir. Os desejos têm de estar reprimidos, pois que a filha só pode ocupar o lugar da
mãe, e ser seduzida pelo lobo, quando ela desaparecer; e neste caso, recorde-se, a C. C.
A. M. quer afastar virtualmente a potencial rivalidade da irmã mais velha, e faz questão
de no-lo sublinhar, ainda que mobilizando o pai pela via do adoecimento, e acabando assim
com as relações tempestuosas entre ele e a irmã, às quais retira fundamento.
O caçador, matando o lobo e salvando-a, é uma figura boa dado que a sua
violência serve um fim apreciável. Já o lobo é castigado com a morte pela sua
sofreguidão oral. É por esta via, aliás, que ela, de novo aliada da mãe-avó,
recompensa o caçador.
Depois da libertação regressa a casa muito melhor e mais feliz, e aí
conta à mãe o sucedido. De facto não se sente melhor pelo renascimento, pela
transformação interior; esse tipo de resolução não está ainda presente. O que a
pôde sossegar foi a confiança depositada na relação com o pai, liberta agora da culpa
em relação à má mãe que a tinha enviado para o perigo. Ou seja, ela resolve a sua
ambivalência, aparentemente, decidindo-se a acatar o super-ego e a não ceder aos
desejos edipianos, aceitando o pai mais pelo aspecto protector do que sedutor. De facto o
que acontece é que ela não aceita os perigos da vida na forma que lhes dão os adultos,
e passa a fazer o que se sente motivada para fazer: brincar com os seus amiguinhos
animais. Ou seja, refugia-se de novo na sua inocência infantil quando urgida a enfrentar
a conspiração dos adultos, ainda não renascendo através da subjugação da crise
existencial própria de quem encontra os perigos dentro de si. Ainda não estamos perante
o amadurecer de uma jovem virgem, mas sim de uma criança assustada que se pretende negar
à inevitabilidade diacrónica.
Formulação
Informadores: além da C. C. A. M., as informações
foram em regra colhidas junto do pai, sendo mesmo de realçar a não vinda da mãe às
consultas; na única entrevista que conseguimos com a mãe esta revelou-nos, a seu modo, a
forte inclinação da C. C. A. M. para o pai, o qual, se bem que lha corresponda, sempre o
faz com certa restrição afectiva; seja por exemplo quando lhe pede para sair com ele, é
por vezes rejeitada conforme o humor de momento. Por outro lado, se a C. C. A. M. tem,
junto do pai, uma rival na irmã mais velha, num plano consciente ela também sabe, sem
margem para dúvidas, até porque o verbaliza, que ela é que "é parecida com o
pai", porque a mais velha nem sequer é filha dele.
A postura deste pai face ao terapeuta, enquanto informador, sempre foi de
desconforto e contrariedade, no que obteve fácil intenção para contrariar as
pretensões da filha quando esta se pretendia recusar a ir à escola; nesta atitude não
foi, naturalmente, apoiado pela mãe.
A relação transferencial com o terapeuta pode afirmar-se algo
superficial, porque revestida de uma polidez tradutora de afecto reprimido, tanto mais
compreensível quanto permanentemente ensombrada pela omnipresença paterna. É no entanto
aceite positivamente através da simbologia expressa nas diversas actividades propostas e
que assumem caracter lúdico. Diríamos que na designação de um problema escolar que a
C. C. A. M. é instada a assumir como primo movens da consulta, a culpabilidade
desse sair do lar é projectada no lobo-professora de que o caçador-terapeuta a ajuda a
libertar, vindo este pai bom a ser recompensado com os alimentos propiciados pela C. C. A.
M. agora aliada da avó-mãe.
Resumo
A irmã mais velha, conforme se pôde verificar, desempenha um papel
fulcral na dinâmica familiar, e isto desde a altura em que a gravidez materna constituiu,
muito provavelmente, um factor determinante de um casamento a que a família dele, talvez
por isso mesmo, sempre se opôs, até às actuais discussões em que o A. M. S. M., algo
reactivamente, tenta angariar o seu afecto sendo por ela abertamente rejeitado, quiçá
por descodificação subliminar da autêntica mensagem, e passando ainda pelo papel de
relevo enquanto irmã mais velha, o que nos é transmitido pela C. C. A. M. quando, por
exemplo, interrogada a dada altura sobre a duração da sua onicofagia, responde: "a
minha irmã também rói as unhas!", ou então quando nos refere espontaneamente, e
mal a oportunidade de estar a sós lho permite, que a irmã não é filha do seu pai.
Aliás, não foi outra a mensagem do pai ao fornecer os elementos de identificação,
senão a de emitir o seu parecer inconsciente sobre qual era de facto o problema daquela
família. Essa posição é corroborada pelas entrelinhas do discurso materno ao afirmar
que o pai, de facto, só tinha olhos para a mais nova, ao passo que para ela, mãe, a
primeira não foi uma filha que tivesse vindo "por esquecimento" para usar a sua
expressão. A corroborá-lo ainda, veio depois a dificuldade em conseguir entrevistá-la,
independentemente de levarmos a nossa insistência ao ponto de fazer convocações por
escrito e pelo telefone; de facto, apesar de doméstica, não foi possível entrevistá-la
mais do que uma vez, e mesmo assim debaixo da vigilância atenta do marido, que sempre
intervinha de modo dominador quando achava oportuno. A não assunção desta problemática
inconsciente terá conduzido à designação da C. C. A. M. como válvula de escape para
as tensões no interior da família, permitindo assim manter uma homeostase precária à
custa deste "bode-expiatório".
Avaliação psicométrica: O exame psicológico, de certo modo, veio
de encontro às hipóteses formuladas. Da respectiva ficha transcrevemos o parágrafo
final que lhe serve de "Conclusão: Não está em causa a capacidade intelectual da
C. C. A. M., mas a forma como vivencia a sua própria pessoa no quadro familiar, e a fobia
escolar poderá e parece ser apenas uma expressão acidental de toda uma problemática
afectiva grave, a desencadear-se na puberdade em função da situação familiar."
Classificação diagnóstica: fobia escolar com manifestações
somáticas.
E se a classificação como tal não oferece dúvidas, isso deve-se antes
do mais ao carácter abrangente de tal categorização nosológica, o qual lhe esbate
certas características, seja de poder prognóstico. Assim, e se recorrermos ao esquema
nosológico Sindromático - Etiológico - Clínico de Mira Coelho, teremos duas
possibilidades categoriais de prognósticos perfeitamente distintos dentro do Síndromo
Neurótico de tipo B (psicógeno, simbiótico ou inter-relacional); designadamente: o
subtipo 1, referido ao comportamento reactivo e manifestações somáticas associadas, e o
3, antes relativo ao comportamento fóbico-obsessivo propriamente dito. Na sentida falta
de critérios operatórios, dispusemo-nos remeter a ulterior discussão para uma sempre
possível classificação em subtipos.
Plano terapêutico:
Não ignorando naturalmente o conteúdo manifesto do discurso, o qual se
reporta às causas próximas, designadamente a nível da escola, consideramos que, a
confirmar-se a plausibilidade das hipóteses formuladas, uma resolução da ansiedade
fóbica capaz de alcançar um plateau terapêutico de tipo profiláctico em
relação a outras manifestações psicopatológicas de nível neurótico, terá de
ponderar seriamente a intervenção terapêutica a nível da clarificação das
interacções no seio da família, tal como a nível individual, naturalmente.
Por tal facto, desse tipo de intervenção impenderá um prognóstico a
longo prazo; não da resolução do "bilhete de entrada", id est, do
sintoma que trouxe o paciente identificado à consulta, mas sim o do ponto de vista do
bem-estar e saúde mental futuros.
Por outras palavras, planificada a intervenção capaz de resolver a
questão do absentismo escolar, deve a orientação terapêutica ponderar a possibilidade
de propiciar um ambiente capaz de permitir uma travessia harmoniosa do período lítico da
adolescência. Tal desenvolvimento poderá constatar-se nas mudanças a nível da
inter-relação, pois que a crescente abertura mútua a este nível permite reconhecer a
maior autoconfiança; esta, como desde sempre sublinhou Rogers (1961), quando patenteada
pelo paciente pode ser encarada como um dos indícios major da eficácia terapêutica.
Ora é exactamente como concurso para o esclarecimento das dúvidas em
termos de diagnóstico e classificação, bem como para a planificação da intervenção
em situações de fobia escolar, que nos propusemos fazer uma breve revisão, revisão
essa a que deliberadamente incutimos um certo cunho comportamental, pois que julgamos ser
esse o pendor a considerar numa primeira fase da abordagem.

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