Boletim do CSMIJP 1990; 12(IV): 1-22.

Fobia escolar
Revisão a propósito de um caso

Ramiro Verissimo

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Prof Doutor Ramiro Verissimo
Psicologia Médica / Faculdade de Medicina do Porto
Al Hernani Monteiro, 4200-319 Porto, Portugal.
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Índice

História Clínica

Anamnese

Identificação
Motivo de admissão
Doença actual
História familiar
História pessoal
Exame

Formulação

 

Introdução

Diagnóstico
Epidemiologia

Classificação
Etiologia
Terapêutica

Comportamental
Psicofarmacológica

Prognóstico
Agradecimentos

Referências

Anamnese

Identificação

Nome: C. C. A. M. Procº Nº 11 849
Naturalidade:
Porto Sexo: Feminino Idade: 11.8 anos (11/Out/77)
Morada actual:
Data de admissão:
7/Abril/89 Altura: 1.33
m Peso: 30 Kg

Motivo de admissão

Enviada pela médica de família com
informação de recusa de ir à escola com duração de duas semanas, sob alegação de queixas somáticas.

Doença actual

Cerca de 2 semanas antes da 1ª entrevista deixou de ir à escola com queixas de vómitos e desfalecimento. Refere a criança que a professora bate com uma régua metálica, mesmo sem ter grande razão para isso, no seu entender; "quando se irrita" - diz. Nessa altura tinham de fazer os trabalhos da Páscoa e ir apresentá-los ao quadro, arriscando-se a apanhar caso errassem. Começaram então os acessos de choro, as náuseas e as recusas de ir à escola.

História familiar

Genetograma

Genetograma

Sucessos / insucessos e dificuldades intra-familiares
Avós paternos e maternos falecidos. O pai tem duas irmãs mais velhas e um irmão mais novo. A ligação a estes irmãos é praticamente inexistente, tanto mais que estes nunca aceitaram o seu casamento; a mulher acusa-os mesmo, sem que ele a conteste, de oportunistas e interesseiros. "Não são de ligar muito à família", diz o pai. Quanto à mãe, esta considera-se só no mundo, pois que, sem pais, apenas lhe resta uma meia irmã por parte do pai, a qual terá agora uns 74 anos, e com a qual não tem qualquer contacto. Referindo-se aos familiares do marido diz: " eles queriam que ele casasse no Porto, mas ele foi casar comigo a Braga...!" Rejeita-os em bloco referindo-os como interesseiros e corroborando com um episódio em que o marido recebeu um "dinheirito" em virtude de um acidente; nessa altura, conforme descreve, apareceram todos mostrando-se muito amigos, para logo desaparecerem com o acabar do dinheiro.
Pai: A. M. S. M., 44 anos, picheleiro / canalizador, arte que tem desde que aos 14 anos se iniciou como aprendiz.
Segundo diz a mãe "o pequeno-almoço dele é um café e um bagaço!" "- Fumo e bebo bastante", admite, "mas às refeições", acrescenta. Tem história de úlcera péptica.
"- Enerva-se por qualquer coisinha", diz a mãe; ao que ele acrescenta: "- ou as coisas correm como eu gosto ou... ainda que tenha de mandar um estalo a um filho. Em casa descarrego!"; e perguntado como agia fora de casa, responde: "- fora de casa engulo!".
Antes de ir para a tropa, vivia-se então o clima da guerra colonial, teve um acidente em que amputou o indicador direito. Refere-se ao acidente como tendo sido de trabalho, numa fábrica de louça de alumínio e cobre; havia aí uma guilhotina eléctrica, de cortar chapa, com molas que, sem aviso, disparavam automaticamente. Os acidentes com amputação de dedos e mesmo de braços, segundo refere, ocorriam com relativa frequência; contava então 19 anos e "estava apurado para a tropa... e fui na mesma; só que fiquei como impedido do comandante", diz.
Descreve-se, em resumo, como "muito nervoso". Durante as entrevistas, sobretudo antes e no início, mostra-se algo ansioso, preocupado, inquieto mesmo, seja por exemplo alegando razões de emprego para onde vai telefonar a avisar onde está. Esta postura mantém-se nas sucessivas entrevistas a que comparece. Na comunicação refugia-se bastante atrás de preceitos morais rigidamente inatacáveis, porque assumidos sem reflexão, pelo que se traduzem por lugares comum com a carga afectiva dos tabus. Sendo pedida a presença da mãe, ele não deixa de comparecer, ainda que de braço engessado por acidente de trabalho que lhe confere baixa: esteve um dia inteiro a trabalhar com um martelo pneumático, embora isso não fosse da sua competência. Posteriormente, pela mesma razão, vem só a acompanhar a filha, uma vez que tem passe de cidade para os transportes colectivos, argumenta, e assim poupa as duas senhas que a mulher gastaria.
Mãe: E. S. A., 48 anos, doméstica; faz trabalhos de lavadeira para fora, o que lhe rende uns 2 mil e quinhentos escudos... Originária de Braga, desenraizada e sem família, tossindo durante toda a entrevista a que comparece, refere que tem "bronquite e chiadeira" desde criança. Diz que dorme muito mal, sobretudo devido à tosse e à "falta de ar."
Na medida em que o consegue extraverter na entrevista, sem ser interrompida, que a culpa é da professora, que a professora é má, que bate nas crianças com régua de alumínio, etc., etc. Tal atitude é conforme com um reforço da permanência da C. C. A. M. em casa, permanência essa a que o pai se opõe com veemência e impede a despeito do choro e vómitos.
Fratria:
R. F., 16 anos, operária; reprovou no 3º ano (7º de escolaridade) e por aí ficou.
A. A., 15 anos, electricista; ajuda às suas despesas com os 15 contos que ganha. Ficou no 2º ano.
Atmosfera familiar e adaptação da paciente:
Os pais casaram em 1as núpcias em 1972; a mãe, embora fosse de Braga, "estava a servir cá no Porto". Assim, cá se conheceram e sempre viveram.
Não gosta de ver televisão; só gosta de teatro português ou folclore. Já o pai gosta de "filmes de cow-boys e do Tarzan.". A criança, de sua vez, gosta dos desenhos animados. Assim, a hora privilegiada para reunir a família é ao jantar.
Depois de um difícil período de 4 anos em que esteve desempregado, o pai começou a trabalhar, há cerca de ano e ½, nas obras da nova ponte ferroviária sobre o rio Douro; arrisca-se porém a ser despedido uma vez que está contratado "a prazo", embora possa vir a ser recontratado por mais um período de ano e ½.
Durante a 1ª entrevista, e na ausência do pai, que tinha ido telefonar, a C. C. A. M. refere espontaneamente que a irmã mais velha não é filha do seu pai. "Eles discutem", conta, "e ela diz-lhe: você não é meu pai!". Nessa mesma 1ª entrevista o pai, por seu turno, ao dar as indicações para preenchimento da ficha de identificação da C. C. A. M., comete o lapsus linguae de fornecer a data de nascimento correspondente, de facto, à irmã mais velha, id est, 7/10/1972 em lugar de 11/10/1977. Já com a mãe presente, quer um quer outro conseguem tergiversar quando se lhes fala na R. F., seja por exemplo, sobre quanto ganha e se contribui para as despesas da casa; isto dá-se, no entanto, sobretudo à custa do pai, que consegue, nessa altura, "tomar conta" da rede comunicacional.

História pessoal

1ª infância

A gravidez materna, acompanhada medicamente, decorreu sem problemas. Sentiu a criança mexer aos 3-4 meses, embora com maior intensidade pelos 6-7. Não teve enjoos ou vómitos durante este período.
Não foi uma gravidez planeada; "Esta veio esquecida", diz a mãe, logo acrescentando a mostrar que no entanto foi aceite: "mas o pai disse logo - não se come uma batata, come-se metade! - e agora já não vê outra coisa."
O parto, de termo e eutócico, foi assistido em casa por uma enfermeira do H. S. João que vivia em frente lá na Rua de Camões onde moravam na altura. Seriam umas 4 e tal quando começaram as dores, e "às seis já estava cá fora", conta a mãe. Chorou logo. Pesava 2 Kg e seiscentas. O pai estava a trabalhar, pelo que só a viu às 7 da tarde quando chegou.
Hábitos alimentares precoces e desenvolvimento: só lá para as 8-9 horas é que tomou água fervida, e o leite passadas mais duas horas. Não foi amamentada; diz a mãe que só tinha "aguadilha". Nunca teve problemas alimentares ou de sono. "Não era uma criança que chorasse muito, antes era sossegada", descreve a mãe.
Aos três meses teve um internamento no H. Geral de Stº António de 15 dias, presumivelmente com uma gastrenterite.
Aos 13 meses deu os primeiros passos e começou a falar entre o ano e meio e os dois anos. O controlo esfincteriano diurno remonta aos 15 meses e o nocturno aos 17.
Usou chupeta até tarde; tinha 5 anos e, "se de dia largava, à noite para dormir... estava a ver que ainda ia para a escola de chupeta", relembra a mãe.
Apresenta onicofagia.

2ª infância

Teve alguma dificuldade em se adaptar à escola, sendo que a mãe a acompanhou até à 3ª classe. Diz esta que ela "prefere brincar sozinha", só tendo companheiras na escola; porém, relaciona-se com elas sem problemas.
Reprovou na 1ª classe, racionalizando: "a professora ia lá para fora fumar, e depois só passou quem quis." De um modo geral tem sido uma boa aluna, assídua, pontual e bem comportada. "Vou sempre para o recreio.", conclui a C. C. A. M. como resultado de ser boa aluna e não sofrer castigos. No entanto, afirma peremptoriamente que não gosta da professora.
Aos 10 anos teve varicela.
Habitualmente dorme com a irmã. Quando está de férias, deixa o pai sair para o trabalho e mete-se na cama com a mãe.

Exame

Mental: desenvolvimento adequado à idade, mostra-se uma criança marcadamente ansiosa e exigente consigo mesma. Revela um locus de controlo externo de tipo "pessoas poderosas", e recurso frequente a mecanismos de defesa de cunho alegadamente neurótico como meio de lidar com os acontecimentos vitais vivenciados como ansiógenos, protegendo assim a autoestima.
A escala de autopreenchimento Children´s Depression Inventory, de Maria Kovacs, indica-nos, mais do que uma total ausência de depressão, uma certa postura defensiva, virtualmente equivalente da dissimulação. De facto, no decurso das entrevistas a C. C. A. M. revela-se de um trato a tal ponto respeitador e submisso que mais sugere rigidez de caracter conferidora de superficialidade relativa, a nível interaccional, quando contraposta à riqueza afectiva da vida interior.
Somático: sem alterações aparentes.
Neurológico: sem alterações aparentes, designadamente sem reflexos arcaicos, sem sinergias ou sincenesias viciosas, sem insuficiências posturais ou motoras, seja em termos de estabilização postural ou, mais em pormenor, de nistagmo ocular. Sem alterações da marcha ou do discurso. Reflexos tendinosos, rotulianos em particular, algo bruscos, id est, reprimidos e com descontracção lentificada. Os membros opõem-se em crescendo à movimentação passiva. Os modos até certo ponto embaraçados revelam mal-estar e constrangimento nas relações com outrém; no entanto mostra-se prestável parecendo procurar conciliar-se com o novo ambiente. Verifica-se uma reduzida actividade motora, não por simples diminuição, mas antes por inibição com acumulação de tono. Esta atitude hirta faz-se acompanhar de ansiedade, o que traduz o bloqueio entre o desejo ou a excitação e o gesto ou o pensamento. Generalizada a rigidez à vida vegetativa, pode surgir a ameaça de síncope como clímax de uma das crises descritas pelos pais. De facto, este tipo emotivo de tendência espasmódica, conforme descrito por Henri Wallon (*), não escapa à regra do comportamento infantil de apresentar, quando se oferece a ocasião, explosões súbitas de incontinência emotiva; a sua multiplicação, também conforme regra geral, vai depender do educador na medida em que, sendo um meio de acção sobre o que a rodeia, estas crises espásticas facilmente se transformam em comportamentos reflexos de tipo condicionado.
Como orientação para proceder ao exame psicomotor seguimos ainda as linhas gerais preceituadas por René Zazzo no seu Manual para o exame psicológico da criança (**). Assim, e quanto à dominância lateral, concluímos pela esquerda bem integrada: usa o olho esquerdo para espreitar por um tubo de papel, o ouvido esquerdo para escutar o relógio, na prova da diadococinesia (marionetas) a melhor mão é a esquerda, e usa o pé esquerdo para chutar e "jogar patela". Quanto à orientação direita-esquerda, não apresentou dificuldades nas provas de braços cruzados (Piaget) ou de imitação das figuras "mão-olho-orelha" (Head). Quanto às gnosias digitais também aqui a exactidão das respostas nos leva a concluir pela ausência de problemas. Não mostrou sincinesias nas provas de sincinesias, designadamente da motricidade facial, da motricidade digital, ou de sincinesias dos membros superiores (marionetas / diadococinesia). Nos cubos de Kohs-Goldstein fez correctamente até ao 7º, e não fez o 8º, o 9º, nem o 10º, o que corresponde a uma pontuação de 80, sugestiva de uma estruturação espacial pobre (<= 8 anos). Na prova gráfica de organização perceptiva (Bender) a maior dificuldade no modelo I e a sua ausência no modelo III, aliadas a um grau moderado no modelo 5, estão de acordo com a média da idade, designadamente 56.5 para os 11-12 anos.
Quanto à prova do bestiário e aos três desejos, os três desejos foram (1) ter uma casa nova, (2) ter uma criada e (3) ter um carro com chauffeur, "porque", disse, "não sabemos guiar". Em relação aos animais, (1) gostaria de ser "um pássaro, para voar, conhecer países... um pássaro pequeno"; (2) não desejaria ser "uma cobra; não gosto delas porque ferram", concluiu; os animais que mais aprecia são o cão, o gato - tem um - e o papagaio - "porque fala", explica -; finalmente, "porque metem medo", não aprecia o tigre, o leão, nem o urso.
As escolhas animais, quer em termos de escolha, quer de rejeição, estão inteiramente de acordo com o sexo e o grupo etário. Sendo a C. C. A. M., fisicamente, uma criança pequena, encontrou no pássaro a característica física identificadora do animal, em regra tido como amável e necessitado de afecto, projectando sobre ele os seu anseios de liberdade e mobilidade. A necessidade de ser objecto de afecto confirma-se, aliás, no cão, se bem que acrescentando uma retribuição através de amizade cordata, de uma gentileza com tonalidade servil. Num segundo plano, vai a afirmação pessoal ser encontrada na expressão verbal não reprimida, característica conferida pelo papagaio, a que acresce a confirmação da liberdade de ir para toda a parte, agora de tonalidade felina, ou seja, a liberdade de, muito particularmente, afirmar, sem ruído, a sua sensualidade, por um lado, e maternidade, por outro. De acordo está também a contra-identificação com a agressividade cruel da serpente, da qual ninguém gosta. Por outro lado, quer o tigre, quer o leão, quer ainda o urso, se são igualmente símbolo de crueldade, são, por outro, exemplos de animais feios porque grandes, ou mesmo gordos.
Expressão gráfica: constata-se uma certa rigidez do controlo emocional traduzida pela falta de espontaneidade do refúgio na simetria - das figuras humanas, casas, árvores, balões agrupados, escola, baliza, etc. Essa defesa, em relação a um mundo encarado como hostil, é tanto mais evidente quanto é frequente o recurso ao traçado de uma aura arqueada em torno da figura humana - guarda-chuva, arco de S. João, "balão de legenda", etc.
Expressa-se também o reconhecimento pré-púbere de caracteres sexuais, seja através de balões que se erguem, distintivamente, a partir das figuras masculinas, seja ainda das lâmpadas, seus equivalentes, que o irmão coloca, rejeitando as usadas, quais pequenos sóis num céu que, rebaixado à altura de um teto, se encontra por baixo do seu modelo paterno.
A repressão e racionalização desta criança insegura exprimem-se aqui, não só na simetria bilateral, mas também na rigidez da exactidão e do detalhe com que os elementos criados e sucessivamente repetidos afrontam o caos do mundo exterior e mantêm o self. Esta atitude defensiva e impeditiva da espontaneidade está também patente na postura erecta e na tensão vigilante que se extrai do estatismo das figuras humanas; essa fraqueza do eu, receoso de se deixar levar pelo caos interior dos seus impulsos, bloqueia uma certa irresponsabilidade indulgente necessária à auto-afirmação.
Esta criança inteligente, mas com problemas emocionais, indicia pois inibição da personalidade traduzível como timidez e desajuste ao meio. Esse receio nas relações com os outros, essa instabilidade emocional para a inter-relação, torna-a relutante em estabelecer contacto, em se expor, e leva-a a retrair-se e autodirigir-se. Da porta da casa que sucessivamente nos desenha, somos levados a concluir igualmente pelo desejo de protecção, o que é particularmente reforçado pelas janelas da casa feita a 15 de Junho (de 1989), as quais denotam, efectivamente, retraimento e extrema relutância à interacção com os outros.
A chaminé, símbolo fálico patente na "casa a que se dirige depois de sair do lar", e aqui reportamo-nos à representação gráfica da história da menina do capuchinho vermelho que espontaneamente elabora em 8 de Junho (de 1989), a chaminé, dizíamos, liberta fumo dirigido para o lado, como que por efeito do vento, reflectindo os sentimentos de pressão ambiental. As florzinhas que ocasionalmente ornamentam as casas dizem-nos provavelmente de um desejo seu de conquistar algo.
Também a ausência de galhos nas árvores que nos apresenta traduz a ausência de expansão no trato com os outros. O tronco curto, mas mais longo do que a copa como é habitual nas meninas desta idade, aparece-nos aberto nas partes superior e inferior à custa de curvas para a esquerda e para a direita, o que sugere de igual modo pressão externa e falta de expressão do eu, porém com vivacidade de fundo emocional; mais sugere indecisão e comportamento flutuante entre apego à mãe e desejo de expansão. As dificuldades de tipo neurótico exprimem-se também pela linha que separa a copa do tronco, copa de linhas simples, em regra, como sinal reforçador de imaturidade afectiva. A sua forma elíptica fechada, como que envolvida por uma membrana, sugere, por um lado, convencionalismo, puerilidade, ingenuidade, medo da vida real, e por outro, num paralelo reforçador da leitura dos traçados arqueados em aura, retraimento e timidez. O esboço de arcadas prefigura os bons modos e a obsequiosidade, e o facto de, em regra, só ser contornada, de não ter recheio no campo da expressão do indivíduo, traduz um certo vazio de alma. A árvore em si, relativamente pequena, traduz controlo, regressão, desencorajamento.
Quanto à proporção entre as figuras humanas apresentadas pela ordem que segue no desenho da família, não sendo concordante com as respectivas idades, aponta para uma hipervalorização da irmã mais velha a qual, maior de facto, e surgindo em primeiro plano, é encarada como figura dominante e alvo de ciúme. A C. C. A. M. e o irmão, na sua distribuição espacial, formam um subgrupo, tal como o pai e a mãe, inicialmente omitidos. Nas cores, por outro lado, a C. C. A. M. atribui-se, tal como à irmã e ao pai, variantes do azul, por entre inibição, desejo de afirmação e tristeza; já para a mãe os tons são mais afins do encarnado, num misto de vigor e ansiedade. O irmão, a roxo, surge neste enquadramento numa posição de compromisso. Estas foram, aliás, as cores que a C. C. A. M. pôs em confronto, imediatamente antes, num campo de futebol que desenhou.
Os olhos, representados como um traço, sugerem imaturidade afectiva para enfrentar problemas, introversão, não aceitação do meio, e mesmo fuga perante situação de facto. O cabelo encaracolado, muito certo, sugere moralismo e repressão sexual. O traço da boca, confirmador de introversão e/ou rejeição do ambiente, aparece ocasionalmente como um sorriso de palhaço em busca de simpatia forçada. A omissão das orelhas, relativamente comum, sugere uma passividade que, de algum modo, vai de encontro à feminilidade do queixo redondo, feminilidade essa também expressa através do guarda-chuva aberto. Já a omissão do pescoço, essa zona de conflito entre o controlo emocional e os impulsos corporais, aponta para uma dificuldade de coordenação dos impulsos de caracter regressivo. Os braços e mãos, expressão da inter-relação, conduzem-nos ao desenvolvimento do eu e sua adaptação social, designadamente em termos de grau e espontaneidade. Assim é que o ângulo em relação ao corpo, na sua horizontalidade mecânica, reflecte superficialidade e não afectividade no contacto, reforçada pela falta de confiança no mesmo patente nos contornos imprecisos da mão; esta, porém, estando aberta, traduz a necessidade de afecto, se bem que reprimida conforme mostram os dedos quase ausentes. A cintura aparece-nos marcada com o traço da preocupação com os impulsos, e os pés, para um e outro lados, dissimulam conflito, indecisão e ambivalência.
A história da Menina do Capuchinho Vermelho, cuja representação gráfica, conforme já foi mencionado, elaborou espontaneamente, é uma história que, de certa forma, com a morte do lobo, traduz o aliviar das angústias próprias da pré-adolescente que tem de enfrentar o mundo fora da família. Claro que a história tem sentido a diversos níveis, e só a criança pode saber quais os sentidos que têm significado para ela num determinado momento. À medida que vai crescendo descobre novos aspectos. No entanto esta história em particular levanta alguns problemas cruciais que a rapariga em idade escolar tem de resolver se os afeiçoamentos edipianos se vão deixando ficar no inconsciente. Ou seja, esta história é passível de ser lida em dois planos a não confundir: o do problema identificado, e o da rapariguita que, na entrada da puberdade se sente fascinada pela reactivação dos sentimentos edipianos de seduzir e ser seduzida pelo pai.
Em sua própria casa, capuchinho vermelho, protegida pelos pais, é a criança pré-púbere, sem perturbações, bastante competente para lutar. Na escola, id est, em casa da avó, a pequena sente-se indefesa e incapacitada pelos seus encontros com o lobo. Esta casa da avó, numa perspectiva oral, representa a má mãe que a abandonou; no entanto, ultrapassada a angústia oral, ela compartilha alegremente os alimentos com o caçador. O mundo fora da casa paterna, efectivamente, não é tão ameaçador que a criança não possa encontrar o seu caminho; de facto, a mãe ensinou-lho, e agora, ao pedir-lhe para ir levar os bolinhos à avó, demonstra-lhe a sua confiança e reconhece-lhe (não sem dificuldade) maturidade suficiente.
Na história que nos é apresentada a menina pura e simplesmente encontra o lobo, sem que para isso tenha de desobedecer às instruções da mãe e ir colher flores fora do caminho. Esta é uma criança obediente, ou seja, subjugada pelo princípio da realidade, e o perigo só a assalta porque está lá à partida, porque faz parte do mundo exterior, e não porque ela ceda ao princípio do prazer quando se apanha fora de casa. Aliás, neste caso a mãe não necessita de fazer recomendações; ela como que sabe quem tem, antes aparecendo a pedir-lhe que faça uma incursão fora de casa.
Capuchinho é pois uma criança que, sem estar emocionalmente preparada porque ainda não dominou os seus conflitos edipianos, tem de lutar com problemas púberes. Ela projecta esses conflitos nos perigos que o lobo materializa, livrando-se depois deles. Para isso, no entanto, as figuras maternais da mãe e da avó não são de grande valia, pelo que têm de recorrer ao auxílio do pai figurado, responsável, forte e libertador, a quem depois recompensam. Na fantasia da C. C. A. M. este pai, seu aliado, vai materializar um ego que se protege, não necessariamente da sedução masculina, mas pelo menos das tendências egoístas, violentas e potencialmente destruidoras do id, atribuídas ao lobo, à professora que fuma e bate com régua metálica. O amadurecimento, para ela, terá de passar pelo reconhecimento dessa natureza contraditória, reconhecimento que permitirá a integração.
As dificuldades edipianas que permanecem sem resolução patenteiam-se antes no facto mal aflorado de ela fornecer ao lobo indicações específicas que lhe dão a oportunidade de suprimir a mãe figurada. O capuchinho, se sugere que a miúda é pequena, também tem a cor das emoções violentas para as quais ela não se sente preparada; e assim é que reage regressivamente, desembaraçando-se à maneira edipiana da concorrente que é a mãe do segundo grau. A angústia inerente à culpa, surge face ao castigo que o lobo, e a professora, ameaçam infligir-lhe. Resolve-se no entanto deslocando-se para o outro prato da balança da ambivalência, id est, ela evita a destruição empurrando a solução para o pai. E assim é.
Neste ponto constata-se que a cena em que a menina vai para a cama com o lobo e o questiona sobre várias partes do corpo aparece censurada; não sabemos porém, se a supressão é ou não anterior à criança, pelo que não a podemos valorizar. Sabemos, isso sim, é que as possíveis implicações sexuais são pré-conscientes. O lobo não a come mal a encontra, pois que ela nunca será sua enquanto a avó-mãe existir. Os desejos têm de estar reprimidos, pois que a filha só pode ocupar o lugar da mãe, e ser seduzida pelo lobo, quando ela desaparecer; e neste caso, recorde-se, a C. C. A. M. quer afastar virtualmente a potencial rivalidade da irmã mais velha, e faz questão de no-lo sublinhar, ainda que mobilizando o pai pela via do adoecimento, e acabando assim com as relações tempestuosas entre ele e a irmã, às quais retira fundamento.
O caçador, matando o lobo e salvando-a, é uma figura boa dado que a sua violência serve um fim apreciável. Já o lobo é castigado com a morte pela sua sofreguidão oral. É por esta via, aliás, que ela, de novo aliada da mãe-avó, recompensa o caçador.
Depois da libertação regressa a casa muito melhor e mais feliz, e aí conta à mãe o sucedido. De facto não se sente melhor pelo renascimento, pela transformação interior; esse tipo de resolução não está ainda presente. O que a pôde sossegar foi a confiança depositada na relação com o pai, liberta agora da culpa em relação à má mãe que a tinha enviado para o perigo. Ou seja, ela resolve a sua ambivalência, aparentemente, decidindo-se a acatar o super-ego e a não ceder aos desejos edipianos, aceitando o pai mais pelo aspecto protector do que sedutor. De facto o que acontece é que ela não aceita os perigos da vida na forma que lhes dão os adultos, e passa a fazer o que se sente motivada para fazer: brincar com os seus amiguinhos animais. Ou seja, refugia-se de novo na sua inocência infantil quando urgida a enfrentar a conspiração dos adultos, ainda não renascendo através da subjugação da crise existencial própria de quem encontra os perigos dentro de si. Ainda não estamos perante o amadurecer de uma jovem virgem, mas sim de uma criança assustada que se pretende negar à inevitabilidade diacrónica.

Formulação

Informadores: além da C. C. A. M., as informações foram em regra colhidas junto do pai, sendo mesmo de realçar a não vinda da mãe às consultas; na única entrevista que conseguimos com a mãe esta revelou-nos, a seu modo, a forte inclinação da C. C. A. M. para o pai, o qual, se bem que lha corresponda, sempre o faz com certa restrição afectiva; seja por exemplo quando lhe pede para sair com ele, é por vezes rejeitada conforme o humor de momento. Por outro lado, se a C. C. A. M. tem, junto do pai, uma rival na irmã mais velha, num plano consciente ela também sabe, sem margem para dúvidas, até porque o verbaliza, que ela é que "é parecida com o pai", porque a mais velha nem sequer é filha dele.
A postura deste pai face ao terapeuta, enquanto informador, sempre foi de desconforto e contrariedade, no que obteve fácil intenção para contrariar as pretensões da filha quando esta se pretendia recusar a ir à escola; nesta atitude não foi, naturalmente, apoiado pela mãe.
A relação transferencial com o terapeuta pode afirmar-se algo superficial, porque revestida de uma polidez tradutora de afecto reprimido, tanto mais compreensível quanto permanentemente ensombrada pela omnipresença paterna. É no entanto aceite positivamente através da simbologia expressa nas diversas actividades propostas e que assumem caracter lúdico. Diríamos que na designação de um problema escolar que a C. C. A. M. é instada a assumir como primo movens da consulta, a culpabilidade desse sair do lar é projectada no lobo-professora de que o caçador-terapeuta a ajuda a libertar, vindo este pai bom a ser recompensado com os alimentos propiciados pela C. C. A. M. agora aliada da avó-mãe.

Resumo
A irmã mais velha, conforme se pôde verificar, desempenha um papel fulcral na dinâmica familiar, e isto desde a altura em que a gravidez materna constituiu, muito provavelmente, um factor determinante de um casamento a que a família dele, talvez por isso mesmo, sempre se opôs, até às actuais discussões em que o A. M. S. M., algo reactivamente, tenta angariar o seu afecto sendo por ela abertamente rejeitado, quiçá por descodificação subliminar da autêntica mensagem, e passando ainda pelo papel de relevo enquanto irmã mais velha, o que nos é transmitido pela C. C. A. M. quando, por exemplo, interrogada a dada altura sobre a duração da sua onicofagia, responde: "a minha irmã também rói as unhas!", ou então quando nos refere espontaneamente, e mal a oportunidade de estar a sós lho permite, que a irmã não é filha do seu pai. Aliás, não foi outra a mensagem do pai ao fornecer os elementos de identificação, senão a de emitir o seu parecer inconsciente sobre qual era de facto o problema daquela família. Essa posição é corroborada pelas entrelinhas do discurso materno ao afirmar que o pai, de facto, só tinha olhos para a mais nova, ao passo que para ela, mãe, a primeira não foi uma filha que tivesse vindo "por esquecimento" para usar a sua expressão. A corroborá-lo ainda, veio depois a dificuldade em conseguir entrevistá-la, independentemente de levarmos a nossa insistência ao ponto de fazer convocações por escrito e pelo telefone; de facto, apesar de doméstica, não foi possível entrevistá-la mais do que uma vez, e mesmo assim debaixo da vigilância atenta do marido, que sempre intervinha de modo dominador quando achava oportuno. A não assunção desta problemática inconsciente terá conduzido à designação da C. C. A. M. como válvula de escape para as tensões no interior da família, permitindo assim manter uma homeostase precária à custa deste "bode-expiatório".
Avaliação psicométrica: O exame psicológico, de certo modo, veio de encontro às hipóteses formuladas. Da respectiva ficha transcrevemos o parágrafo final que lhe serve de "Conclusão: Não está em causa a capacidade intelectual da C. C. A. M., mas a forma como vivencia a sua própria pessoa no quadro familiar, e a fobia escolar poderá e parece ser apenas uma expressão acidental de toda uma problemática afectiva grave, a desencadear-se na puberdade em função da situação familiar."
Classificação diagnóstica: fobia escolar com manifestações somáticas.
E se a classificação como tal não oferece dúvidas, isso deve-se antes do mais ao carácter abrangente de tal categorização nosológica, o qual lhe esbate certas características, seja de poder prognóstico. Assim, e se recorrermos ao esquema nosológico Sindromático - Etiológico - Clínico de Mira Coelho, teremos duas possibilidades categoriais de prognósticos perfeitamente distintos dentro do Síndromo Neurótico de tipo B (psicógeno, simbiótico ou inter-relacional); designadamente: o subtipo 1, referido ao comportamento reactivo e manifestações somáticas associadas, e o 3, antes relativo ao comportamento fóbico-obsessivo propriamente dito. Na sentida falta de critérios operatórios, dispusemo-nos remeter a ulterior discussão para uma sempre possível classificação em subtipos.
Plano terapêutico:
Não ignorando naturalmente o conteúdo manifesto do discurso, o qual se reporta às causas próximas, designadamente a nível da escola, consideramos que, a confirmar-se a plausibilidade das hipóteses formuladas, uma resolução da ansiedade fóbica capaz de alcançar um plateau terapêutico de tipo profiláctico em relação a outras manifestações psicopatológicas de nível neurótico, terá de ponderar seriamente a intervenção terapêutica a nível da clarificação das interacções no seio da família, tal como a nível individual, naturalmente.
Por tal facto, desse tipo de intervenção impenderá um prognóstico a longo prazo; não da resolução do "bilhete de entrada", id est, do sintoma que trouxe o paciente identificado à consulta, mas sim o do ponto de vista do bem-estar e saúde mental futuros.
Por outras palavras, planificada a intervenção capaz de resolver a questão do absentismo escolar, deve a orientação terapêutica ponderar a possibilidade de propiciar um ambiente capaz de permitir uma travessia harmoniosa do período lítico da adolescência. Tal desenvolvimento poderá constatar-se nas mudanças a nível da inter-relação, pois que a crescente abertura mútua a este nível permite reconhecer a maior autoconfiança; esta, como desde sempre sublinhou Rogers (1961), quando patenteada pelo paciente pode ser encarada como um dos indícios major da eficácia terapêutica.
Ora é exactamente como concurso para o esclarecimento das dúvidas em termos de diagnóstico e classificação, bem como para a planificação da intervenção em situações de fobia escolar, que nos propusemos fazer uma breve revisão, revisão essa a que deliberadamente incutimos um certo cunho comportamental, pois que julgamos ser esse o pendor a considerar numa primeira fase da abordagem.Topo

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Introdução

A importância do absentismo escolar, sobretudo quando persistente, resulta de várias ordens de factores, mas sobretudo das implicações legais, uma vez que na nossa sociedade a educação é obrigatória, e por outro lado das consequências para a criança em termos de desenvolvimento e futura adaptação social e escolar.

Muitas razões há capazes de conduzir a esta forma de absentismo, mas a doença física e os problemas relacionados com a saúde estão de facto na origem da maior parte dos casos. Uma das causas possíveis, e desde há muito reconhecida, é a ansiedade desmesurada em relação a situações escolares.

Para referir esta situação Johnson e colaboradores (1941) utilizaram pela 1ª vez a designação fobia escolar.

Diagnóstico

Desenvolvidos ao longo dos anos, os critérios de diagnóstico mais largamente aceites de hoje em dia são-nos propostos por Berg e colaboradores (Berg et al, 1969):

  • sérias dificuldades em frequentar a escola resultando habitualmente em absentismo persistente;
  • perturbação emocional grave, designadamente medo desproporcionado, acessos temperamentais de cariz explosivo ou queixas de se sentir doente na contingência de ter de ir para a escola;
  • estar em casa com conhecimento dos pais quando devia estar na escola;
  • ausência de manifestações antisociais tais como roubo, mentira e destrutividade.

Num contexto clínico usa-se frequentemente a designação angústia de separação(*) para descrever o que é encarado como "patologia subjacente", ie, a ansiedade como expressão do medo de perder a mãe.

Este ponto de vista, prevalente na escola psicanalítica (Estes, Haylett & Johnson, 1956), veio a ser incorporado igualmente pelas formulações comportamentais (Yates, 1970). No entanto, de um ponto de vista puramente diagnóstico, deve ter-se em linha de conta que a angústia de separação é considerada só por si como uma categoria nosológica, sendo enquadrada pelos distúrbios de ansiedade da infância e adolescência (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Third Edition, Revised. 1987).

Por outro lado ainda, outras razões há capazes de conduzir à recusa escolar sem terem nada a ver com ansiedade em relação à escola; é o que acontece, designadamente, com as crianças que não ficam em casa durante o período escolar e a que habitualmente se chamam "vadias", as quais podem mesmo apresentar outros distúrbios de comportamento além dos de tipo mentira, roubo, aldrabice e destrutividade. A distinção entre esta situação e a fobia escolar, conforme notam Ollendick e Mayer (1984), está perfeitamente estabelecida nos critérios de Berg et al (1969), aos quais estes autores, visando torná-los operacionais, vieram a acrescentar a duração do período de faltas de pelo menos 2 semanas (bem como índices de medo).

Face a um comportamento de recusa escolar, e para fins de diagnóstico diferencial, deve-se pois começar por ter presente a possibilidade de negligência ou mesmo retenção voluntária por parte de um dos pais. Depois então, ao despistar as causas possíveis, deverão ter-se em mente a ansiedade de separação, a manifestação fóbica, uma forma de expressão de patologia depressiva, um distúrbio psicótico ou ainda um distúrbio da personalidade (Hersov, 1985).

Epidemiologia

Tal como acontece com as fobias infantis dum modo geral, tem sido difícil calcular a incidência de fobia escolar. Num estudo feito na Ilha de Wight (Rutter, Tizard & Whitmore, 1970) com crianças de 10-11 anos, foram encontrados valores da ordem dos 0.3%, metade dos quais se refere a situações clinicamente significativas, ao passo que a outra metade antes se refere a situações moderadas de receios relacionados com a escola. Leton (1962) diz que 0.3% dos alunos da escola primária (e 1% dos do ensino superior) passaram por situações de fobia escolar em um ano qualquer dos da sua escolaridade. Ollendick e Mayer (1984), utilizando os critérios de Berg e colaboradores, encontraram uma incidência de 0.4% no sudoeste da Virginia.
Os números apontam, pois, para valores inferiores a 1% ao ano. No entanto autores há que referem uma tendência para aumentar (Eisenberg, 1958), sendo que as recusas escolares estão na base de 1 a 8% das consultas vocacionadas para o atendimento destas crianças (Hersov, 1985). Porém, se tivermos em mente o stress virtual que implica o sair de casa, bem como as possíveis fontes de trauma na escola, ficaremos surpreendidos com este número relativamente reduzido de consultas. Se pensarmos melhor, porém, iremos atribuir esse facto, por um lado, a firmeza de pais e professores quanto à frequência escolar, sobretudo aquando da entrada na primária e da transição para a secundária; por outro, a expressão somática desta situação leva os pais prioritariamente aos médicos de família ou seus equivalentes, os quais, por sua vez, conseguem resolver muitas destas situações (Shepherd et al, 1966).Topo

Classificação

Visando diferenças de prognóstico vários autores têm avançado classificações em subtipos. Assim, Coolidge e colaboradores (1957) diferenciam as situações ditas "neuróticas" e as "caractereológicas", referentes a situações crónicas, cujo prognóstico à partida é mais reservado. Kennedy (1965) tenta operacionalizar estes tipos, a que chamou I e II, por meio de critérios comportamentais. Indo de encontro à classificação de Berg (Nichols & Berg, 1970), estes subtipos são encarados como "agudo" e "crónico", sendo que, independentemente da sua ulterior duração, são necessários três anos de frequência escolar sem problemas para que se possa considerar estar perante um caso agudo. Pretende-se pois que as outras situações, assim classificadas como crónicas, mostram mais neuroticismo, dificuldades de adaptação, apego à mãe, tendência a permanecer em casa, e menos interesse por outras crianças da mesma idade, bem como menor liberdade de movimentos fora de casa. Isso mesmo concluiu Berg (1970) num estudo de follow-up em que os adolescentes em causa se revelaram mais perturbados e refractários ao tratamento do que os considerados casos agudos.
Uma classificação algo mais alargada é a que nos propõe Marine (1968), descrevendo a simples ansiedade de separação (que se refere à semana da entrada na escola), a recusa escolar aguda moderada (de início dramático, corresponde de certa forma ao anteriormente referido tipo I), a recusa escolar crónica grave (mutatis mutandis para o tipo II) e a psicose infantil com sintomas de recusa escolar.
O valor destas classificações prende-se, como foi dito, às suas implicações prognósticas, bem assim como à selecção de técnicas terapêuticas. No entanto, para que tais destrinças conceptuais possam assumir pleno significado na praxis clínica, necessário se torna um maior corpo de investigação capaz de corroborar as suas validade e fiabilidade. Tal investigação pode, inclusive, partir de diferentes pressupostos, sejam eles, por exemplo, de natureza etiológica (eg angústia de separação, situações escolares específicas, absentismo consequente a doença) ou antes relacionados com características topográficas da fobia (eg frequência, intensidade e duração). Dum ponto de vista meramente clínico a aparente multiplicidade de factores individuais capazes de desencadear e manter o evitamento escolar, afigura-se de molde a sugerir uma abordagem individualizada do comportamento, ou seja, uma avaliação capaz de fazer depender o prognóstico, não de uma qualquer categoria diagnóstica geral, mas antes das características de uma determinada criança num dado contexto familiar e escolar.Topo

Etiologia

De um ponto de vista tradicional este padrão comportamental de desadaptação resulta da não resolução da relação de dependência entre mãe e criança, não resolução essa geradora de ansiedade em ambos aquando da separação; daí a angústia de separação. Esta interpretação não está de facto posta de lado.
De um ponto de vista meramente teórico, no entanto, também deviam, à partida, ser considerados significativos os factores ligados a dificuldades escolares, designadamente os relacionados com os professores, com o insucesso ou com a rejeição por parte dos colegas. Na realidade não é bem isso o que se passa (Gordon & Young, 1976), se bem que o modelo comportamental, na sua análise, integra sem dificuldade tais factores inerentes à escola, tal como faz com os acontecimentos relacionados com o lar.
De acordo com o modelo de condicionamento estímulo-resposta (S-R) proposto por Garvey and Hegrenes (1966), a criança desenvolve receios de perder a mãe como resultado de comentários sobre abandono e separação; este medo torna-se verbalmente condicionado a ideias de ir para a escola, onde a criança perderia a sua mãe. Intensificando-se, este medo leva a que a criança acabe por se recusar a ir à escola, altura em que o ficar em casa resulta como reforço, seja reduzindo o medo, seja através de outras recompensas como brinquedos ou afecto. Uma das principais críticas a este modelo resulta da não consideração dos factores relacionados com a escola.
Mais abrangente é o modelo comportamental proposto por Yates (1970), o qual integra a importância da relação mãe-criança, uma vez que considera os pais como fortes reforçadores no período pré-escolar, o que leva a criança a considerá-los como um refúgio quando se sente insegura ou assustada. Emoções de cunho ansioso em relação à separação podem ser apresentadas e reforçadas por uma mãe (ou pai) excessivamente preocupada com a segurança da sua criança. Daqui resultará muita da ansiedade das crianças que se separam da mãe para ir pela 1ª vez à escola; se esta ansiedade resultará ou não em medo, isso vai depender de uma capacidade reforçadora da escola capaz de competir eficazmente com tal ansiedade, bem como da resposta materna a tais receios: "Assim, a génese da fobia escolar pode ser determinada de modo complexo por um ou mais dos seguintes factores: ansiedade de separação conduzindo a uma superdependência de casa, tida como um refúgio seguro; recompensas insuficientes na escola ou mesmo experiências geradoras de ansiedade; e possivelmente acontecimentos efectivamente traumáticos na escola, como é óbvio" (p.152). Este modelo resulta pois mais equilibrado, posto que por um lado não descura os factores relacionados com o lar, e por outro põe a tónica nos relacionados com a escola, como é o caso das recompensas insuficientes e dos acontecimentos traumáticos nesse enquadramento.
Para tentar avaliar o significado da angústia de separação enquanto factor causal de fobia escolar, Smith (1970) conduziu um estudo ao longo de 6 anos em que colheu variáveis entre precipitantes e sinais ou sintomas. Em 27 dos 63 casos o precipitante tinha sido a mudança de escola, e na maior parte deles da primária para a secundária. Em nove outros havia história imediatamente anterior de acontecimento traumático relacionado com a escola. Oito das crianças tinham vindo a faltar antes por doença. Sete sucederam a episódios familiares desagradáveis. Uma das crianças mostrou medo depois de ver um filme. Três delas iam à escola pela primeira vez. Nas restantes oito não foi identificado o precipitante. Na análise sintomática que fez, o autor encontrou 12 crianças (menos de 20% dos casos) com acentuada ansiedade ao separar-se dos pais e/ou dependência da mãe. Quatro outras manifestavam a ligação aos pais dizendo recear que algum mal lhes acontecesse se estivessem separados. Aliás, o autor distingue entre a recusa e o medo de deixar os pais. De facto em 10 dos casos os sintomas relacionavam-se mais com instrumentalização e indulgência do que propriamente com o medo. Além disso 21 das crianças mostravam-se amedrontadas de um modo geral, não melhorando com a presença dos pais; nestas, inclusive, outros medos se manifestavam, fosse em relação à violência, a situações sociais, à doença, ou a sair mesmo se acompanhadas por um dos pais. Outros casos foram categorizados, por exemplo, como medo do fracasso, depressão ou isolamento esquizóide. A finalidade destas atribuições, se questionável, é-o sobretudo no caso de não se ter dado a separação. No entanto o autor conclui que, de entre as crianças tratadas por este tipo de problema, as que tinham ansiedade de separação formavam um grupo distinto; no seu estudo esse grupo estava em minoria, sendo que em 2/3 dos casos a idade era de 8 anos ou menos.
Opinião conforme é também a de Miller et al (1972): "O medo da separação, que muitas vezes se considera nuclear nas fobias escolares, foi encarado como alvo quando a separação era primária e o medo se reproduzia em muitas situações. Catorze dos nossos 46 casos de fobia escolar" - diz o autor - "mostravam tal medo generalizado da separação" (p. 270).
Leung (1989), por seu turno, admite que em muitos dos casos a causa subjacente é a angústia de separação.
Em termos puramente comportamentais, no entanto, pode explicar-se a etiologia e a manutenção da fobia escolar sem ser necessário o recurso à angústia de separação (Ollendick and Mayer, 1984). Assim, certas crianças manifestam-se negativamente em relação à escola e decidem ficar em casa, onde se sentem melhor. Os pais e outros elementos significativos podem, sem querer, reforçar tais manifestações, contribuindo para o evitamento escolar. Nesta altura a criança não tem, provavelmente, grande medo da escola, mas para ela é mais fácil e reforçador ficar em casa onde lhe dão atenção e afecto. Claro está que a sua recusa pode ser genuína e traduzir o que a criança encara como um ambiente punitivo - seja em termos de criticismo sentido ou de fracasso escolar -. Por outro lado as queixas podem ser desproporcionadas; o que acontece aí é que a criança se apercebe de que os pais estão demasiado sensibilizados para tais queixas, dispensando-lhe atenção. Portanto, uma ligeira reacção de medo obtém respostas importantes por parte dos elementos significativos, e quanto mais medo e evitamento mais atenção. A experiência clínica, por outro lado, sugere que estas crianças se sentem constrangidas na escola, com preocupações relacionadas com os trabalhos escolares e com as interacções. Experiências aversivas podem, assim, resultar da criança não se sentir capaz de dar resposta às exigências que lhe são feitas. Trata-se de crianças carentes em relação às aptidões sociais que lhe são exigidas, e com pouca autoconfiança para o relacionamento com colegas e professores; as consequências negativas surgem, inevitáveis, face a exigências deste tipo presentes em quase todas as actividades circum-escolares.
Muitas das crianças com problemas deste tipo, conforme nos relata Hersov (1960), receiam um professor rígido ou sarcástico ou o insucesso escolar. Estes factores, contudo, não podem ser os únicos responsáveis, até porque muitas destas crianças continuam de facto a ir à escola. Ou seja, a consideração tem de ser feita caso a caso, e se tais factores não tiverem grande peso na etiologia, já em termos de manutenção eles não devem ser subestimados.
Finalmente, mas porque não podem deixar de ser mencionados, factores há que de algum modo se relacionam com a história familiar. Bernstein & Garfinkel (1988) relatam uma maior incidência de ansiedade e depressão em familiares do 1º grau, bem assim como um funcionamento familiar mais perturbado. De encontro a este ponto de vista vem também o trabalho de Rosenbaum et al (1988) em que se determina uma incidência significativamente mais elevada de inibição comportamental em situações que escapam à rotina, entre os filhos de doentes com distúrbio de pânico e agorafobia; além disso o distúrbio depressivo major, que só por si não agrava o risco, é um co-factor de morbilidade quando se associa, nos pais, ao distúrbio de pânico e agorafobia.Topo

Intervenção Terapêutica

Comportamental

Caracterizando-se este síndromo de fobia escolar, como vimos, por acentuada ansiedade em relação a ir à escola e/ou absentismo, podendo fazer-se acompanhar de queixas somáticas (Leung, 1989), têm de se reconhecer desde logo, como o fizeram Lazarus et al (1965) pela 1ª vez, dois componentes responsáveis pela manutenção do comportamento: o clássico ou respondente e o instrumental ou operante, respectivamente. Em relação ao primeiro, no qual o evitamento se associa a níveis elevados de ansiedade, recorre-se a técnicas de contracondicionamento clássico; no 2º, em que estarão mais envolvidos reforços secundários, a tónica é posta em estratégias operantes. Estas são, provavelmente, as mais importantes, sobretudo desde o momento em que se consiga que (1) os pais reconduzam a criança à escola, o que deve acontecer tão cedo quanto possível (Leung, 1989), ainda que, se necessário, usando de firmeza; desde logo se verificará, fazendo com que a mãe acompanhe a criança à escola, se o problema está mais centrado na separação, se no evitamento fóbico.
Quanto à modelação, face a uma ansiedade muito marcada, deve estabelecer-se (2) um programa de dessensibilização sistemática por aproximações sucessivas, mas valorizando sobretudo um modelo paralelo em que (3) se vão reforçar os valores relacionados com a aceitação escolar (aceitação e aprovação por parte dos colegas, dos professores, e dos pais) e (4) reduzir os relacionados com o ficar em casa (perder a atenção dos pais, não ver televisão, etc.).

Psicofarmacológica

Dada a sua acção nas crises de pânico espontâneas do adulto agorafóbico, e considerando a separação como a principal causa, foi ensaiada a imipramina. Em doses de 100 a 200 mg distribuídos por 2 tomas diárias, os resultados fazem-se sentir em 6 a 8 semanas, embora se deva manter a medicação por mais 4 semanas além da remissão, reduzindo depois gradualmente para minimizar a abstinência (náuseas, dores abdominais, vómitos). Os efeitos laterais são desprezíveis, sendo a secura de boca o mais comum; no entanto também podem aparecer hipotensão ortostática, sudação, e trémulo ligeiro.

Em conclusão pode afirmar-se que, em determinados casos que envolvem angústia de separação, a terapêutica antidepressiva pode ser valiosa (Gittelman-Klein & Klein, 1971, 1980). Não pode porém ser descurada, em caso algum, a intervenção psicoterapêutica junto da criança, nem o trabalho junto dos pais e/ou outros elementos familiares significativos, bem como se deve ter sempre presente que a criança deve regressar à escola tão cedo quanto possível. Aliás, a eficácia terapêutica deve, em última análise, ser avaliada através da autoconfiança patenteada pelo paciente (Rogers, 1961), e esta, conforme anteriormente mencionado, reconhece-se numa crescente abertura mútua, id est, nas mudanças a nível da inter-relação capazes de traduzir tal desenvolvimento.Topo

Prognóstico

Estou em crer que o que de importante havia a dizer sobre este assunto já foi dito aquando da classificação em grupos ou subtipos. No entanto, e à guisa de conclusão de cariz genérico, pode dizer-se que é relativamente bom em pré-adolescentes e relativamente mau em crianças mais velhas (Leung, 1989).
Constata-se, além disso, que os casos de recusa escolar vêm a ser adultos com uma probabilidade significativamente mais elevada de serem acompanhados em consulta psiquiátrica; por outro lado, também tendem a ter menos filhos seus (Flakierska, 1988). No entanto, em relação a uma adaptação social em termos gerais ou a distúrbio psiquiátrico grave (no sentido de exigir internamento), as diferenças, em relação à população em geral, não são assinaláveis.


(*) Henri Wallon: Les Origines du Caractère Chez L´Enfant. les prélude du sentiment de personalité (7 ed), Paris: Presses Universitaires de France, 1949, 1980. [tr port de Mário Franco de Sousa: As Origens do Carácter da Criança. Os prelúdios do sentimento da personalidade. Lisboa: Moraes Editores, 1983.]
(**) René Zazzo: Manuel pour l´examen psychologique de l´enfant (3ª ed). Suiça, Neuchâtel: Éditions Delachaux et Nestlé, 1960, 1969. [tr port de Luiz Darós: Manual para o exame psicológico da criança. São Paulo: Editora Mestre Jou, 1981].Topo

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Agradecimentos

O autor quer deste modo expressar a sua sentida gratidão aos Drs José Ferronha e Pedro Monteiro pelo incondicional apoio que sempre patentearam e de tal forma que conseguiram gerar momentos de autêntica amizade.


Referências

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