
Resumo
O autor traça o quadro panorâmico da informática
médica delineando o futuro através de exemplos pontualmente já presentes nas suas
várias formas de expressão em desenvolvimento laboratorial.
A selecção de tais formas de expressão consideradas assenta em pressupostos
de pressão selectiva positiva consequente às repercussões, de igual modo tomadas em
consideração, de determinados avanços desde logo previsíveis em relação à
tecnologia de materiais de suporte informático.
Conclui, finalmente, com uma nota de optimismo após apontar algumas das
limitações que se levantam aos sistemas exemplificadamente descritos.

Nas últimas
semanas a Dª Maria Manuela tem sentido umas dorsalgias que não têm melhorado com a
aspirina e repouso no leito que lhe foram prescritos, pelo que se decide a recorrer ao seu
"médico de família" na cidade onde vive desde há algum tempo. Conta-lhe
então que a dor começou pouco depois de ter estado a jogar ténis, coisa que já não
fazia há cerca de um ano. O exame pouco mais revela do que uma ligeira diminuição da
mobilidade do ombro esquerdo.
O clínico vira-se para o seu computador pessoal e, tendo
acesso a uma rede informática de âmbito nacional, liga para o computador do hospital da
cidade onde a Dª Manuela residia anteriormente; neste, existem processos clínicos
somente acessíveis a pessoal médico autorizado, e com a devida permissão do paciente.
Assim, e em alguns segundos, o clínico descobre que a Maria Manuela foi submetida à
exérese de um nódulo mamário cinco anos atrás, tendo ficado livre de qualquer
sintomatologia, a tal ponto que se esqueceu de o mencionar ao referir a dorsalgia.
Desligando a sua chamada à rede, o clínico liga agora a um
sistema de diagnóstico chamado de QMR, sigla de Quick Medical Reference; este
sistema, que tem armazenados conhecimentos referentes a cerca de 600 doenças, sugere que
a Dª Manuela pode ter artrite, tensão muscular, ou recorrência tumoral com
metastização na coluna. O clínico, confiante pelo facto da "segunda opinião"
do QMR vir de encontro às suas preocupações, pede um cintilograma ósseo.
Este panorama já não é um sonho futurista, pois não
dista tanto assim o dia em que os médicos verão no computador um instrumento tão
essencial quanto o seu estetoscópio.
Os sistemas de informação médica que actualmente saem dos
laboratórios de investigação podem agrupar-se em duas categorias: sistemas de
comunicações, que armazenam, procuram, e selectivamente transmitem dados quando tal lhes
é pedido, e sistemas ditos periciais, cuja aplicação consiste em auxiliar no
diagnóstico, tal como o QMR o fez na situação descrita, ou então que propõem,
monitorizam, e ajudam a lidar com o curso da terapêutica.
Os avanços actuais tornam previsível uma eficácia muito
maior por parte destes sistemas, e isto porque, independentemente dos progressos a nível
de hardware, muitos laboratórios há, como o da Escola Médica da Universidade de
Stanford, cuja ênfase vai para métodos de desenvolvimento de programas capazes de
representar informação médica especializada, tornando-a rapidamente disponível para o
clínico. Neste ponto podem descrever-se, em primeiro lugar, as promissoras capacidades
dos sistemas de comunicações e dos de aconselhamento. Discutir-se-ão depois alguns dos
problemas fundamentais com que se debatem hoje as tentativas para alcançar programas
capazes de raciocinar sobre as situações à semelhança do médico.
A necessidade de sistemas de comunicação resulta, em
parte, das dificuldades crescentes com que se debate o médico, ou o investigador
biomédico, para ler, memorizar, e lembrar-se de todas as informações necessárias para
resolver um determinado problema; o clínico pode, por falta de meios, deixar passar
indetectadas ou sem tratar, determinadas queixas, ou uma patologia, durante meses ou anos,
durante os quais as tecnologias de diagnóstico e terapêutica se podem ter modificado
enormemente.
Assim foi que os clínicos começaram por usar bases de
dados com literatura e referências bibliográficas, de entre as quais o sistema mais
conhecido é o MEDLINE, residente num grande computador pertencente à National Library
of Medicine, em Bethesda nos EEUU; este sistema detém os títulos essenciais dos
artigos da literatura biomédica que surgiram em todo o mundo nos últimos 25 anos, bem
como todos os resumos dos mais recentes. Cada artigo está indexado através de
palavras-chave e frases cuidadosamente seleccionadas, de tal modo que é relativamente
fácil obter uma lista de títulos relevantes, pedindo depois resumos dos artigos mais
sugestivos daquilo que se pretende. Apareceram também sistemas de referências
bibliográficas que armazenam por completo o texto dos artigos, permitindo localizar nesse
texto frases pertinentes.
À medida que mais possibilidades se juntam a este
repertório, o computador a cargo de bibliotecas vai-se tornando um dos principais meios
para aceder à literatura biomédica e a bases de dados sobre doenças. Estas bibliotecas
não serão mais encaradas como locais físicos, id est, edifícios repletos de
livros e revistas, mas como meios de distribuir informação; este ponto de vista não
colide de facto com o modelo tradicional das bibliotecas médicas como centro de
informação, simplesmente as novas tecnologias permitem que o modelo se escape das
estruturas físicas que habitualmente o confinavam.
Se os sistemas de comunicações permitem aceder à
informação, os sistemas periciais, de aconselhamento, estão a ser desenvolvidos de modo
a permitir, agora, aplicar as informações armazenadas na solução de um problema
específico como o são os que surgem na vida real. Tomemos como exemplo o sistema Roundsman,
um sistema dito de crítica, uma vez que o clínico descreve o seu problema propondo um
plano de acção, e o Roundsman, a partir desses elementos, faz uma crítica desse
plano.
O objectivo central deste sistema é, por um lado, permitir
aceder a dados de artigos, e por outro, fornecer o significado dos dados à luz do
conhecimento especializado. Na fase inicial em que se encontra o Roundsman
actualmente, ele pode fornecer uma análise em relação à situação de um doente em
particular entrando em linha de conta com várias opções de cancro da mama segundo as
abordagens sugeridas por 24 artigos; para alcançar esta capacidade codificou-se primeiro
informação sobre os vários artigos através de pequenos trechos: por exemplo 'Doe and
Roe, New England Journal of Medicine, 1986... em todos os casos estudados foram
removidos nódulos linfáticos verificando-se que continham células tumorais... 473
casos... selecção aleatória para tratamento... 236 casos por mastectomia... 237 por
exérese nodular... '. Muitos outros detalhes do modelo do estudo e dos resultados foram
introduzidos.
Sobre a informação seleccionaram-se posteriormente
opiniões, com toda a sua subjectividade, junto de um especialista (o tipo de médico a
que um colega poderia pedir conselho sobre um caso difícil). As opiniões consideradas
necessárias são armazenadas juntamente com os dados que cobrem a gama das diferentes
situações que se possa eventualmente pedir a Roundsman para tomar em
consideração. Suponhamos que o especialista nos diz que as conclusões do estudo devem
ser aplicadas cautelosamente em doentes com carcinoma no estádio II porque os doentes do
estudo (com nódulos linfáticos invadidos) estão em fase mais avançada; o conselho do
perito e o seu modo de abordar a questão são metidos na memória do sistema.
Vamos considerar agora o que poderia ter acontecido quando a
hipotética Dª Manuela descobriu que tinha um nódulo e se dirigiu a um cirurgião. Ele
examina-a, chama o Roundsman no seu computador, introduz as características da sua
doente, e propõe-se fazer uma exérese nodular. O Roundsman responde: 'Doe and Roe
relataram no New England Journal of Medicine em 1986 que a exérese nodular era
eficaz em tais casos, mas deve ter-se em linha de conta que a população estudada
pertencia a uma amostra com pior prognóstico que o desta doente.' Após chamar a
atenção do cirurgião para esta e outras considerações, Roundsman sugere que,
apesar das discrepâncias, os resultados de tal estudo, de um modo geral, apoiam o plano
de exérese nodular.
O Roundsman faz pois comentários coerentes sobre um
plano terapêutico que se lhes proponha, tal como neste excerto, fornecendo dados de um
artigo publicado, e tecendo considerações sobre o mesmo. O modo como foi gerado o
último parágrafo deste exemplo pode ser descrito através dos seguintes passos: Em
primeiro lugar o médico introduz os dados referentes ao seu paciente e faz a sua proposta
terapêutica (1). Em seguida o sistema organiza os dados que lhe chegam num 'contexto
clínico' (2), procurando depois um artigo com interesse (3), após o que recolhe os dados
relevantes (4). Na fase seguinte chama a sua base de conhecimento capaz de apreciações
especializadas (5) e utiliza-a para comparar o contexto clínico com os dados relevantes.
Uma afirmação dissemelhante torna-se assim num elemento a relatar (6). O sistema, antes
da frase, faz um comentário geral (7), põe as situações particulares entre parênteses
(8), se posiciona a frase numa lista em que existe uma anterior acrescenta o 'em segundo
lugar' (9), põe maiúsculas e faz pontuação onde e se tal é requerido (10), e mostra o
resultado.
A distinção entre os programas para sistemas de
comunicação e os para sistemas de aconselhamento pode compreender-se melhor se tivermos
presentes as capacidades e objectivos de dois sistemas experimentais, respectivamente o
PQD (Physician Data Query) e o Oncocin. Ambos os sistemas estão orientados
para protocolos de tratamento tumoral, ou seja, planos cuidadosamente elaborados para
levar a cabo ensaios clínicos nos quais se pretendem comparar abordagens terapêuticas
alternativas. Um protocolo propõe determinados procedimentos cirúrgicos, regimes
quimioterapêuticos ou de radiação, e tabelas de doses e tratamento. Delineia também as
respostas adequadas a questões algo mais subtis como o que fazer quando um doente tem
reacções tóxicas à terapêutica, ou quando se deve concluir que uma determinada
abordagem terapêutica não está a ser eficaz.
PDQ é um sistema de comunicação: uma base de dados
operada conjuntamente pelo National Cancer Institute e pela National Library of
Medicine (nos EEUU, naturalmente), base essa que pode fornecer aos clínicos
informações acerca dos protocolos de um grande número de ensaios clínicos formais a
serem levados a cabo a cada momento. Com um computador pessoal e um modem, o médico pode
aceder ao computador central na biblioteca e, com a ajuda de programas adequados,
identificar os protocolos aplicáveis conforme os casos. Os protocolos apresentam
caracteristicamente novas abordagens a casos difíceis - abordagens que o médico pode
estar capacitado para adoptar (a menos que o protocolo envolva a administração de uma
droga experimental). Por outro lado, o médico pode saber em que Hospitais estão em curso
ensaios terapêuticos, bem como o nome dos médicos que participam em tais ensaios, e
assim orientar o seu doente.
Suponhamos que o cintilograma ósseo pedido para a Dª
Manuela confirma a presença de metástases na coluna. O seu médico pode obter do PDQ os
nomes dos centros médicos mais avançados no tratamento de situações de metástases de
cancro mamário, e orientá-la então para um desses centros.
O sistema PDQ foi concebido para fornecer uma vasta gama de
informações, e não para auxiliar o seu utilizador a aplicar essa informação a um caso
específico. Já o Oncocin foi concebido como um sistema para complementar o PQD no
sentido de auxiliar os médicos que têm em mãos situações particulares de doentes com
problemas tumorais, após se ter estabelecido um protocolo, e de haver uma terapêutica em
curso. Oncocin é simultaneamente um sistema de ficheiro clínico e um sistema de
aconselhamento (os quais hoje em dia ainda só conseguem lidar com um número reduzido de
protocolos terapêuticos). Ele mantém o processo clínico actualizado sobre o decorrer da
terapêutica e o estado do paciente, tendo ainda conhecimento suficiente para assumir um
papel activo, sugerindo o modo como o protocolo deve ser adaptado às necessidades de um
determinado doente.
Suponhamos que no centro regional de oncologia a Dª Manuela
inicia um ensaio clínico de um novo regime quimioterapêutico. Em cada visita os
médicos, que têm de efectuar uma série de tratamentos quimioterápicos complexos, podem
obter orientação do Oncocin. Nele ficam guardados os resultados de cada análise,
mantendo-se um estado actualizado da paciente, propondo, a cada visita, o modo como a dose
de cada droga deve ser ajustada de acordo com a resposta à terapêutica.
Os detalhes do protocolo representam-se no computador em
estruturas conhecidas como regras de inferência. Por exemplo, uma regra poderá dizer:
'SE a contagem de leucócitos da paciente for INFERIOR ao normal, mas SUPERIOR a 3000
células por mm3, ENTÃO administre-se a droga A, mas em doses de 75% da dose habitual.'
Tais regras permitem ao Oncocin aconselhar acerca da terapia adequada a administrar
aquando de uma determinada visita, e chamá-la para efectuar determinadas análises.
O écran de alta resolução do sistema simula um impresso
já familiar ao oncologista, o qual descreve a sua paciente preenchendo os locais
adequados. O Oncocin dá conselho sobre o modo como preencher os espaços em branco
de outras áreas do écran. Se o utilizador tem perguntas a fazer acerca do
aconselhamento, o Oncocin tenta explicar-lhe com base na lógica do protocolo, tal
como foi armazenado nas regras do programa. O utilizador continua certamente a ser livre
para seguir ou não o conselho, até porque nenhum programa de computador pode ter acesso
a todas as variáveis envolvidas, variáveis essas que o médico que leva a terapêutica a
cabo deve ter em linha de conta quando toma uma decisão a respeito do seu doente.
Assume-se pois que o utilizador deve ter informações adicionais de que se vale para
ajustar os conselhos dados pelo Oncocin.
As principais questões investigacionais para sistemas como
o Roundsman e o Oncocin estão ligadas, como veremos, à programação, mas
outras, ligadas a avanços na tecnologia dos materiais de suporte, tais como processadores
mais rápidos e circuitos integrados com capacidade de memória muito maior, virão com
toda a certeza facilitar o uso das rotinas de tais sistemas. Seja o caso, por exemplo, dos
circuitos integrados de memória que actualmente só podem ter um número limitado de
protocolos em simultâneo. Se o protocolo do doente não está em memória viva, então a
máquina tem de procurar a informação necessária no seu armazém de memória de massa,
seja o caso de um disco, trocando-a pela informação que tem em memória viva. Isto é um
processo lento - talvez demasiado lento para o permitir o uso clínico rotineiro.
Circuitos integrados de memória de alta capacidade estão actualmente a ser
desenvolvidos, e isto irá reduzir substancialmente a necessidade de tais trocas de
informação entre as memórias viva e de massa.
Creio que ficou claro do acima exposto sobre Roundsman e
Oncocin que o estilo de interacção entre os sistemas conselheiros e os seus utilizadores
pode variar. Roundsman, tal como foi dito, é um sistema de crítica: reage ao modo como o
utilizador está a pensar - seja uma proposta para levar a cabo determinada acção, ou
uma hipótese de diagnóstico - e se necessário sugere alternativas. Um sistema de
consulta, por seu turno, gera análises independentes e recomendações, as quais podem
ser comparadas pelo utilizador com a sua própria maneira de pensar. Se por um lado o Oncocin
está orientado para o manejo da doença de um paciente, já o sistema de aconselhamento
QMR (Quick Medical Reference) anteriormente referido, está orientado para o
diagnóstico.
O QMR é uma adaptação a micro-computador do Internist-1,
um grande programa de diagnóstico desenvolvido na Escola Médica da Universidade de
Pittsburgh. Tem conhecimentos acerca de 577 doenças e das suas inter-relações com 4100
sinais, sintomas e outras características semiológicas. Pode auxiliar os profissionais
de saúde de três maneiras. No seu modo mais elementar o QMR é um sistema pericial de
consulta que fornece hipóteses de diagnóstico para um determinado doente. Para o
conseguir pergunta a si mesmo quão frequentemente é que pacientes com uma determinada
característica padecem de determinada doença ou quão frequentemente é que os pacientes
com determinada doença apresentam uma dada característica. O sistema pode pedir
informações de que necessite se estas lhe não forem fornecidas à partida, e pode
sugerir exames analíticos ou apontar áreas que necessitem de mais investigação. Pode
analisar a informação recolhida e fornecer o diagnóstico ou diagnósticos mais
prováveis.
Em segundo lugar, pode o QMR ser utilizado como um tratado
electrónico, enumerando quais dentre as características do doente costumam ocorrer em
determinada doença ou, doutra forma, relatando quais das suas 577 doenças podem estar
associadas a uma determinada característica. Em terceiro lugar, como uma folha de
cálculo médica, podendo combinar várias características ou doenças, e determinar as
implicações. Podemos, por exemplo, especificar dois problemas médicos aparentemente
não relacionados e obter sugestões acerca do modo como patologias coexistentes, em
determinadas circunstâncias, dar origem a ambos os problemas.
Em relação ao Internist-1, o predecessor do QMR,
provou-se que, para diagnosticar casos difíceis, este tinha uma eficácia quase idêntica
à dos clínicos académicos. O QMR tem uma base de conhecimento e capacidade de
diagnóstico igualmente ampla, à qual se juntaram os modos de tratado electrónico e de
folha de cálculo. O QMR está a ser testado actualmente em Pittsburgh e outras
instituições colaborantes.
Quando um sistema de aconselhamento tal como o QMR funciona
isoladamente, está condenado a ficar à espera que um utilizador procure conselho. Além
disso, habitualmente o utilizador de um sistema de aconselhamento deve introduzir
manualmente informações acerca do doente que podem já existir num sistema de
comunicação próximo. Deverá um sistema de aconselhamento introduzir os dados de tal
fonte, de modo a poder fornecer conselho sempre que tal possa estar indicado? Um dos
primeiros sistemas integrados de informação hospitalar capaz de o fazer, a que se chamou
Help, tem vindo a ser desenvolvido ao longo dos últimos 15 anos no Hospital LDS,
em Salt Lake City.
O Help corre num computador central que está ligado
a terminais e impressoras através do hospital. Actualmente, por exemplo, há pelo menos
quatro terminais e uma impressora em cada departamento hospitalar, e um terminal para cada
cama nas Unidades de Cuidados Intensivos; o plano é ter um terminal ao lado de cada uma
das 520 camas do hospital. O computador central é, antes do mais, uma facilidade para
manuseio de dados, armazenando as histórias clínicas de cada paciente conforme colhidas
na entrada, e mantendo uma ficha actualizada das medicações instituídas, bem como dos
resultados laboratoriais e do diário. Além de servir como sistema de manuseio de dados,
o computador central incorpora milhares de subprogramas lógicos especiais chamados
sectores do Help. A finalidade destes é monitorizar todos os dados disponíveis
para cada paciente, e estar atento a qualquer das condições especificadas como de
alerta. Quando tal condição é identificada, Help desencadeia uma mensagem de
aviso para os membros do pessoal mais indicados.
Quando a hipotética Dª Manuela foi hospitalizada pela
primeira vez para ser operada ao seu nódulo mamário, um sistema como o Help poderia ter
monitorizado a sua medicação, os resultados dos seus exames analíticos e os seus sinais
vitais. Pode rever em segundos, seja dia ou seja noite, os resultados das suas análises,
o que não acontece com o clínico. Suponhamos que a Dª Manuela estava a tomar digoxina
para uma condição cardíaca. Se os resultados das análises revelassem uma baixa da
potassemia, o Help teria avisado o pessoal de permanência nesse sector de que um
nível baixo de potássio no sangue representa um risco acrescido numa paciente a tomar
digoxina, mais acrescentando que a Dª Manuela poderia requerer cuidados imediatos com uma
solução oral de cloreto de potássio.
Help é um bom exemplo de como a flexibilidade e a
eficácia de um sistema de aconselhamento pode ser aumentada com a integração num
sistema de comunicações. E o Help é apenas um começo. A tecnologia das redes
locais deverá tornar possível juntar aos sistemas de informação hospitalar um sistema
de aconselhamento especializado tal como Roundsman, um sistema de diagnóstico, e
mesmo uma facilidade que traga as radiografias, as ecografias, os TAC's e outros meios de
representação pela imagem vindos do departamento de radiologia, para os terminais em
cada sala e ao lado de cada cama.
Os sistemas informáticos orientados para a medicina podem,
pois, ser categorizados em sistemas de comunicação e sistemas de aconselhamento. Os de
comunicação armazenam e transmitem material bibliográfico, processos clínicos -
incluindo resultados analíticos actualizados -, e outros tipos de dados. Já os de
aconselhamento participam activamente no diagnóstico e/ou no manejo de cuidados a prestar
ao doente.
Considerando o seu poder e a sua disponibilidade em versões
experimentais, pergunta-se qual a razão que faz com que os referidos sistemas se não
tenha difundido mais na prática clínica hodierna, o que de certa forma se encerra na
máxima empregue pelos seus detractores: 'Expert systems (?)... experts don't use them
and the others don't care'. O que acontece de facto é que a metodologia para
construir um sistema de aconselhamento ainda não amadureceu totalmente: a concepção de
programas eficazes ainda levanta alguns problemas teóricos fundamentais, bem como
desafios de carácter prático.
Um elemento básico de quase todos os sistemas de
aconselhamento é um modelo para determinadas perícias clínicas e muito particularmente
o processo de tomada de decisão. Como será possível criar um modelo de uma capacidade
tão especializada e tão eminentemente humana? Muitas estratégias há baseadas em
abordagens tão variadas como o reconhecimento de padrões, regressões estatísticas,
algoritmos de estrutura arborescente e teoria da decisão. O exame de uma outra abordagem,
a da Inteligência Artificial, clarifica algumas das dificuldades encontradas ao
desenvolver programas para sistemas de aconselhamento.
Os investigadores no campo da Inteligência Artificial
aplicada à medicina têm sido influenciados pelas pesquisas em Psicologia que sugerem que
o que distingue o clínico experimentado é, antes de mais, a riqueza do seu conhecimento
- isto é, o seu armazenamento de informação acerca de doenças, sintomas e tratamentos
- mais do que qualquer maneira específica de tratar informação. Os programas de
computador que usam técnicas de Inteligência Artificial para representar e manipular
conhecimento detalhado de um campo de especialização, são conhecidos como sistemas
periciais. Ao desenvolver um sistema pericial médico os investigadores de Inteligência
Artificial procuram, antes do mais, desenvolver uma representação óptima do
conhecimento médico. Muita da gradação de um sistema baseado em conhecimento médico
deriva do seu armazenamento de conhecimento e do modo como está estruturado, mais do que
em novas técnicas de processamento (tais como um algoritmo que o computador possa
manusear melhor do que o ser humano).
Um dos maiores desafios ao construir um sistema baseado no
conhecimento é lidar com a enorme quantidade de informação a ser representada e
manipulada. Tomem-se como exemplo as 577 doenças e as 4100 características dos doentes
contidas no QMR. Quando estas 4677 entidades se ligam e são ponderadas (para mostrar que
determinados sintomas sugerem determinadas doenças, que uma determinada doença pode
causar outra e que algumas características do doente são mais importantes do que
outras), a base de conhecimento QMR pode conter algo como uns 250 mil itens de
conhecimento. Muitos deles não estão explicitamente referidos em nenhum tratado. Levou
10 anos de colaboração entre engenheiros do conhecimento e médicos para tornar tais
itens suficientemente concretos e explícitos a ponto de serem passíveis de
representação no sistema. Além disso, o QMR cobre tão somente um determinado subgrupo
de entre as doenças mais importantes que se conhecem hoje. É pois tarefa primordial, ao
conceber um sistema pericial, identificar os elementos chave do conhecimento e as suas
inter-relações e depois codificá-los em estruturas de dados e ligações por forma a
tornar possível aplicar o conhecimento à efectiva resolução de problemas.
Um segundo desafio de concepção é assegurar que as
estruturas dos dados que representam os elementos do conhecimento tornarão possível
corrigir e juntar novos conhecimentos ao sistema. As novas descobertas mudam a prática
médica, e assim, um sistema com base no conhecimento deve permitir fazer alterações
incrementais. Arranjar todo o programa a cada actualização que se pretenda levar a cabo
é impraticável. A estrutura dos dados que representa o conhecimento médico (quer sejam
listas, uma hierarquia, uma rede ou outra), deverá, pois, ser idealmente independente dos
algoritmos que manipulam o conhecimento. Esta independência é difícil de conseguir,
porque determinados conhecimentos médicos, mais do que constituir um facto real, são
eles próprios de natureza algorítmica na medida em que pretendem especificar uma
estratégia para resolver problemas. Por exemplo: em se tentando chegar a um diagnóstico
procura-se muitas vezes estabelecer, de um modo geral, o alvo da patologia - seja o caso
de 'sofrimento hepático' - antes de tentar circunscrever um tipo definido de doença.
Além disso cada elemento do conhecimento médico deve ser
representado de uma forma modular, de modo a que as alterações de um elemento não
venham a alterar os outros. Por exemplo, duas estruturas de dados concebidas para
alcançar tal modularidade, neste caso ao abordar a formalização do conhecimento
médico, são as regras e as assim chamadas molduras ou enquadramentos. Uma regra é uma
afirmação inferencial do tipo 'SE condição A, ENTÃO acção B', através da qual um
sistema pode chegar a uma conclusão por meio da técnica lógica conhecida como modus
ponens: SE A IMPLICA B, E SE se sabe que A é VERDADE, ENTÃO pode-se inferir B. Os
resultados inferidos de uma regra podem ser usados por outra para fazer uma segunda
inferência; ou seja, as regras 'encadeiam-se' dinamicamente.
Uma moldura por outro lado representa uma entidade, tal como
uma doença, que se caracteriza por 'posições' que definem características
prototípicas dessa entidade, tais como os sintomas causados pela doença. É também
possível definir métodos para inferir os valores das 'posições' correspondentes a
outros aspectos da moldura ou de outras molduras. Molduras são pois conjuntos de
pormenores que permitem descrever coisas tais como doenças e sintomas. No QMR, sistema
baseado em molduras, a moldura para uma doença pondera as ligações entre vários
sinais, sintomas e outras doenças. A ponderação da chamada 'força evocadora' reflecte
a probabilidade da doença estar presente quando se observa um determinado sintoma: 0
significa que o sintoma é inespecífico, 5 que é patognomónico. A ponderação da
'frequência', por outro lado, dá-nos a probabilidade que a doença tem de dar origem a
um determinado sintoma, significando o 1 raramente e o 5 em quase todos os casos.
A modularidade propiciada pelas regras e pelas molduras é,
por inerência, difícil de obter, e isto deve-se em certa medida ao facto de que o
conhecimento médico é mais do que o somatório das suas partes. Roundsman, por
exemplo, representa cada artigo de revista como um objecto distinto da sua base de
conhecimento. Quando um novo artigo é publicado, seria desejável aumentar a base de
conhecimento de uma maneira modular. No entanto a nova informação de um artigo derrama
nova luz sobre os artigos anteriores, alterando a sua interpretação. Quanto mais se
tentam acomodar estes aspectos não modulares do conhecimento médico - seja por exemplo,
inserindo laços entre artigos para representar as suas inter-relações - mais se cria
uma base de conhecimento constituída por um emaranhado de conhecimentos fortemente
acoplados, os quais são praticamente impenetráveis quando se pretendem actualizar.
Um terceiro desafio investigacional ressalta do facto de em
Medicina só haver modelos limitados do corpo humano ou da doença. Isto contrasta com os
sistemas concebidos para processos de produção industrial. Nestes processos há uma
clara compreensão da função dos componentes individuais, bem como do modo como eles se
reúnem; problemas de produção e erros de diagnóstico podem frequentemente ser
abordados lidando com as características combinatórias de uma linha sequencial de
montagem ou dos modos como os componentes podem entrar em mau funcionamento.
Poucos são os componentes do corpo humano, bem como poucas
são as suas funções, que se conhecem de um modo tão perfeito e acabado que se possa
alcançar este nível mecanicista. Os clínicos necessitam pois de utilizar uma vasta gama
de conhecimentos - incluindo regras práticas aprendidas dos melhores clínicos,
evidências empíricas extraídas de análises estatísticas de ensaios clínicos,
mecanismos causais inferidos da Anatomia, da Fisiologia e da Biologia Molecular, e temas
sociais pertinentes a uma boa prestação de cuidados médicos. Uma das maiores tarefas
para os cientistas de Informática Médica é desenvolver técnicas para codificar e
aplicar tais tipos de conhecimento de uma maneira coordenada.
As tarefas de conceptualização e criação de um modelo
com que se têm de defrontar os que se dedicam a desenvolver sistemas periciais, podem
contrapor-se com os problemas práticos que desafiam à partida aqueles que desenvolvem os
sistemas de comunicação. Estes problemas podem ser apreciados se considerarmos as
dificuldades encontradas ao introduzir um sistema de arquivo-de-imagem e comunicação ao
qual se costuma chamar abreviadamente de PACS (Picture-Archiving and
Communication System). Tais sistemas estão muito além do nível de pesquisa, mas
ainda não estão, de um modo geral, disponíveis, porque se lhes deparam barreiras de
natureza logística e económica aquando da sua implementação.
Um destes PACS armazena radiografias e outras imagens
sob forma digital, põe-nas ao dispor onde necessárias se tornam, e mostra nos écrans
imagens de alta qualidade fotográfica. Na situação presente os médicos, para examinar
uma imagem radiográfica, têm, de algum modo, de fazer com que ela chegue do departamento
de radiologia até si. Ora isto seria muito mais eficiente se as referidas imagens
pudessem ser distribuídas directamente pelas enfermarias e aos clínicos, particularmente
se a mesma película pudesse ser vista em simultâneo por diferentes clínicos e em
diferentes locais.
Assim, temos já que o computador, enquanto terminal
médico, pode trazer o departamento de radiologia, o de arquivo de processos clínicos e a
biblioteca para o local de atendimento. De facto, os programas para criar imagens e as
mostrar deste modo são actualmente uma realidade; de igual modo, existem linhas de
comunicação através de fibras ópticas que podem conduzir a necessária taxa de sinais
de 200 megabits por segundo; também disponíveis estão os terminais que mostram imagens
com resolução suficiente (e estão de facto a ser usados nas indústrias de cinema e
televisão). Se é verdade que os sistemas digitais de imagem virão a beneficiar de
futuras pesquisas, o certo é que a tecnologia presentemente disponível pode melhorar
drasticamente a distribuição e interpretação de imagens médicas. No entanto, no clima
orçamental e administrativo em que se debate hoje a medicina, qualquer que seja o nível
a que se encare a hierarquia da saúde, difícil se torna justificar a carestia de uma
nova tecnologia.
Quais as precisões para introduzir um PACS num
hospital? Colocar a rede de fibras ópticas, além do trabalho de as colocar, seria
efectivamente dispendioso. Para distribuir as imagens de alta resolução através do
hospital, seria necessário um elevado número de terminais dispondo cada um de um écran
com uma resolução de 2048 pixels (abreviatura de picture elements, o que se
refere à divisão mais elementar da imagem representável), sendo cada pixel capaz de
assumir 5 a 8 gradações de cinzento.
Dadas as despesas de tal sistema, algumas instituições
têm adoptado o equipamento digital de imagem por partes, isto é, comprando um aparelho
digital de cada vez que é necessário substituir um outro convencional. Este é um modo
suficientemente gradual para permitir a aquisição de equipamento digital e terminais
para integrar numa rede PACS. E este é mais um exemplo de como os obstáculos
financeiros e logísticos podem impedir a disseminação de uma tecnologia disponível.
O sistema de informação hospitalar concebido para o futuro
usará uma rede local para conduzir, não somente texto, mas também imagens para os
terminais distribuídos pelo hospital. Os dados relativos aos doentes serão introduzidos
- e fornecidos - no sector de admissão, no de arquivo, laboratórios, salas de operação
e enfermarias. Resultados de radiografias, TAC's, ecografias e outros exames, armazenados
sob forma digital, serão transmitidos por cabos de fibras ópticas aonde quer que sejam
necessários. Também o material da biblioteca estará disponível e uma ligação à rede
geral permitirá o contacto directo com bases de dados distantes e sistemas de
aconselhamento. Contrariamente ao que acontece com os actuais sistemas dependentes de um
computador central, os futuros sistemas descentralizarão grande parte da memória e do
processamento para os terminais. Um sistema deste tipo seria, à sua maneira, uma versão
do sistema Help mais abrangente do que a desenvolvida no Hospital LDS de Salt
Lake City.

O
s sistemas
de computadores não têm - nem terão nos tempos mais próximos - uma compreensão
suficientemente abrangente e completa das considerações médicas de ordem técnica,
clínica e social para se aproximar da riqueza e flexibilidade de um especialista humano.
Os sistemas periciais descritos representam avanços da ciência informática aplicada à
medicina, mas nenhum deles é eficaz sem o senso comum e o julgamento crítico do
profissional experimentado. Muitos aspectos há da capacidade humana de resolver problemas
para os quais ainda não foi possível criar modelos passíveis de serem introduzidos no
computador.
No entanto, e apesar de tais impedimentos, a posição que
quero manifestar em relação ao futuro dos avanços da informática médica é de
optimismo. Os computadores são mais do que meras máquinas devoradoras de números. A sua
capacidade para armazenar, encontrar selectivamente e transmitir informações médicas
está, de hoje em dia, perfeitamente estabelecida. No horizonte encontram-se sistemas que
fornecerão conselho ponderado acerca do diagnóstico e manuseio de casos específicos. Os
avanços em física dos materiais e na concepção dos circuitos integrados, no
estabelecimento de redes e no processamento paralelo, prometem, todos eles, maior
liberdade para os criadores de programas de sistemas de informação médica. Por isso,
todo um futuro se abre ao desenvolvimento e à utilização dos referidos sistemas, os
quais, sendo eficazes, se irão tornando suficientemente 'espertos' para assumir um papel
activo, embora subordinado, na prática médica.
Bibliografia
Rennels GD, Shortliffe EH. Advanced Computing for
Medicine. Scientific American 1987; 257(4): 146-53.
Kulikowski CA. 'Artificial Intelligence Methods and Systems for
Medical Consultation' IEEE Transactions on Pattern Analysis and Machine Intelligence.
1980; PAMI-2 (5): 464-76.
Levine RI, Drang DE, Edelson B. A Comprehensive Guide to AI
and Expert Systems. New York: McGraw-Hill Inc, 1986.
Rich E. Artificial Intelligence. New York: McGraw-Hill
Inc, 1983.
Veríssimo R. Introdução às aplicações da Microinformática
na Investigação; Inteligência Artificial. Palestra no Instituto de Histologia e
Embriologia de Abel Salazar. Porto: Faculdade de Medicina, (Março 25) 1987.
