Órgão Oficial da APIM 1992 (Set); 3: 5-12.

INTRODUÇÃO À MICROINFORMÁTICA
1º Parte: Precursores

Ramiro Verissimo

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Prof Doutor Ramiro Verissimo
Psicologia Médica / Faculdade de Medicina do Porto
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Resumo

O autor pretende dar ao "não iniciado" as noções elementares habitualmente ultrapassadas nas diversas abordagens da microinformática; desde logo reputa tais noções de extremamente importantes, uma vez que só através delas se torna possível um enquadramento suficientemente abrangente para facultar a compreensão genérica das características e performances anunciadas pelas firmas vendedoras e pela rotina diária dos meios de comunicação.

Perseguindo tal intento começa por abordar os antecedentes históricos, que nesta primeira parte leva até à 1ª geração, tendo em vista delinear as linhas mestras de uma evolução capazes de orientar as direcções futuras que assim virá a aflorar.

Serão abordadas ainda, e de um modo igualmente geral, tal é a intenção, a arquitectura e funcionamento do computador, concluindo com o enunciar das possíveis aplicações do mesmo enquanto máquina de uso pessoal.

Evolução

Antepassados

O aparecimento da pastorícia e da agricultura há 10 mil anos, levou à necessidade de contar os rebanhos bem como de calcular as áreas cultivadas; mas para os cálculos de então pouco mais era necessário do que o isomorfismo com os dedos da mão ou com uma colecção de seixos.

Só cerca de 5 000 anos mais tarde viria o contador a ser inventado na China: colocavam-se as contas enfiadas num eixo do lado esquerdo e passavam-se para a direita as correspondentes às parcelas, contando-se o resultado. Se tivermos em conta que todas as operações elementares efectuadas por um computador podem ser encaradas como adições, podemos ver aqui um seu antepassado remoto, mas legítimo.

Uma variante é o ábaco. Este apareceu independentemente em várias culturas; costuma no entanto ser atribuído aos babilónios. Recebe o seu nome a partir da palavra fenícia abak, referindo-se esta a uma placa coberta de areia na qual se podiam traçar os algarismos. No tempo dos gregos e dos romanos veio a dar uma armação de madeira com contadores de 10 pedras (os calculi que estão na origem da palavra cálculo), e pelo final da antiguidade clássica assumiu a forma actual com uma separação entre o "céu" e a "terra" para facilitar o deslizamento; da direita para a esquerda temos o arame das unidades, o das dezenas, etc., de tal modo que a cada cinco unidades corresponde, no mesmo eixo, uma conta das do "céu", e a cada duas destas corresponde uma das da "terra" no eixo das dezenas, e assim sucessivamente. Ainda em uso nos países que não adoptam o sistema de numeração árabe, o ábaco foi desaparecendo da Europa entre os séculos XV e XVII.

No entanto, as dificuldades surgiam em relação à multiplicação e à divisão, e terá sido de certa forma para as simplificar que o teólogo e matemático escocês John Napier chegou, em 1614, à descoberta dos logaritmos; estes vinham, com efeito, transformar essas operações em adição e subtracção respectivamente. De facto, entende-se por logaritmo o expoente de um determinado número de base, expoente esse que indica a que potência se deve elevar a referida base para se obter um dado número; ora Napier chegou à conclusão de que qualquer número pode ser expresso nesses termos: 100, por exemplo, é igual a 10^2, e 23 a 10^1.36173. Além disso, Napier descobriu que o logaritmo de a mais o logaritmo de b é igual ao logaritmo de a vezes b; e assim é que se passou obter a complexa multiplicação de dois grandes números através do antilogaritmo da soma dos seus logaritmos. O método foi viabilizado com as tábuas de logaritmos.

Logo depois, em 1620, surgiu a régua de cálculo (William Oughtred). Esta consiste em duas escalas logarítmicas (em que da origem ao número vai o seu logaritmo), escalas essas que deslizam uma em relação à outra. Para multiplicar dois números alinha-se a origem de uma com o multiplicando na outra, e lê-se nesta o resultado no alinhamento do multiplicador (que está na primeira, obviamente). Trata-se de uma máquina analógica em que se somam dois comprimentos proporcionais aos logaritmos dos números a multiplicar. A divisão é igualmente simples, e se o método não é muito preciso, em compensação é altamente simples e eficaz.

Só um pouco mais tarde, em 1642, e através de Blaise Pascal (tinha ele 19 anos), viria a surgir a primeira máquina de calcular parcialmente automática: compunha-se de uma caixa com 8 pares de rodas, sendo o par da direita para as unidades, o seguinte para as dezenas, etc.; numa das rodas de cada par havia uma circunferência com algarismos de 0 a 9, um dos quais era assinalado por um estilete da caixa. Girando esta roda, avançava uma lingueta que, atingido o 9 (completada a volta) caía, fazendo a roda seguinte avançar uma unidade, e assim efectuando o transporte automático. A outra roda do par era a dos resultados, e engrenava na primeira por forma a deixar ver por uma janelinha o algarismo correspondente.

À Pascalina (assim se designou a máquina de adição de Pascal), outras se seguiram, tendo a de Gottfried Wilhelm Leibniz (1673) sido uma das melhores, pois que inclusivamente efectuava raízes quadradas. Também a este génio alemão, e independentemente dos trabalhos de Isaac Newton, se deve o cálculo, designadamente com a publicação do ensaio "De Arte Combinatoria" (1666) quando contava apenas 20 anos. Pretendia assim, através da lógica (a que chamava leis do pensamento), reduzir a ambiguidade verbal à formalização matemática das relações entre conceitos ou proposições. Também a ele se deve o aperfeiçoamento da aritmética binária; no entanto, tendo partido do I Ching chinês para tal aperfeiçoamento, acabou por dotar o sistema binário de significado místico.

Em 1730 o francês Falcon inventa o cartão perfurado para automatizar os teares de seda, comandando as "lançadeiras" que avançavam quando eram arrastadas por uma vareta metálica que caía numa perfuração do referido cartão. No fundo é uma forma de programação, a qual, uma vez aperfeiçoada, viria a ser industrializada no início do século XIX (1804) por Joseph-Marie Jacquard.

O inglês Charles Babbage, depois do fracasso da sua "máquina diferencial" (proposta em 1822), parte para uma "máquina analítica" que associa o princípio da máquina de Pascal com o dos cartões perfurados para conseguir efectuar várias operações sucessivas sem intervenção humana. Com este "tecer de padrões algébricos", como lhe chamou a filha de Lord Byron, Lady Augusta Ada Byron, Condessa de Lovelace (considerada como o primeiro programador), nasce a concepção da primeira máquina de calcular moderna. Por dificuldades técnicas (teria as dimensões de uma locomotiva, e seria movida a vapor) Babbage morre em 1871 sem ter materializado a obra da sua vida.

Mais de um século decorreu desde a morte de Leibniz até que um matemático autodidacta, o inglês George Boole, na sua esteira, retomasse a pesquisa da língua universal. Veio assim a descrever o sistema de lógica simbólica conhecido como álgebra de Boole, designadamente no "The Mathematical Analysis of Logic" (1847), que posteriormente retomou e depurou no "An Investigation of the Laws of Thought" (1854). O que faz é descrever um sistema de símbolos e regras aplicáveis seja ao que for, desde números até coisas ou proposições, por forma a permitir manipulações, através dessa linguagem simbólica, tal como se fossem números. Assim é que sobre as proposições, referidas estas a afirmações que podem ser verdadeiras ou falsas, vão incidir operações de natureza igualmente binária (sim ou não, aberto ou fechado, zero ou um), também conhecidas como portas lógicas; destas, a AND, a OR e a NOT, são as três mais básicas, no sentido de que são suficientes para somar, subtrair, multiplicar, dividir, ou para efectuar acções como comparar símbolos ou números. O sistema de Boole, dada a força do seu potencial, veio a ser introduzido na América, em 1867, por Charles Sanders Pierce, o qual constatou desde logo que essa lógica bivalente, isto é cujas proposições podiam ser verdadeiras ou falsas, podia ser facilmente utilizada para descrever o funcionamento de circuitos eléctricos nos quais, à semelhança das portas lógicas, a corrente passa ou não passa.

Nos Estados Unidos Herman Hollerith patenteia um código para transferir informação para cartões perfurados. Decorria o censo demográfico de 1890, do qual muitas das perguntas tinham respostas de tipo SIM ou NÃO, o que se podia transcrever em cartões pela presença ou ausência de perfuração. Assim é que vem a comercializar uma máquina electromecânica em que um jogo de escovas era separado de um cilindro metálico (minúsculos recipientes com mercúrio, de facto) por cartões do tamanho de uma nota de banco com 12 linhas horizontais de vinte posições possíveis cada, para as 240 perfurações correspondentes a idade, sexo, estado civil, naturalidade, etc.; coincidindo as escovas com as filas das perfurações, quando estas surgiam estabelecia-se um contacto eléctrico com o cilindro, registando-se um impulso. Construiu ainda máquinas para separar e comparar os cartões e para imprimir os dados. Para vender a sua invenção Hollerith fundou a Tabulating Machine Company, a qual, após várias fusões e mudanças de nome, veio a dar origem, em 1924, à International Business Machines Corporation ou IBM.

Quanto aos grandes progressos para alcançar uma máquina de calcular eficaz manejada por meio de teclas, eles devem-se a Dorr E. Felt e a William S. Burroughs.

Cerca de meio século depois de Pierce, em 1936, Claude Shannon, que contava então 21 anos, mostrou a aplicabilidade do isomorfismo entre a lógica simbólica e os circuitos eléctricos, assim lançando a ponte entre a teoria algébrica e a prática. Com efeito, numa tese publicada em 1938, e que passou a constituir um marco de referência, ele concluiu que num circuito eléctrico construído de acordo com os princípios de Boole, se podiam representar e testar proposições lógicas, tal como efectuar cálculos complexos. Também nessa altura o professor de física John Atanasoff decidiu implementar o sistema binário numa máquina que pensava construir (mas de que nunca chegou a haver um exemplar operacional), uma vez que, por um lado, era muito mais simples representar dois símbolos do que os 10 requeridos pelo sistema que nos é familiar, e por outro, a própria máquina podia efectuar a tarefa das conversões.

De facto a comunicação através de informação codificada em dois símbolos não é nova, podendo ser encontrada nos tons graves e agudos dos tambores usados por determinadas tribos de bosquímanos africanos. De igual modo o código Morse, se bem que mais recente, recorre a grupos de pontos e traços para representar as letras do alfabeto. E se muitos outros exemplos se podiam acrescentar, também o código de dois símbolos não está só. A aritmética da Babilónia assentava na base 60, e os ingleses só recentemente começaram a abandonar o sistema de base 12: 12 meses do ano, períodos diários de 12 horas, 12 polegadas num pé, e outras medidas com divisões de doze. No entanto, e como regra, pelo menos no Ocidente, os dedos das mãos acabaram por impor a base dez.

Também George Stibitz, matemático que trabalhava como investigador na Bell Telephone Laboratories, chegou à conclusão de que a lógica de Boole constituía a linguagem natural dos circuitos constituídos pelos relays (cf. figura) electromecânicos dos telefones, chegando mesmo a construir um aparelho de somar na mesa da cozinha (1937).

Claude Shannon, cerca de 10 anos depois da supramencionada tese, vem a publicar um outro trabalho de fundo no qual descreve o que desde então passou a ser conhecido como teoria da informação: "A Mathematical Theory of Communication". Nele propõe um método matemático para definir e medir informação, designadamente enquanto escolhas entre sim e não representadas por números binários; recorde-se a este propósito que a unidade de informação é o bit, abreviatura de binary digit (*).

Quanto ao sonho de Babbage, designadamente o cálculo automático, só se tornaria realidade quando a IBM, sob a presidência de Thomas J. Watson Sr, e com o aliciante da resolução de problemas balísticos, realiza o ASCC (Automatic Sequence Controlled Calculator) projectado por Howard Aiken (1943), e que seria chamado de MARK I. Embora tenha sido o passo dos modelos electromecânicos para os electromagnéticos, a sua velocidade (de 0.3 segundos para a adição ou subtracção, e de 3 segundos para a multiplicação, podendo manipular números de até 23 dígitos) era pouco superior à que tinha sido prevista para a máquina analítica pelo seu autor, pois nos seus 15 metros de comprimento por 2.5 de altura, compreendia mais de 750 mil peças e 800 Km de cabos. O fluxo da corrente eléctrica era encaminhado por 3304 comutadores mecânicos - relays - comandados pela passagem de corrente de tal modo que, fechando-se dois deles, entrava em acção o correspondente à sua soma. As instruções entravam por fita perfurada, e os dados entravam por cartões perfurados e saíam igualmente por cartões perfurados ou por teleimpressora; o código utilizado referia-se a números decimais, pois que, contrariamente a John Atanasoff ou a George Stibitz, Aiken não viu as vantagens do sistema binário. Esta máquina, se obsoleta mesmo antes de ser construída, manteve-se operacional, em Harvard, durante 16 anos.

Com efeito, cerca de dois anos antes, Konrad Zuse, conhecendo quase exclusivamente os textos de Leibniz, reinventa a programação independentemente de Babbage, e após dois protótipos, o Z1 e o Z2, cria o Z3 (1941), a que sucedeu o Z4; circunstâncias várias, e muito particularmente o isolamento em que realizou a sua obra, levaram a que ninguém beneficiasse dela. Aliás, ele e o austríaco Helmut Schreyer, conceberam uma máquina que, tendo por base o Z3, utilizava ampolas de vácuo em lugar dos interruptores electromecânicos... Hitler porém, que nesses primeiros dias da II Guerra Mundial dava como certa uma vitória rápida, tinha embargado toda a investigação científica que não fosse a curto prazo.

Antes da sua queda em 1939, a Polónia conseguiu uma réplica do Enigma, uma teleimpressora electromecânica que gerava as mensagens cifradas dos alemães com o respectivo código, o qual era alterado 3 vezes por dia. De posse deste aparelho os Ingleses puseram em marcha o projecto Ultra, do qual fazia parte, entre muitos outros, Alan Turing, o excêntrico autor do artigo de referência "On Computable Numbers" (1936), publicado quando contava 24 anos. Neste, a questão abordada era a da descrição de problemas teoricamente irresolúveis; para formular tal descrição este matemático imaginou um poderoso engenho de cálculo a que chamou "máquina universal", uma vez que seria capaz de resolver todo e qualquer problema matemático ou lógico solucionável. A informação seria fornecida através de uma fita de papel dividida em quadrados, os quais poderiam estar em branco ou marcados por um símbolo; a máquina não só reagiria à informação destes quadrados, como também seria capaz de os alterar, fosse apagando ou substituindo os símbolos de acordo com as instruções armazenadas na sua memória interna.

As ideias de Turing, no âmbito do projecto Ultra, estiveram na base de algumas máquinas na linha das de Konrad Zuse em Berlim, George Stibitz nos laboratórios da Bell e Howard Aiken em Harvard. No entanto, o objectivo último do projecto, ou seja, conseguir decifrar as mensagens do inimigo, e assim contribuir de modo significativo para o desfecho final da guerra, só foi verdadeiramente alcançado em finais de 1943, designadamente através do Colossus; este, incorporando 2000 ampolas de vácuo, era de certa forma a concretização do projecto que Zuse nunca tinha podido desenvolver. O que a máquina fazia, de facto, era comparar os milhares de mensagens cifradas que se lhe introduzia diariamente, com os códigos conhecidos do Enigma, e ver se encontrava padrões conjugados. A introdução das mensagens, evocando as propostas de Turing, era feita por meio de uma fita de papel com perfurações correspondentes aos símbolos, fita essa introduzida num leitor fotoeléctrico que a percorria à velocidade de 5000 caracteres por segundo... e cada máquina tinha 5 destes leitores.

1ª Geração

E assim foi que, com o incentivo e o esforço da guerra foram concebidos os primeiros computadores inteiramente electrónicos, os quais utilizavam válvulas baseadas no facto de um filamento aquecido no vácuo (para evitar a oxidação) libertar electrões: a válvula termoiónica.

Visando resolver problemas balísticos, tal como acontecera com o MARK I, o físico John W. Mauchly, que desde logo conhecia o trabalho de Atanasoff, e o engenheiro J. Presper Eckert, propõem (1942) e vêm a materializar (1945) o ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Calculator). Não possuía peças móveis mas sim inúmeras válvulas electrónicas; mas por outro lado, também ele trabalhava no sistema decimal, para ser mais "legível em termos humanos", como dizia Mauchly. A memória compunha-se de um banco de 20 acumuladores, cada um dos quais com 100 válvulas dispostas em 10 filas de 10; estes acumuladores armazenavam números e efectuavam a adição por um processo muito simples: uma coluna de válvulas correspondia às unidades, a seguinte às dezenas, e assim sucessivamente; cada acumulador compreendia 10 colunas, e podia assim armazenar qualquer número de 10 algarismos, e se necessário adicioná-lo ao que já lá estivesse, em 5 milionésimos de segundo.

De enormes proporções (com 5 metros de altura por 24 de comprimento, pesava 30 toneladas e tinha 100 mil componentes electrónicos), foi um êxito singular pelo simples facto de possuir 17 468 válvulas: dada a duração limitada destes elementos, que tinham de operar 100 mil vezes por segundo, havia 1.7 biliões de oportunidades de avaria por segundo... reduzindo a voltagem e portanto o aquecimento que as levava a fundir, Eckert conseguiu baixar a taxa de avarias para uma ou duas por semana; no entanto, as limitações em termos de eficiência implicavam que qualquer aumento de capacidade / dimensões não conseguiria rentabilizar o aumento do número de avarias.

Qualquer memória que utilize o sistema de numeração de base 10 tem de poder assumir 10 estados distintos, o que pode ser simples em sistemas mecânicos, mas não o é nos electrónicos, em que é mais fácil fazer corresponder 1 ou 0 a um comutador fechado ou aberto, a um relay sob tensão ou não, ou a um anel magnetizado num sentido ou noutro. E esta, como vimos, foi uma das razões que levou à adopção do sistema binário em detrimento do decimal.

O grande problema do ENIAC era a dificuldade que havia em alterar as suas instruções, em substituir os seus programas. Com efeito, dado que a máquina só tinha uma memória interna capaz de manipular os números envolvidos nos cálculos em curso, os seus programas tinham de ser construídos, literalmente, através de cabos que estabeleciam conexões entre diversos pontos dos complexos circuitos da máquina. Quando se queria modificar as funções da máquina, fosse deixar de efectuar os cálculos necessários à construção de tábuas para determinar trajectórias balísticas em artilharia para passar a permitir efectuar os cálculos necessários à concepção de um túnel de vento, havia milhares de cabos que tinham de ser desligados para voltarem a ser ligados noutros pontos, tarefa que podia levar de várias horas a vários dias, desencorajando quem quer que pretendesse ver na máquina um instrumento de aplicação geral.

Mauchly e Eckert, contudo, continuaram a trabalhar no sentido de conceber um sucessor do ENIAC, o qual se viria a chamar EDVAC (Electronic Discrete Variable Automatic Computer). Com efeito, este foi concebido para alojar os seus programas, tal como os dados, numa memória interna expandida; esta memória era constituída por tubos com mercúrio. Outra modificação introduzida no EDVAC foi a substituição do sistema decimal pelo binário, reduzindo assim de modo significativo o número de tubos necessários.

A este propósito, no entanto, não é possível ignorar a figura brilhante do húngaro Johanes von Neumann. Johnny, como era conhecido, aos 6 anos gracejava em Grego clássico com o pai (um próspero banqueiro judeu de Budapeste), e aos 8 dominava o cálculo; pelos 20 anos, enquanto leccionava Alemão, dava contributos importantes para a mecânica quântica, a pedra de toque da física nuclear, e desenvolvia a teoria dos jogos como método para analisar as interacções humanas. Sempre se divertiu, inclusivamente, a deslumbrar os amigos efectuando mentalmente cálculos que eles, recorrendo a livros, a papel e a lápis, demoravam mais tempo a concluir; já quando ele próprio recorria ao quadro negro, enchia-o e apagava-o tão rapidamente que alguém observou uma vez: "- Percebo, demonstração por apagamento!". Eugene Wigner, antigo condiscípulo que viria a ganhar o prémio Nobel, descreveu-o como "um instrumento perfeito cujas engrenagens funcionavam com a precisão de uma fracção de milímetro". No entanto, também corporizava o protótipo do génio excêntrico, pois que embora tivesse uma memória fotográfica, não era capaz de se lembrar do sítio onde guardava os copos na casa onde vivia há 17 anos, e ao viajar acontecia-lhe embrenhar-se de tal modo na matemática que tinha de telefonar para o escritório para que lhe recordassem o motivo da viagem. Além disso gostava de vestir bem, de mulheres atraentes, de boa comida, e gadgets de todos os tipos, especialmente automóveis (que espatifava à média de um por ano). Mas o que mais gostava era das festas que dava e nas quais se exibia mostrando conhecer toda a genealogia das famílias reais europeias, declamando de memória passagens completas de livros que lera anos antes, etc. Com efeito, movia-se com enorme à vontade entre as relações sociais e a profissão, e aqui conseguia comutar facilmente entre as abstracções matemáticas e o pragmatismo da engenharia dos componentes de computadores, a tal ponto que era considerado pelos colegas de trabalho como o cientista dos cientistas, uma vez que embora sendo matemático, facilmente descia ao nível da física. Sobre isso ele próprio costumava brincar dizendo que só um homem nascido em Budapeste podia entrar numa porta giratória atrás de outra pessoa e sair à sua frente.

Mas von Neumann compreendeu também que o computador podia ser um instrumento de aplicação geral na investigação científica, e assim é que em Junho de 1945, um ano depois de se ter juntado a Mauchly e Eckert, prepara um memorando de 101 páginas em que sintetiza os planos da equipe para o EDVAC. Este documento, chamado "First Draft of a Report on EDVAC", é uma belíssima descrição da máquina e da sua lógica subjacente, e se bem que tenha sido um documento informal, foi o primeiro sobre computadores digitais electrónicos a ser tão largamente divulgado, o que veio conferir legitimidade científica a este tipo de máquinas. De facto ainda hoje se utiliza a expressão "arquitectura de von Neumann", arquitectura essa que continua a presidir à concepção dos modernos computadores, e que o seu autor descreveu como distribuída por 5 elementos chave: "para ser eficiente e ter aplicação geral", escreveu ele, "um computador tem de ter uma Unidade central de Lógica Aritmética (ALU), uma unidade central de controlo para 'orquestrar' as operações, uma memória, uma unidade de entrada, e uma unidade de saída." Acrescentou, além disso, que tal sistema deveria utilizar numeração binária e operar, não mecanicamente mas sim electronicamente, executando as suas operações de modo sequencial.

A panorâmica da programação altera-se pois através do modo como um encadeado de instruções, uma vez em memória, pode chamar os dados contidos num banco de dados, sem seguir uma ordem rigorosa, tornando assim a máquina capaz de todos os cálculos desejáveis, bem como de operações lógicas, ou seja, capaz de processar dados - e, recorde-se, o termo computador surgiu como um meio de abreviar a longa designação Data Processing Machine -. No entanto é preciso ter presente que as ideias expressas por von Neumann, seja o caso da proposta para armazenar os programas num banco de dados em memória, já vinham sendo trabalhadas por Mauchly e Eckert desde há pelo menos 6 meses antes da sua entrada para o projecto. Além disso, o próprio Alan Turing tinha incorporado uma memória interna na sua concepção da "máquina universal" em 1936, e von Neumann não só o conhecia como tinha lido o seu artigo clássico. Ora tudo isto fez com que Mauchly e Eckert, anteriormente proibidos de publicar artigos sobre o seu trabalho por motivos de segredo militar, ficassem de certo modo ressentidos com toda esta atenção que incidiu sobre von Neumann.

Para concluir vejamos o que aconteceu aos principais vultos que participaram nesta alvorada da era do computador.

Konrad Zuse, à excepção de um Z4, perdeu todas as suas máquinas no bombardeamento aliado de Berlim. Levando-o consigo, e para evitar ser capturado pelo exército soviético, refugiou-se nos Alpes Bávaros juntamente com os cientistas de foguetes; entre estes encontrava-se Wernher von Braun, o qual foi recrutado de imediato pelos americanos. Zuse escondeu o Z4 na cave de uma casa de campo, começando a produzir os seus sucessores comerciais em 1949; mas só cerca de duas décadas depois é que o seu papel neste domínio foi reconhecido.

Alan Turing, por sua vez, concebeu um poderoso computador do pós-guerra. ACE (Automatic Computing Engine) ficou pronto em Maio de 1950; incorporava um programa armazenado, bem como materializava outras ideias por ele concebidas para a sua "máquina universal". Nessa altura Turing começou a voltar-se para questões mais abstractas relacionadas com a possibilidade de conceber máquinas inteligentes, tendo mesmo idealizado um teste para determinar se os computadores podem de facto pensar. Por outro lado, sendo homossexual, foi preso em 1952, sendo sentenciado a fazer psicanálise e tratamentos hormonais. Dois anos depois, aos 41 anos, enquanto se dedicava ao que chamava de "ilha deserta", em que fabricava produtos químicos a partir de produtos caseiros, Turing suicidou-se com cianeto de potássio.

John von Neumann, por seu turno, colaborou na produção de vários computadores de concepção avançada, entre os quais o utilizado para resolver problemas relacionados com a bomba de hidrogénio, por ele chamado de MANIAC (Mathematical Analyser, Numerator, Integrator and Computer). O seu acesso a informação classificada levou a que quando estava moribundo devido a um tumor ósseo, aos 54 anos, fosse rodeado de um enorme dispositivo de segurança militar, dado o receio de que fraquejasse perante a dor excruciante e balbuciasse alguns segredos militares.

Utilizando o que antes tinha sido um estúdio de dança, John Mauchly e Presper Eckert lançaram-se na produção de computadores; aí construíram o UNIVAC 1 (Universal Automatic Computer), a primeira máquina electrónica com um programa compilador para traduzir a linguagem de programação; recebia as suas instruções através de fita magnética de alta velocidade na vez de cartões perfurados, aumentando assim a capacidade de armazenamento da memória de massa. No entanto faliram em 1950 e venderam a companhia à Remington Rand, que fabricava máquinas de barbear, a qual o veio a comercializar em 1951, aquando do recenseamento da população.

No entanto não seria a primeira máquina comercial, uma vez que alguns meses antes tinha surgido o britânico LEO I, utilizado para calcular os pagamentos semanais da Lyons Electronic Office.

Jay Forrester, em 1953, inventa uma memória viva de toros de ferrite magnética, com alta velocidade em relação às então existentes de tubos de vácuo.

Howard Aiken continuou em Harvard e desenvolveu a segunda, terceira e quarta gerações do seu MARK I, embora sem o apoio da IBM uma vez que tinha caído em desgraça em relação a Tom Watson, o qual inclusivamente deu instruções aos seus investigadores para desenvolverem uma máquina mais veloz, o que faz com que a IBM, de certo modo, se tenha iniciado no mundo dos computadores por espírito de vingança.

Assim, em 1948 a IBM propõe o IBM 603, máquina de calcular com um programa por cabos, depois introduzido por cartões, e em 1953 apresenta o 701, de tubos, que se torna em 1956, melhorado, no 704. Com uma genial política de vendas e o sentido da oportunidade, a IBM como que adoptou a ideia de Henry Ford com o seu modelo T - um automóvel para todos -, concebendo e fabricando para um mercado de grande volume. Em 1954 introduziu o IBM 650 com tambores magnéticos, o qual vende mais de 1500 exemplares em 15 anos. Em 1956, altura em que morreu Watson, com 82 anos, a IBM tinha ultrapassado em vendas a Remington Rand, que comercializava o UNIVAC. Ainda através da IBM, que almejava controlar o mercado francês, surge em 1957 o termo ordenador como uma criação de Jacques Perret.


(*) Quatro bits são chamados de nibble, e dois nibbles constituem um byte, a "palavra" unitariamente processada por muitos computadores, embora muitos haja também, de hoje em dia, que já processam "palavras" maiores...

Bibliografia

A indicar no final da Introdução à Microinformática de que este texto constitui a 1ª parte.Topo

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