| cr�nicas | N O V E M B R O 1 9 9 5 | |
| From the Pages of my Mind | ||
| Editor: Ramiro Ver�ssimo Psicologia M�dica, Faculdade de Medicina do Porto tele +351 225 501 486 // fax +351 225 088 011 |
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| Pela
Psicologia M�dica - manifesto panflet�rio de opini�o Da educa��o m�dica ao humanismo imposs�vel |
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Pense-se nesta quest�o como sendo paradoxal, para n�o a classificar desde logo como uma mistifica��o. Reduzindo ao absurdo no sentido de real�ar o cariz teoricamente irrealiz�vel da tarefa, � um pouco como se se pretendesse desmontar uma pr�tica de corrup��o sendo que ao faz�-lo perante quem de direito seria estar a faz�-lo perante a mesma pessoa ou institui��o que se pretendia desmascarar dado ser ela a �nica respons�vel por avaliar tais quest�es. Ou o que � o mesmo, reivindicar direitos reconhecidos estatutariamente perante quem disp�e de poder para aniquilar esse algu�m no exacto sentido em que essa reivindica��o pudesse vir a ser feita. Diz�-lo � uma banalidade. Ou seja, "a defesa e reconhecimento de direitos s� n�o � ilus�ria na medida em que n�o p�e o poder em causa uma vez que este, em regra nunca procede contra ele pr�prio, antes se outorgando imunidades que conduzem � impunidade obtida gra�as � depend�ncia sob a qual mant�m tais direitos..." (Jaques Mourgeon. Les Droits de L'Homme. Paris: PUF.1978, 1981). Em todas as quest�es relativas � actividade m�dica, e muito particularmente da praticada a n�vel hospitalar, muito se fala de humaniza��o e humanismo. Est� na ordem do dia. Humanizar � de bom-tom (leia-se d� cr�ditos pol�ticos). Na pr�tica nada se faz. Antes pelo contr�rio. E isto, diria mesmo, porque aos cl�nicos n�o s� de fazer a cl�nica como tamb�m de a ensinar, perpetuando a praxis institu�da. A� reside o paradoxo. Passo a explicar. Com efeito, independentemente da utiliza��o demag�gica do conceito enquanto valor eticamente merit�rio, o modelo biom�dico vigente nada mais lhe credita no seio do dom�nio do que reputa cient�fico. Remete-o assim para uma vertente da psicologia dita humanista, encarando tal qualifica��o como equivalente a pr�-experimental, especulativa, e deste modo limitada a gravitar epistemologicamente em torno das ci�ncias exactas. Com efeito, pouco conhece ou ignora mesmo que tal credita��o cient�fica na referida �rea de interven��o m�dica assenta no modelo biopsicossocial enquanto emana��o da abordagem sist�mica. Esta, tendo como ponto de partida a formaliza��o matem�tica de sistemas biol�gicos, permite enquadrar os sistemas probabil�sticos extremamente complexos. Tal como a meteorologia, ou o fumo que se evola no ar, tamb�m os sistemas sociais ou a pessoa humana, enquanto exemplos excelentes de tais sistemas, n�o escapam hoje a uma abordagem cient�fica mais ou menos formal apesar dos necess�rios saltos epistemol�gicos. E julgo que � de facto a n�vel da pessoa humana e n�o do �rg�o ou da les�o, que deve residir o fulcro da interven��o m�dica. N�o querendo com isto dizer que se deva ignorar, neste caso, a histologia ou a anatomopatologia; antes conferir um equilibrado cariz integrador indispens�vel a uma pr�tica de inter-rela��o humana num enquadramento muito particular de poder-depend�ncia / magia-f�. Mas tal n�o se passa de facto. Ali�s, e tanto mais problem�tico, o que se pressup�e seja a nata da intelig�ncia neste sector do conhecimento, e designadamente a quem de decidir sobre as orienta��es da educa��o m�dica, ao inv�s de aumentar, tem vindo a reduzir a capacidade de interven��o da psicologia m�dica no peso curricular de um ensino distribu�do. N�o somente pelas implica��es em termos de aprendizagem de um ensino convenientemente distribu�do, como tamb�m e sobretudo pelo momento fulcral relativamente � ministra��o de outros conhecimentos no decurso da forma��o m�dica, e designadamente o do privilegiado como refer�ncia para os primeiros contactos com o doente. Por id�ntica ordem de raz�es de sequencia��o seria impens�vel, por exemplo, o ensino cl�nico sem conhecimentos de patologia, ou estes sem pr�via fundamenta��o na morfologia e funcionamento normais. E no entanto a psicologia m�dica � sem d�vida, em todo o curso m�dico, a �nica que pretende adestrar os futuros cl�nicos em per�cias de inter-rela��o que n�o repudiamos como humanistas. Com efeito, o que at� hoje se tem relegado para a arte m�dica tamb�m se ensina, se bem que, ao contr�rio de outras ci�ncias m�dicas que arriscar�amos a chamar de enciclop�dicas, esta se n�o possa recolher exclusivamente dos tratados, na medida em que obriga ao treino de atitudes atrav�s de viv�ncias. No entanto, actualmente restam os princ�pios b�sicos para uma elabora��o a n�o mais vir, uma vez que , introduzidos no segundo ano do curso, n�o s�o seguidos da necess�ria interac��o com a pessoa doente pressuposta a n�vel proped�utico. Esta ser� substitu�da pelo �rg�o an�nimo que, isolado do seu contexto, jaz nu numa maca. A n�o ser pelo eventual comportamento inc�modo, improv�vel apesar de tudo dada a posi��o de extrema depend�ncias em rela��o ao meio, tal transpar�ncia humilhante do ser humano s� n�o se verificar� no feliz acaso da comisera��o voluntarista de um ou outro profissional que, apesar de tudo (excesso de trabalho, m� paga, mau ensino, maus exemplos, etc, etc) se n�o envergonha de n�o estar ou demonstrar t�o empedernido. E para onde se relega, por exemplo, a queixa som�tica por virtude do modo peculiar de sentir, ou o comportamento encarado como inc�modo que possa eventualmente resultar da pr�pria morbidez da situa��o. Para uma psiquiatria que se reclama igualmente do modelo biom�dico, autoproclamando-se mesmo de �ndole biol�gica por forma a macaquear os sectores favorecidos no grangear de aten��o / meios dos poderes econ�micos constitu�dos? Seria de rir tal proclama��o uma vez que � partida ningu�m ignora a interven��o de natureza pericial que um tal pedido de ajuda suscita: face a este ou �quele quadros reconhecidos, esta ou aquela interven��o farmacol�gica. E qual P�ncio Pilatos, ponto final. De facto, tamb�m esta em nada difere, nesse particular, das demais interven��es especializadas; e como tal com a devida chancela. A n�o ser talvez pelo exame mais "impressionista" e menos criterioso, que lhe confere uma certa aura criptog�nica. Ou ent�o pelo car�cter normativo (leia-se normalizador) quando a interven��o � instada por um pedido de interven��o nesse sentido, seja por parte de outros colegas ou da fam�lia, ou mesmo do poder judicial. Muito se poderia e pode dizer. No entanto estou convencido de que, para que isso tenha qualquer relev�ncia, n�o basta ser dito. Por isso n�o o direi. Necessita de ser debatido participadamente pelo maior n�mero de interessados poss�vel. E para tal debate julgo deste modo estar a contribuir atrav�s de uma ou outra quest�es mais pol�micas, embora no mais me limite a dizer o que � sobejamente conhecido por muito que n�o assumido. Sem que a Psicologia M�dica tenha carta de alforria no ensino m�dico, n�o haver� humaniza��o poss�vel da medicina. Sem que o n�mero de docentes nas cadeiras referentes ao comportamento possa pelo menos ombrear com os de outras �reas cl�nicas (na sua rela��o docente/discente, naturalmente), n�o haver� humaniza��o da medicina. Sem que a interven��o cl�nica do especialista nesta �rea do comportamento, isto �, junto do doente m�dico-cir�rgico, mormente em rela��o aos doentes cr�nicos e terminais, seja reconhecida, autorizada, integrada na equipe (!) e praticada em larga escala, a n�vel de um estabelecimento hospitalar que se prop�e com capacidade para albergar uma institui��o de ensino m�dico, n�o haver� humaniza��o da medicina, nomeadamente da a� praticada. E no entanto, se de fora em rela��o aos interventores com interesse directo neste sector s� vem desinteresse, tamb�m de dentro mais interesse n�o vem. Acomodadamente, e com interesses diversificados no sector cl�nico (privado e/ou institucional), todos tendem naturalmente a colocar em primeiro plano as suas carreiras profissionais, e s� depois, talvez, pensem em cobrir as apar�ncias em rela��o ao ide�rio duma alma mater a que v�o buscar o nome prestigiado. O contr�rio seria apelidado de idealismo ut�pico, maneira eufem�stica de atribuir o ep�teto de tolo. Ora uma vez que n�o acontecer� por iniciativa externa, dado que o modelo a� n�o � creditado, nem pela interna, visto de h� muito terem acabado os cavaleiros andantes capazes de defender, em cen�rios verdadeiramente kafkianos, a honra de sua dama contra aparelhos draconianos, n�o h� pois humaniza��o poss�vel que n�o seja a duma centelha pontual, resultante espor�dica de um m�rito pessoal n�o reconhecido pelos pares como suscept�vel de ser mensurado e avaliado. Se o inconsciente, por defini��o, n�o perpassa a consci�ncia de modo espont�neo, como pode o cl�nico conduzir adequadamente uma rela��o transferencial, ou terap�utica se se preferir, se dela � mero agente passivo embora investido de tal poder. Intuitivamente claro. S� que o bom senso, independentemente da sua natureza arredia, n�o pode ser tomado como terap�utico, e at� antes pelo contr�rio tem de se partir do princ�pio que sujeito � lei de Murphy. Al�m de que uma praxis intuitiva se n�o pode autoproclamar de cient�fica independentemente dos c�nones invocados para reclamar a boa pr�tica em determinados aspectos parcelares e limitados (leia-se especializados ou ultra-especializados). Repetindo: pese embora, por tudo o que fica dito, que os padr�es utilizados para termos comparativos do bom acto m�dico se limitem a constatar que as medidas especializadas ora executadas o foram com correc��o e adequa��o, jamais estando em causa a compet�ncia a n�vel transferencial. No entanto a� reside grande parte da ac��o terap�utica, que n�o na interven��o especializada; sem que esta �ltima esteja posta em causa, naturalmente. Disso mesmo impende a �rea nascente da Qualidade de Vida Relacionada com a Sa�de, se bem que continuando a escamotear a m� pr�tica transferencial, antes tentando relevar a insatisfa��o e mal-estar do paciente conducente � mobiliza��o dos recursos de sa�de, para caracter�sticas da sua personalidade, ambiente familiar, etc. Isto �: se independentemente do grau ou tamanho da les�o segundo crit�rios ditos objectivos, o doente se continua a queixar de mal-estar e a recorrer aos servi�os, isso � relegado para um "melhorado de facto" num doente que por raz�es pessoais "n�o quer ficar bom". E deste modo se volta a cair no conceito at�vico de doen�a como expia��o de culpa, nem por um momento questionando a qualidade da rela��o transferencial. Se o doente n�o adere � terap�utica ou � pouco colaborante, uma vez mais � culpabilizado e castigado pelo seu pr�prio comportamento. E a dor, particularmente a dor cr�nica? E o sofrimento humano ou o luto? E como lidar com os padecentes de doen�as cr�nicas e debilitantes ou com os que se encontram em situa��es qualificadas de terminais? E como reconhecer a especificidade do grupo et�rio, seja a do desenvolvimento na crian�a ou do enquadramento do idoso? At� porque pelo seu estatuto o m�dico � frequentemente chamado a pontificar sobre assuntos que ignora t�o profundamente quanto o seu paciente que assim o questiona... mas a tenta��o � grande e o Narciso em si, sem qualquer base ou fundamento que n�o o do saber de experi�ncia feito em nada diferente do do cidad�o comum, aconselha por exemplo este ou aquele comportamento ou atitude em rela��o � educa��o dos filhos. Pobres pais que assim confiam como em ningu�m mais; a n�o ser o tom conhecedor e autorit�rio, nada lhes garante ou sequer permite p�r em causa tal compet�ncia de facto inexistente. Ou ser� que o m�dico, s� porque � m�dico, passa a estar investido de um bom-senso terapeuticamente adequado? Sabe-se que muit�ssimas vezes o n�o �, e s� uma forma��o adequada lhe permitir� reconhecer a medida conveniente, ainda que esta possa ser um dif�cil remeter para a pr�pria ignor�ncia. Ainda h� dias lia no NewsGroup Sci.Psychology.Misc algo que, pese embora relativo a paraprofissionais, julgo perfeitamente aplic�vel � circunst�ncia: 'We are paying too much for too little... these folks are very frequently exercising inappropriate... when they basically offer their individual and idiosyncratic opinions authoritatively. Also they frequently are guilty of maintaining an inappropriate power differential with clients which, while possibly good for business, may foster dependency and be anti-therapeutic." O paciente, nestas ou aqueloutras circunst�ncias, chora. Como
identificar a situa��o e proceder adequadamente? E agora? Tocar ou evitar o contacto
f�sico? Numa dada situa��o, o que � que se pode considerar l�cito fazer sem
autoriza��o expressa do paciente? Pelo contr�rio, quando � que � aceit�vel partir
duma aceita��o t�cita por parte do paciente perante determinado procedimento, sem estar
a correr o risco de explorar indevidamente a desigualdade da rela��o m�dico-doente dada
a sua situa��o de depend�ncia (inerente a pr�pria condi��o de paciente)? Para n�o
ignorar os seus sentimentos, deverei abordar este assunto agora ou depois? Qual o momento
mais adequado, se � que existe? E qual a melhor maneira de o fazer? Ser� que a
disposi��o do gabinete � indiferente, isto �, de que as implica��es desta ou daquela
disposi��o s�o de natureza meramente decorativa? Ser� que o tamanho da secret�ria �
indiferente? Ou ser� que quando eu sinto determinada prefer�ncia devo reconhecer ao
paciente o poder sentir outra, eventualmente mais adequada em termos de resultado
terap�utico final? E a posi��o / orienta��o das cadeiras, ou a localiza��o da porta
e das janelas? Devo escrever, ou mostrar que estou a ouvir atentamente? E como proceder
para enviar o paciente ao especialista do comportamento, sem com isso o ofender, e sem que
isso seja um mero ditame de uma rejei��o mais ou menos encapotada de um paciente de
algum modo inc�modo (seja por exemplo porque p�e em causa o meu poder de curar quando eu
estou perfeitamente convicto da correc��o do meu procedimento)?
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| � Ramiro Verissimo 1996 | ||