Assim, e em relação a cada um
dos três factores do IPC por essa ordem - Quadro 2 -, as diferenças
encontradas vão no sentido de que os valores obtidos nas três escalas são
significativamente mais elevados que os dos estudantes americanos. No entanto, tal como
estes, têm uma tendência significativamente maior para a internalidade, e no controlo
externo favorecem o controlo atribuído a pessoas poderosas. E daqui resultam as
diferenças verificadas em relação ao referido estudo de Coimbra, sendo que, quer para o
sexo masculino quer para o feminino, os valores encontrados são significativamente
superiores para as escalas de I e P, e inferiores para a de C.
Também na comparação
resultante da estratificação por sexos - Quadro 2 -, e à semelhança dos estudos
referidos por Relvas et al [27], não se encontrou qualquer diferença
significativa entre o sexo masculino e o feminino.
Em relação à análise de
itens resultou da bipartição um alfa de Cronbach de 0.613, 0.738 e 0.701,
respectivamente para as escalas I, P e C. Quanto à correlação média
inter-item, ela foi de 0.212 para a escala de I, 0.268 para a P, e 0.236
para a C. A coerência interna das escalas determinada através da fórmula de
Spearman-Brown [34] deu para cada uma das dimensões e pela mesma ordem sequencial,
valores de 0.581, 0.742 e 0.683, semelhantes aos encontrados por Relvas et al [27],
e mesmo algo superiores em relação às escalas de externalidade. A este propósito
passamos então a fazer a análise das questões do IPC através da sua facilidade
ou, o que é dizer o mesmo, do seu grau de dificuldade, bem como de acordo com o seu poder
discriminativo.
QUADRO
3.
Descrição estatística sumária das variáveis |
TOTAL DE OBSERVAÇÕES: 90 |
| |
P 1 |
P 2 |
P 3 |
P 4 |
P 5 |
P 6 |
P 7 |
P 8 |
P 9 |
P 10 |
P 11 |
P 12 |
Nº DE CASOS |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
MÍNIMO |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
2 |
1 |
1 |
1 |
MÁXIMO |
6 |
6 |
6 |
6 |
6 |
6 |
5 |
6 |
6 |
6 |
6 |
6 |
MÉDIA |
4 |
2.85 |
2.61 |
3.48 |
4.45 |
3.09 |
1.9 |
3.2 |
4.97 |
3.71 |
2.28 |
2.65 |
D. PADRÃO |
1.37 |
1.23 |
1.29 |
1.47 |
1.22 |
1.13 |
0.9 |
1.41 |
0.99 |
1.21 |
1.04 |
1.18 |
SOMATÓRIO |
740 |
527 |
482 |
644 |
823 |
571 |
352 |
592 |
920 |
686 |
423 |
491 |
Facilidade (p) |
0.7 |
0.5 |
0.4 |
0.6 |
0.7 |
0.5 |
0.3 |
0.5 |
0.8 |
0.6 |
0.4 |
0.4 |
Variância |
1.88 |
1.51 |
1.66 |
2.16 |
1.49 |
1.28 |
0.81 |
1.99 |
0.98 |
1.46 |
1.08 |
1.39 |
| |
P 13 |
P 14 |
P 15 |
P 16 |
P 17 |
P 18 |
P 19 |
P 20 |
P 21 |
P 22 |
P 23 |
P 24 |
Nº DE CASOS |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
185 |
MÍNIMO |
1 |
1 |
1 |
1 |
1 |
2 |
2 |
1 |
2 |
2 |
3 |
1 |
MÁXIMO |
6 |
5 |
5 |
6 |
5 |
6 |
6 |
6 |
6 |
6 |
6 |
4 |
MÉDIA |
2.91 |
2.2 |
2.84 |
3.8 |
2.26 |
4.94 |
4.81 |
4.13 |
5.11 |
3.37 |
5.14 |
1.98 |
D. PADRÃO |
1.31 |
1.02 |
1.19 |
1.17 |
1.23 |
0.99 |
0.82 |
1.11 |
0.72 |
1.02 |
0.78 |
1.09 |
SOMATÓRIO |
538 |
407 |
525 |
703 |
419 |
913 |
889 |
764 |
945 |
624 |
952 |
366 |
Facilidade (p) |
0.5 |
0.4 |
0.5 |
0.6 |
0.4 |
0.8 |
0.8 |
0.7 |
0.9 |
0.6 |
0.9 |
0.3 |
Variância |
1.72 |
1.04 |
1.42 |
1.37 |
1.51 |
0.98 |
0.67 |
1.23 |
0.52 |
1.04 |
0.61 |
1.19 |
Neste caso, o
critério da facilidade / dificuldade - Quadro 3 - não nos permite à partida
formular com segurança quaisquer conjecturas em relação ao efeito de aquiescência dado
que a tendência amostral para o locus de internalidade se vai reflectir no valor
mais elevado deste índice em relação às questões que para ele contribuem.
QUADRO
4.
Matriz de correlações de Pearson entre as escalas (N = 185) |
| |
I |
P |
C |
E |
I |
1 |
|
|
|
P |
-0.08 |
1 |
|
|
C |
-0.14 |
0.54 * |
1 |
|
E |
-0.12 |
0.89 * |
0.86 * |
1 |
* p < 0.05 |
As correlações
entre as escalas - Quadro 4 - vão de encontro às hipóteses permitidas no
âmbito do constructo, e designadamente no sentido de se verificarem correlações
negativas entre a escala de internalidade e as de externalidade. Mais além verifica-se um
afastamento maior em relação à escala de casualidade. Por outro lado ambas as escalas
de externalidade apresentam correlações francamente elevadas com a escala resultante da
média aritmética de ambas; o que seria de esperar à partida, até pelo contributo que
dão para o respectivo resultado. Já a correlação entre si, se moderadamente elevada,
não o é tanto, o que sugere a validação da selecção empírica dos itens de cada uma
baseada no constructo.
QUADRO
5.
Matriz de correlações de Pearson entre as variáveis (N = 185) |
| |
I |
P |
C |
Pergunta 1 |
0.54 * |
-0.12 |
0.00 |
Pergunta 2 |
-0.12 |
0.19 * |
0.61 * |
Pergunta 3 |
-0.12 |
0.48 * |
0.27 * |
Pergunta 4 |
0.34 * |
0.11 |
-0.01 |
Pergunta 5 |
0.68 * |
-0.07 |
-0.100.1 |
Pergunta 6 |
-0.07 |
0.42 * |
0.66 * |
Pergunta 7 |
-0.25 * |
0.39 * |
0.58 * |
Pergunta 8 |
-0.05 |
0.71 * |
0.3 * |
Pergunta 9 |
0.45 * |
0.03 |
0.02 |
Pergunta 10 |
0.13 |
0.14 |
0.38 * |
Pergunta 11 |
-0.19 * |
0.62 * |
0.37 * |
Pergunta 12 |
0.02 |
0.30 * |
0.61 * |
Pergunta 13 |
-0.00 |
0.58 * |
0.32 * |
Pergunta 14 |
-0.33 * |
0.35 * |
0.63 * |
Pergunta 15 |
-0.17 * |
0.75 * |
0.43 * |
Pergunta 16 |
-0.00 |
0.42 * |
0.56 * |
Pergunta 17 |
-0.06 |
0.58 * |
0.35 * |
Pergunta 18 |
0.62 * |
-0.12 |
-0.19 * |
Pergunta 19 |
0.6 * |
-0.1 |
-0.17 * |
Pergunta 20 |
0.24 * |
0.45 * |
0.28 * |
Pergunta 21 |
0.53 * |
0.05 |
-0.07 |
Pergunta 22 |
-0.01 |
0.59 * |
0.26 * |
Pergunta 23 |
0.61 * |
-0.18 * |
-0.16 * |
Pergunta 24 |
-0.1 |
0.28 * |
0.56 * |
* p < 0.05 |
Quanto ao
coeficiente de determinação para avaliar o poder discriminativo, ao efectuar a
correlação de cada um dos 24 itens com cada uma das escalas - Quadro 5 -
verificou-se que, para a escala de internalidade, os valores mais elevados vão de
encontro à sugestão original. Isto é, vão para as questões 1, 4, 5, 9, 18, 19, 21, e
23. No entanto a correlação do item 4 é relativamente fraca (r < 0.45),
seguindo-se-lhe o 9 (r = 0.45). Por outro lado, conforme seria de esperar, estes
itens apresentam em regra uma correlação negativa em relação às escalas de
externalidade.
Quanto aos restantes itens,
referindo-se à externalidade seria de esperar uma correlação igualmente negativa com a
escala de internalidade, o que só não acontece com o 10 e com o 20, questões com
correlações relativamente fracas com as respectivas escalas (r < 0.45 e r =
0.45 respectivamente). A aceitar uma questão com uma correlação tão baixa quanto a
10, e mesmo assim superior à da 4, teríamos de incluir na respectiva escala - C - a
15, a qual sendo mais significativa, é contabilizada à partida na escala de P, em
relação à qual se verifica uma correlação mais elevada. Aliás, em relação a esta
questão da homogeneidade das escalas também a questão 20 da escala P tem uma
impregnação significativa na escala I dada a sua correlação positiva e
significativa (p < 0.05) com a mesma.
QUADRO
6.
Extended Factor Loading Matrix |
Correlations of variable
clusters (oblique factors)
with secondary and primary factors |
| |
Cluster
1 |
Cluster
2 |
Cluster
3 |
Secondary 1 |
-0.74 |
0.27 |
-0.77 |
Secondary 2 |
0.67 |
0.00 |
0.00 |
Primary 0 |
0.00 |
0.96 |
0.00 |
Primary 1 |
0.00 |
0.00 |
0.64 |
* p < 0.05 |
Quanto aos factores
oblíquos da análise hierárquica de componentes principais, deles se pretende dar conta -
Quadro 6 - através da matriz de correlações das variáveis em cluster (agrupadas
nos factores oblíquos) com os factores primário e secundário.
QUADRO
7.
Factor Loadings (Varimax normalized) |
Clusters of loadings are
shown; those clusters
determine the oblique factors for hierarquical analysis |
| |
Factor
1 |
Factor
2 |
Factor
3 |
Pergunta 1 |
|
0.45 * |
|
Pergunta 2 |
|
|
0.58 * |
Pergunta 3 |
0.35 * |
|
|
Pergunta 4 |
0.21 * |
|
|
Pergunta 5 |
|
0.70 * |
|
Pergunta 6 |
|
|
0.60 * |
Pergunta 7 |
|
|
0.52 * |
Pergunta 8 |
0.75 * |
|
|
Pergunta 9 |
|
0.37 * |
|
Pergunta 10 |
|
|
|
Pergunta 11 |
0.54 * |
|
|
Pergunta 12 |
|
|
0.63 * |
Pergunta 13 |
0.55 * |
|
|
Pergunta 14 |
|
|
0.60 * |
Pergunta 15 |
0.74 * |
|
|
Pergunta 16 |
|
|
0.16 * |
Pergunta 17 |
0.46 * |
|
|
Pergunta 18 |
|
0.72 * |
|
Pergunta 19 |
|
0.64 * |
|
Pergunta 20 |
0.41 * |
|
|
Pergunta 21 |
|
0.59 * |
|
Pergunta 22 |
0.59 * |
|
|
Pergunta 23 |
|
0.65 * |
|
Pergunta 24 |
|
|
0.58 * |
No quadro seguinte
- Quadro 7 - estão assinaladas as questões que contribuem para cada um dos três
factores desta solução.
QUADRO 8.
Fiabilidade: a de Cronbach (N = 185) |
| |
|
Corr
Item-Total |
R mult 2 |
a se excluida |
I
a = 0.613 |
P 1 |
0.263 |
0.116 |
0.603 |
P 4 |
0.017 |
0.019 |
0.696 |
P 5 |
0.482 |
0.395 |
0.522 |
P 9 |
0.246 |
0.081 |
0.598 |
P 18 |
0.455 |
0.384 |
0.542 |
P 19 |
0.464 |
0.340 |
0.550 |
P 21 |
0.398 |
0.231 |
0.570 |
P 23 |
0.479 |
0.296 |
0.549 |
P
a = 0.738 |
P 3 |
0.273 |
0.238 |
0.743 |
P 8 |
0.544 |
0.365 |
0.686 |
P 11 |
0.494 |
0.341 |
0.702 |
P 13 |
0.393 |
0.245 |
0.720 |
P 15 |
0.641 |
0.469 |
0.669 |
P 17 |
0.415 |
0.200 |
0.714 |
P 20 |
0.280 |
0.120 |
0.738 |
P 22 |
0.454 |
0.264 |
0.709 |
C
a = 0.701 |
P 2 |
0.421 |
0.214 |
0.665 |
P 6 |
0.509 |
0.288 |
0.645 |
P 7 |
0.443 |
0.234 |
0.665 |
P 10 |
0.147 |
0.033 |
0.728 |
P 12 |
0.424 |
0.202 |
0.664 |
P 14 |
0.486 |
0.272 |
0.653 |
P16 |
0.366 |
0.148 |
0.678 |
P 24 |
0.391 |
0.227 |
0.672 |
Quanto à análise
de item em função da fiabilidade das escalas para determinar as implicações de excluir
do questionário as questões 3, 4, e 10 - Quadro 8 -, constata-se que resulta um
alfa de Cronbach de 0.696, 0.743, e 0.728 respectivamente para cada uma das escalas I,
P, e C. Quanto à coerência interna das escalas, pelo método de
Spearman-Brown [34], e pegando em quatro questões de cada escala contra as três
restantes, ela eleva-se agora a valores de 0.687, 0.801 e 0.759 respectivamente.

Discussão
Se atendermos a que no
questionário adoptado, o IPC de Levenson, o número de questões a contribuir para
cada uma das escalas é o mesmo, e designadamente de 8 em 24, o facto da amostra ter sido
constituída a partir de uma sub-população estudantil universitária pode reflectir-se,
e reflecte-se seguramente no facto de a tendência da média de internalidade se revelar
acentuadamente mais elevada do que as outras - Quadro 2 -. Tal tendência vai de
encontro à referida e observada noutros estudos, e designadamente no de referência [27].
No entanto a não representatividade do grupo estudado em relação à população geral,
característica desde logo exaustivamente descrita [27], não constitui verdadeiro
obstáculo ao estudo proposto, uma vez que o que se pretende é, não a inferência de
conclusões sobre os loci de controle da população, mas antes uma consideração
descritiva da estrutura dos mesmos na amostra estudada capaz de permitir à partida
discernir a relação que guardam com as propriedades psicométricas do questionário
adoptado. Aliás permite mesmo, mais além, fazer um estudo extrapolado à semelhança do
proposto por João Relvas [27] no artigo que tem vindo a ser mencionado.
Por outro lado, também a
existência de vários estudos publicados anteriormente em que é referida a sua
utilização em Portugal [6, 18, 27, 31, 35, 36], reforçou a convicção que levou a
adoptar para o presente estudo, conforme já referido, o questionário IPC de
Levenson.
A propósito dos valores
encontrados serem significativamente mais elevados do que os do estudo original citado - Quadro
2 -, sem pretender conjecturar na ausência de dados analíticos que o consubstanciem,
não gostaria no entanto de deixar sem referenciar a existência de duas tipologias de
indivíduos, para além dos tipicamente de locus interno, crentes no controle e
puro acaso, e designadamente os yea-sayers e os nay-sayers [37, 38], podendo
estes contribuir de forma desigual para a formação das amostras.
Assim, por exemplo, e em relação aos universitários americanos, os aquiescentes podem
ter contribuído de modo mais significativo para a presente amostra, o que permitirá
compreender de certo modo a razão de ser dos valores mais elevados obtidos nas três
escalas.
Quanto à análise
exploratória, mormente em relação ao poder discriminativo das questões através das
correlações com os totais, esta sugere que, dos 8 itens que configuram cada uma das
três escalas se rejeitem desde logo as questões 4 e 10. Por outro lado, só por excesso
de zelo se rejeitariam também neste momento as questões 3, 9 e 20, o que em termos
teóricos implicaria uma significativa redução da fiabilidade. Outra das questões a
considerar é a da desvantagem de fazer com que as escalas passem a ser resultado de um
número diferente de questões, uma vez que tal facto nos impediria de ter à partida,
mesmo sem nenhuma transformação normalizante, uma avaliação empírica do peso relativo
das pontuações em cada uma das escalas.
A análise factorial nasce
com Spearman no início dos anos 20 como um método de investigar a estrutura subjacente
de uma matriz de correlações. Pode ser particularmente útil na análise de itens em
alternativa ao índice de discriminação, embora retenha sempre um
forte componente subjectivo em relação à sua interpretação. O que podendo ser
encarado como uma das suas fraquezas, não deixa de ser também uma clara vantagem quando
convenientemente usado em alternativa aos métodos sistemáticos a cuja cegueira obviam.
Em boa verdade se diga também, no sentido de colmatar qualquer reticência em relação a
empreendê-la, que este tipo de análise do questionário IPC não constitui nada
de verdadeiramente inovador [35], e designadamente no contexto da teoria dos testes ou
teoria da psicometria [33, 34, 39], tanto mais que tal abordagem começa por nascer da
necessidade imposta pela conceptualização psicométrica, e esta por seu turno
desenvolve-se consideravelmente a partir dela.
Apesar de haver igualmente
estudos no sentido de comprovar o contrário, eventualidade a que se submetem todos os
paradigmas no contexto das revoluções científicas [40], parte-se aqui do conhecimento
implícito no modelo que levou à construção do questionário em referência de que a
internalidade / externalidade não formam só por si uma dimensão única [25, 26, 28, 38,
41, 42]. Antes comporta como formas distintas de externalidade, segundo as expectativas de
reforço, a atribuição do controle a grupos ou outras pessoas desse modo encarados como
poderosos (P), e elementos aglutinados num factor de fado e casualidade (C). Assim, ao
efectuar uma análise hierárquica de componentes principais pretendemos dar conta dos
factores oblíquos que antecipamos estarem em causa na relação dos dois componentes da
externalidade com o de internalidade. Com efeito, consideramos que a análise factorial de
correlações, cujos pressupostos estatísticos, como o comprovam os resultados descritos
por outros autores [28], conduzem a uma solução biaxial de tipo internalidade /
externalidade, ou se numa solução forçada de três eixos ortogonais, não conseguem
discriminar os clusters de externalidade, pouco mais permitindo dizer dos
resultados do que profundamente discrepantes e incapazes de dar conta do modelo na sua
proposta de separação entre P e C. E é pois aqui que ressalta a
inovação da proposta do presente trabalho, de cuja eficácia se pretende dar conta com a
matriz de correlações das variáveis em cluster (agrupadas nos factores
oblíquos) com os factores primário e secundário - Quadro 6 -. No quadro seguinte
- Quadro 7, podem ver-se claramente alguns dos pressupostos antecipados na análise
exploratória. Assim, o factor 2 corresponderá à internalidade, o factor I ao powerful
others, e o 3 ao chance, ressaltando desde logo a ausência da questão 4 no
factor 2, a qual vem a surgir como contribuinte algo significativo para o factor 1;
aliás, a irrelevância de tal questão, tal como o contributo marginal da questão 9, já
tinham sido indiciados por outros autores [26, 35, 42]. Por outro lado, sem corroborar os
resultados do estudo de Coimbra [35] quanto à impregnação da questão 23 no eixo
da externalidade da sua solução biaxial (a única que pode servir aqui de termo
comparativo), os resultados vão contudo inteiramente no mesmo sentido quanto à questão
10, e designadamente de que, tal como a questão 4, mais do que reformulada deve ser pura
e simplesmente retirada do questionário. De facto, oriunda do factor 3, acaso, o
seu contributo não passa de marginal. Também em relação à questão 20, a solução
biaxial do estudo de Coimbra [35], à semelhança dos outros autores citados [26, 42] vem
reforçar a verosimilhança dos resultados obtidos. No entanto somos forçados a
considerar em primeiro a rejeição da questão 3 em relação ao factor 1 (P), uma vez
que esta pouco se distancia do contributo alienígena da questão 4, ficando aquém da
linha dos 0.4 que serve de critério para reter na escala de P a questão 20, ainda
que de valia marginal. Para confirmar estas ilações procedeu-se a uma análise de item
em função da fiabilidade das escalas.
Assim, se em contrapartida
analisarmos as implicações de excluir do questionário as questões 3, 4, e 10,
constata-se que resultam para o alfa de Cronbach valores que em nada surpreendem ao
revelar-se algo superiores aos obtidos com as escalas originais. Essas eram aliás as
únicas questões susceptíveis de aumentar esse valor uma vez excluídas - Quadro 8 -,
e isto apesar de as questões 9 e 20 também apresentarem correlações relativamente
fracas com as respectivas escalas, e terem um baixo r múltiplo ao quadrado. Tal
como também não são de surpreender as correlações médias inter-item ligeiramente
mais elevadas, 0.275, 0.296, e 0.283 respectivamente, bem como mais elevados são os
valores da coerência interna das escalas.

E é exactamente a razão
da exclusão dessas questões o que se pretende representar graficamente na figura 1 através
do seu posicionamento em relação às áreas demarcadas de exclusividade dos clusters em
torno dos respectivos centros de gravidade.

Quanto à questão 4, o seu
afastamento em relação às restantes questões do factor 2 está claramente patente nos
gráficos bidimensionais das figuras 2 e 3. Nestas, representando os planos
formados pelos respectivos eixos, estão traçadas a cheio as linhas de coordenada 0.4.
Pretende-se assim confinar aproximadamente as projecções das nuvens de pontos com
coeficiente de saturação mais elevado, dada a maior correlação implícita por parte
das questões que representam.

De igual modo quanto à
questão 10 em relação ao factor 3 nos gráficos das figuras 3 e 4, bem como para
a questão 3 nos das figuras 2 e 4 em relação ao factor 1.



Conclusões
Em resumo, a análise
efectuada vai de encontro ao modelo originalmente avançado por Levenson no sentido de
permitir isolar os clusters inicialmente propostos: I, P e C. Mais
além, permite concluir pela não ortogonalidade do eixo da externalidade em relação ao
de internalidade, o que indicia a origem das discrepâncias que ressaltam dos resultados
descritos por outros autores com recurso a diferentes métodos analíticos e sugere a
correcção da escolha adoptada em relação aos mesmos. Com efeito, constatada a
obliquidade do eixo que passa pelo centro de gravidade dos dois clusters de
externalidade, estes mesmos clusters só poderão ser evidenciados eventualmente
através de soluções como as anteriormente propostas se abordados isoladamente em
relação à internalidade.
Por outro lado, as claras
diferenças amostrais em relação a estudos relatados anteriormente, não põem em causa
os resultados do predomínio relativo do locus de internalidade no tipo de
população estudada, antes os confirmando e reforçando mesmo a necessidade de efectuar
estudos transculturais. Tais diferenças sugerem no entanto a necessidade de levar a cabo
novos estudos, agora não mais no sentido de averiguar a estrutura do locus de
controle, desde logo claramente estabelecida no contexto deste modelo, mas antes tendo em
vista avaliar uma tipologia clara dos padrões individuais de resposta, a qual possa
permitir recorrer a uma análise discriminante capaz de elucidar sobre características
que se prendem com aspectos da casuística amostral.
Quanto à coerência
interna dos factores, a sobreponibilidade dos resultados das sucessivas análises dos
itens aponta claramente no sentido da exclusão das questões 3, 4 e 10, uma em
cada escala, sem que isso tenha implicações de maior nas características psicométricas
do mesmo; antes pelo contrário, até lhe acresce fiabilidade, o que não aconteceria se
tivessem qualquer relevância que fosse, ainda que mínima se em posição marginal. Tal
sugere pois vivamente a sua exclusão. Tanto mais que referindo-se cada uma delas a
diferentes escalas, o número de perguntas a contribuir para cada escala permanece o
mesmo; e se de facto inferior ao original, isso não invalida os estudos de validação
cruzada por métodos de correlação (correcção da atenuação), podendo os obstáculos
impeditivos das comparações directas ser obviados através da normalização dos
resultados.

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