Arquivos de Medicina 1996; 10(2): 140-151.

PSICOPATOLOGIA E SAÚDE MENTAL NA ESTRUTURA DO HUMOR:
AVALIAÇÃO DE RETRAIMENTO, DEPENDÊNCIA E VIGOR PELO MAACL

Ramiro Verissimo

Key Words:
Personalidade, humor, afectos negativos, evitamento, afectos positivos, confronto
Personality, mood, negative affect, avoidance, positive affect, approach behavior

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Prof Doutor Ramiro Verissimo
Psicologia Médica / Faculdade de Medicina do Porto
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Índice
Resumo
Introdução
Objectivos
População e Métodos
Resultados
Discussão
Conclusões
Referências

Resumo

Pretendeu-se com este trabalho rever, agora no contexto português, alguns aspectos psicométricos das escalas propostas para o MAACL-R, bem assim como confirmar ou infirmar a estrutura originalmente proposta. O pressuposto que se tomou como certo é o de que há certas peculiaridades linguísticas e especificidades culturais com que se defronta sistematicamente o investigador que pretende traduzir e adaptar um instrumento quando o intenta utilizar num contexto linguístico e/ou cultural diferente daquele em que foi desenvolvido.

À semelhança dos anteriores, o estudo também veio reforçar a convicção de que têm razão de ser as cinco escalas propostas no contexto de duas grandes dimensões, embora devam ser pontualmente reformuladas no contexto português dadas as implicações significativas da conotação de alguns itens. Neste contexto destacam-se desde logo as migrações transculturais dos afectos ligados a agressividade e extravagância num sentido, e à crítica por outro. Sugere-se além disso uma achega para o significado dos factores em conformidade com a forma de traço, mantendo porém a equivalência à de estado.

Summary

Psychopathology and Mental Health in the Mood Structure:
retreat, dependence and strength as MAACL measurements

The goal of this study was to review for the Portuguese context some of the psychometric properties concerning the MAACL scales as well as to confirm the structure originally proposed. What we had in mind was the implications of some linguistic peculiarities and cultural idiosyncrasies that always come up when someone intends to use an instrument such as this in a different context from the one where it was conceived.

The study reinforces the conviction that the five scales proposed in the context of two broader dimensions do have reason to exist, although needing some minor changes due to different semantic implications. One emphasis is made in the transcultural migration of aggressive and wild, in one hand, and critical in the other. The author also suggests some aspects that may spill some light over the meaning of the mood clusters as detached from the structure of the trait form, thought keeping in mind the comparability with the scales of the state form.Topo

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Introdução

Mais do que uma mera manipulação fornecedora de um índice numérico indiciador da sua validade, o processo de validação de um teste deve ultrapassar tal análise psicométrica de natureza puramente estatística [1, 2, 3]. Com efeito, o processo de avaliação da validade de um teste tem de ir ao encontro de variadíssimos pressupostos que não só o da validação por conformidade criterial, o de validade do conteúdo, ou o de validade do constructo [4]. Trata-se de facto de um processo inferencial que envolve consideração simultânea de aspectos de ordem teórica e de adequação empírica, e que inclusivamente envolve critérios condicionais uma vez que podem depender do contexto previsto para a sua utilização. Para compreender essa necessidade absoluta de clarificação dos objectivos em vista aquando da sua construção, pense-se por exemplo na relação entre fiabilidade e sensibilidade. De facto estes dois aspectos da validação variam na razão inversa, pelo que importa estabelecer ab initio a qual deles dar prioridade. E assim é que em investigação interessa particularmente a sensibilidade, permitindo detectar todos os casos à custa de uns quantos falsos positivos, ao passo que no contexto do reconhecimento diagnóstico individual, como facilmente se poderá compreender, interessa sobretudo a especificidade, ainda que arriscando alguns falsos negativos [5]. A este propósito são mesmo de referir as implicações éticas que resultam da ulterior utilização a dar ao teste mas a considerar desde logo neste processo de validação.

Numa linha de estudo anterior temo-nos vindo a interessar pela influência, diríamos pela mediação da personalidade no tipo de recurso a determinados meios de superação. Mais do que o estado, é pois neste contexto de invariantes da personalidade, e assim entendemos a pressuposta estabilidade do traço, que pretendemos estudar e depurar um meio de avaliar o modo tendencial de reagir emocionalmente às situações que se nos deparam no nosso quotidiano. E designadamente em termos de atitudes de retraimento, em regra tradutoras de risco psicopatológico e eventualmente sugerindo uma intervenção de tipo terapêutico, ou pelo contrário de atitudes de aproximação e confronto. Estas últimas, assim encaradas como estando para além da ausência daquelas, representarão por sua vez uma disposição mental salutar e mesmo protectora, cuja ausência sugerirá antes uma intervenção de natureza psicoeducacional a nível da autoestima. E é exactamente este aspecto um dos que mais frequentemente se tem ignorado nos estudos deste âmbito, uma vez que os meios de detecção em regra só pesquisam a presença ou ausência de achados positivos de índole psicopatológica, e não a presença ou ausência de índices de saúde mental. Mas áreas há, mormente no domínio da psicossomática, em que a sintomatologia psicopatológica alegadamente prima pela ausência, e designadamente em circunstâncias adaptativas em que tal não seria de esperar a não haver uma forte repressão/negação. E essa transparência por ausência de achados psicopatológicos, vem a constituir-se em falsos negativos por meio dos referidos instrumentos convencionais.

A estas tonalidades afectivas básicas acresce no entanto uma modelação caracterial por si só também determinante de diferentes formas de expressão. Deste modo teremos que, por influência de determinados aspectos de natureza caracterial, uma mesma disposição temperamental poderá assumir diferentes cunhos patoplásticos. Estes, dada a natureza estável dos seus determinantes, também devem ser suficientemente estáveis para poderem ser avaliados só por si, embora possam ter um modo de expressão mais ou menos aparente ou mais ou menos tendencial, sendo o desencadeamento desse potencial mediado pela influência de determinada constelação circunstancial no contexto do carácter. No entanto, dada a sua determinação comum, devem por outro lado poder assumir toda uma gama intermédia de expressões ao longo de um continuum resultante do maior ou menor peso e influência num ou noutro sentido dos referidos condicionantes adquiridos. Ou seja, ao avaliar invariantes da personalidade não estamos necessariamente a alcançar de forma impoluta todos seus determinantes, mas antes os estilos expressivos resultantes dessas influências múltiplas, podendo eventualmente inferir alguns desses determinantes no contexto de um determinado modelo.

Somos de parecer que os estudos dimensionais, ainda hoje não consensuais [6, 7], se devem alicerçar nos modelos fenomenológicos oriundos da psicopatologia clínica. Com efeito, tais reflexões categorias muito devem a uma reconstrução criterial permanente, na medida em que são fruto de uma observação sempre posta em causa, pelo que dispõem hoje de critérios explícitos perfeitamente estabelecidos [8], critérios esses que muito provavelmente circunscrevem de modo implícito a base biológica do comportamento observável. Ora como regra geral pode dizer-se, e tem sido descrito que a maior parte das variações observáveis na personalidade, tanto de índole psicopatológica [8, 9, 10] como na população em geral [11, 12, 13], podem ser explicadas através de cinco factores, mais ou menos dois. Estas soluções têm-se revelado válidas e significativamente intercorrelacionadas [14, 15]. Mais além tem-se verificado que os resultados destes questionários de autopreenchimento acabam por ir de encontro às alterações da personalidade reconhecidas por critérios estabelecidos [16] ou através dos relatos descritivos dos circunviventes [15]. A descrição de um desses factores vai frequentemente de encontro a uma orientação atitudinal respectivamente sobre o próprio ou sobre o meio. Com efeito, um dos constructos que no decurso da sua já longa história se tem revelado mais profícuo, é o da tipologia psicológica jungiana, pese embora sem a natureza bimodal implícita nas assunções originais. Um segundo factor também insistentemente descrito refere-se antes a um neuroticismo de contraponto com estabilidade emocional e comportamento adaptativo; refere-se pois a traço de comportamento potencialmente inadequado [17] que incorpora de modo inespecífico aspectos tão diversos como ansiedade, hostilidade, depressão, autoscopia, impulsividade e vulnerabilidade emocional em geral. E essa é uma das suas lacunas. Mais além ainda, e em relação a estes dois factores, o efeito operado por ansiolíticos e álcool sobre os comportamentos que os caracterizam têm sido atribuídos a uma provável falta de correspondência entre tais factores e o seu hipotético substracto biológico [18], que deverão partilhar posto que o mesmo fármaco reduz as pontuações em ambas as escalas. Por outro lado, no que se refere ao terceiro factor, as interpretações têm sido muito mais díspares: onde os Eysenck [11] descrevem obstinação (toughmindedness), Tellegen [13] fala de constrangimento (constraint), e Costa e McCrae [12] de abertura à experiência. Num outro modelo de cinco factores, ainda sujeito a debate, fala-se ainda em consciencialização e em disposição prazenteira [12, 19]; aspectos há com interesse para a psicopatologia, no entanto, que escapam completamente, seja o caso da autonomia ou de aspectos relacionados com a maturidade do self. E contudo os estudos de âmbito linguístico tem apontado para a existência de sete dimensões, entra as quais se incluirão duas valências relacionadas com o autoconceito: respectivamente positivo/bom e negativo/mau.

Onde se supõe que terão falhado estes modelos, pelo menos em parte, é no facto de ao serem formulados não terem tomado em consideração os seus determinantes quer a nível do substracto biológico quer sociogenético. E sobre esta premissa pretendem Cloninger e colaboradores fazer repousar a conceptualização do seu modelo psicobiológico [20, 21], tentando deste modo reconciliar as abordagens dimensional e categorial. E é exactamente deste modelo que pretendemos em parte ir ao encontro na orientação do requerido enquadramento teórico utilizado no presente estudo, pese embora sem almejar a pretensão de uma teoria unificada, até porque só serão abordados alguns aspectos que gravitam em torno do humor. No entanto o que está implícito é que a estrutura temperamental subjacente aos traços de nível psicopatológico entre inibição e exaltação em nada difere da responsável pela saúde mental, antes se devendo procurar os seus determinantes num outro plano [22]. Ou seja, dependência de recompensa caracteriza os sentimentais, dependentes, de locus de controle [23] de tipo "outros poderosos" [24]; a atracção pela novidade caracteriza o comportamento exploratório, a decisão impulsiva, atribuição extravagante de reforço e baixo limiar de tolerância à frustração; finalmente o evitamento de situações presumivelmente danosas/punitivas refere-se antes a inibição e retraimento, associando-se a preocupações e pessimismo, e a comportamentos de passividade e evitamento como receio pelo incerto / desconhecido, timidez face a estranhos e fatigabilidade / astenia. E assim se pressupõem os clusters de personalidade A ("estranhos", desconfiados), B ("imaturos") e C ("estruturados", evitantes) como aqueles em que se podem identificar indivíduos respectivamente com baixa dependência de recompensa, elevada atracção pela novidade e grande evitamento de situações danosas. Por outro lado também se aceita desde logo que a expressão de manifestações psicopatológicas se vai prender antes com aspectos relacionados com o autoconceito, isto é, com respostas caracterialmente pendentes. Estas podendo ser de tipo individual, gregário, ou transcendente, irão pois, se de valor baixo no caso das duas primeiras, determinar o comportamento maladaptativo [22]. De facto, aqui repousa a força de vontade e a capacidade de controle, elementos essenciais para uma boa adaptação. Ou seja, a maturidade embebe-se de uma autoestima capaz de admitir erros e de se aceitar como é, encontrando significado para a vida, tomando iniciativas face a desafios, e aceitando sacrificar a gratificação imediata perante determinados objectivos. Na sua contraparte de imaturidade, as características ditas infantis do borderline com baixa autoestima levam-no a culpabilizar os outros pelos seus problemas, revelando os seus sentimentos de inferioridade na insegurança da sua identidade, na dependência, e frequentemente na hiper-reactividade e parcimónia de recursos. E se tais características se dizem infantis, de facto é por força de expressão, uma vez que a criança encorajada na sua autonomia e segura da afeição parental revela desde cedo a sua autoestima positiva.

Por outro lado, se referimos acima o locus de controle de tipo "outros poderosos" relativamente à dependência de recompensa/necessidade de aprovação, também poderíamos ter referido o evitamento de dano a propósito do isolamento e da depressão. Mas se desse prisma os loci de controle surgem como uma emanação descritiva de tendências comportamentais ligadas ao temperamento, parece-nos de realçar no entanto a relação entre a internalidade e um enfrentar dos problemas mais construtivo e responsável, sendo que os mais apáticos e que se distanciam, tendem a culpabilizar os outros e as circunstâncias [25]. Ou seja, este outro aspecto mais relacionado com a assunção das reponsabilidades versus alijar de culpas, aparece claramente relacionado com o carácter e a autoestima. Também a este nível se inserem a autoconfiança e o estabelecimento de objectivos. Estes, inclusive, mais do que a satisfação dos impulsos ou o evitamento de conflitos, podem constituir-se no grande élan motivador das pessoas amadurecidas [26].Topo

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Objectivos

Em trabalho por nós efectuado anteriormente [24] referíamos nos prolegómenos que "é frequente fazer-se a invocação etimológica do tradutore / traditore para a razão de que sempre que há uma tradução há uma traição. E com efeito, no mundo da avaliação psicométrica será até talvez mais correcto usar o termo adaptação do que tradução, uma vez que nesta estão sempre implícitas transformações mais ou menos importantes de ordem cultural/semântica. Mas mais além, questões há que podem perder por completo as suas características de validade quando desinseridas do contexto cultural em que são efectuadas." E acrescentávamos mais adiante que "é uma problemática por demais descrita e mesmo um dos argumentos mais vezes referenciados quando se trata da aferição de questionários e inventários de personalidade. Aqui reside a necessidade de repetir de algum modo os procedimentos do autor em relação à escala original, qualquer que ela seja, desde que esta se destine a ser utilizada, traduzida ou não, num contexto cultural diferente. Nessa reprodutibilidade assenta o fazer ciência."

E assim é que, à semelhança do supracitado trabalho anterior [24], se deve entender a presente proposta de análise estrutural do Multiple Affect Adjective Check List - Revised [27], e de modo tanto mais pertinente quanto é exactamente no contexto das séries sinonímicas de qualificadores que a problemática de índole semântica se torna da maior acuidade. O que se pretende pois, não é inferir conclusões para a população em geral, mas antes fazer uma consideração descritiva da estrutura do inventário capaz de permitir tecer algumas considerações sobre as suas propriedades psicométricas e indiciar formas válidas para uso local. Como dizem desde logo os autores, dada a indispensável replicabilidade, a tarefa de validação é interminável [27]. No entanto a atitude sempre foi conservadora, no sentido de tentar ir de encontro às propostas originais, único meio de conseguir fazer ulteriores comparações. Ora os autores começaram por utilizar o método empírico para a selecção dos itens. A escala de ansiedade, por exemplo, foi construída a partir de itens significativamente mais ou menos assinalados por indivíduos ansiosos do que pelos do grupo de controle [28]; e de igual modo se lhes seguiu a depressão e a hostilidade [29]. Mas se por um lado se evitou a sobreposição de itens entre as escalas, também por outro, nesses primeiros estudos, não foi dada atenção suficiente à estrutura factorial dos itens, vindo a justificar assim o desenvolvimento ulterior de escalas mais breves. E é exactamente no desenvolvimento deste precursor que assenta o presente trabalho.

Pretendemos pois chegar à estrutura íntima do inventário proposto e traduzi-la tanto quanto possível, no contexto de determinado enquadramento teórico, em escalas com validade de conteúdo, internamente coerentes, e com a capacidade discriminativa possível para escalas que se pretende à partida destacar de factores comuns extraídos a partir duma natureza humoral que, entre afectos ditos positivos e negativos, se presume bipolar. Já os determinantes dessas diferentes expressões patoplásticas representadas pelas subescalas, alegadamente ao sofrer influências de natureza caracterial, escapam ao âmbito do presente estudo. No entanto o que se supõe é que, primo, haja uma expressão positiva e negativa para a atracção pela novidade, assim renascida como espírito de aventura ou antes agressividade e hostilidade. Secundo, que haja igualmente uma reserva de afectos positivos no sentimentalismo dos dependentes, que pode assumir a cor da reacção depressiva a cada perda real ou fantasiada. Esta reacção traduz-se numa perda de autoestima, depositada em terceiros, presumindo-se mais ou menos autolimitada apesar da possível exuberância; e até por isso mesmo dado o seu efeito catártico e promotor de novas dependências. Tertio e por último, concebemos ainda o retraimento e astenia do evitamento de dano como um baixo limiar ansiógeno que, não sendo abertamente disfórico, se incorporará nos afectos negativos sobretudo porque composto de um misto de ansiedade, esse medo sem rosto, e ruminações de amargura e mágoa. No entanto também podendo dar lugar à depressão reactiva, naturalmente. Esta pressupõe-se pois como um acentuar depressivo que se enxerta num fundo permanente de tonalidade idêntica, seja por abaixamento da autoestima não mais consequência mas antes causa.Topo

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População e Métodos

O grupo de 198 indivíduos que configura a amostra, 120 do sexo feminino e 78 do masculino, foi recrutado entre estudantes universitários do curso médico, constituindo a globalidade dos alunos que então compareceram às aulas de frequência obrigatória na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, e designadamente da cadeira de Psicologia Médica leccionada no 4º ano do curso no ano lectivo de 1993/94 e no de 1994/95, bem como à de Psicologia Médica Básica, leccionada no 2º ano de 1993/94.

Após breve introdução de que constava uma explicação sumária da finalidade do estudo e em que era garantida a confidencialidade dos dados assim obtidos, era-lhes pedida colaboração no sentido de preencherem o inventário/rol de adjectivos em estudo. Também nessa altura era desde logo realçada a vertente de traço pretendida, isto é, era referido de viva voz o texto das instruções em relação à característica a ter presente aquando do preenchimento: visava-se o modo de ser habitual, mesmo que esporádico, e não o epifenómeno referido ao episódio fugaz de um momento único.

O Multiple Affect Adjective Check List (MAACL), e designadamente as suas escalas de traço, tem sido imensamente utilizado desde há 30 anos, altura em que foi inicialmente publicado [27]. Dentre as largas centenas de referências que se lhe encontram, contam-se muitos estudos que o utilizam como um indicador sensível de stress, seja o induzido por ameaça do ego, frustração, fracasso, exames, entrevistas, sobre-estimulação, privação sensorial, filmes, ameaça de dor, desespero aprendido, cirurgia, gravidez e parto, etc. [27]. É pois um instrumento com provas dadas de sensibilidade e validade. No entanto algumas questões se têm levantado quanto à sua natureza estrutural, questões essas que se traduzem em termos de capacidade discriminante das escalas descritas e suas propriedades psicométricas. As respostas são registadas numa única folha(*), assinalando com uma cruz [X] numa quadrícula à frente de cada uma das 132 palavras de que consta a lista, as que identifiquem um modo de sentir próprio mais ou menos habitual. O preenchimento fica concluído, em média, ao fim de 5.9 minutos.

A análise factorial nasce como um método de investigar a estrutura subjacente de uma matriz de correlações, podendo ser particularmente útil na análise de itens em alternativa ao índice de discriminação, embora retenha sempre um forte componente subjectivo em relação à sua interpretação; o que não deixa de ser uma vantagem quando convenientemente usado. Visando uma estrutura de interpretação simples, procedeu-se inicialmente a uma análise exploratória através do estudo da matriz de correlações obtida por um método factorial hierárquico capaz de escapar às restrições impostas pela ortogonalidade e dar conta dos factores oblíquos. Pretendeu-se deste modo verificar qual a estrutura interna do rol de adjectivos, através da análise dos clusters obtidos, e só então a partir daí passar ao estudo das propriedades psicométricas destas escalas em contraponto com as originalmente propostas. O pressuposto de que se partiu aqui foi o do conhecimento de que os estudos do humor em regra têm detectado duas vertentes independentes. E essa foi a primeira análise efectuada.

Conforme propõem os autores, procedeu-se à análise factorial pelo método dos factores principais, dito do eixo principal, com rotação varimax normalizada, no sentido de encontrar uma solução capaz de dar um mínimo de garantias. Por um lado, na medida em que escalas mais breves, evitando a sobreposição de itens, podem aumentar a sua capacidade discriminativa; por outro lado, porque através da análise de conteúdo das escalas obtidas, depois de devidamente avaliadas em termos psicométricos, se podem retirar mais algumas conclusões em relação à transmutação semântica observada em relação às propostas originais.

Pretendemos assim reconstruir as escalas de modo a acentuar dentro do possível o seu poder discriminante, passando depois a efectuar a respectiva análise de item através do alfa de Cronbach para avaliar a sua fiabilidade, e usando depois o método de split-half de questões alternadas para abordar a fiabilidade em termos de coerência interna. A este propósito procedeu-se igualmente ao estudo das correlações médias inter-item e entre as escalas. Finalmente, para analisar as implicações de excluir determinados itens do questionário, determinou-se o alfa de Cronbach, as correlações médias inter-item e item-total, a regressão múltipla item-escala (Rmult2) e a coerência interna das escalas resultantes dessas supressões.

Por outro lado passaram a considerar-se as consequências determinadas a nível das duas escalas globais das grandes dimensões do humor pelo processo de depuração das subescalas. Com efeito dado que este processo pretende isolar clusters evitando sobreposições entre eles, ao eliminar os itens responsáveis por tal sobreposição vai-se reduzir necessariamente a validade e sobretudo a coerência interna da dimensão referente à nuvem de origem na medida em que esta seja unicamente definida pelo somatório das subescalas a que deu origem. Para o obviar utilizou-se o expediente de utilizar, além dos referidos itens resultantes dos somatórios das subescalas, todos aqueles que, empiricamente validados pelos autores do estudo seminal, se revelassem com algum significado na construção da solução bifactorial. Isto é, retendo todos os que forem excluídos unicamente por serem partilhados por mais do que uma das subescalas, e que não sejam de excluir à partida por qualquer outra razão grosseira de tipo passagem transcultural de afecto positivo para negativo ou vice-versa, ou ainda total irrelevância no contexto das duas grandes dimensões afectivas referidas.

Julgamos assim ir de encontro aos pressupostos do modelo teórico na medida em que pretendemos obter índices humorais genéricos, sugestivos de determinado tipo de intervenção, mas mais além poder ainda caracterizar esta ou aquela modalidade expressiva, caso possa ser discriminada com algum significado.

Para efectuar o processamento dos dados recorreu-se ao package de análise estatística Statistica for Windows 4.0 B (Statsoft Inc, 1993).Topo

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Resultados

QUADRO 1.
Descrição geral da amostra

IDADE (Média ± DP)

(N=198)

M (n=78)

F (n=120)

22.94 ± 6.73

23.55 ± 6.2

22.55 ± 7.08

O grupo de 198 indivíduos utilizados no presente estudo era formado por 78 homens e 120 mulheres - Quadro 1 - sem diferenças de idade significativas, reflectindo a assimetria entre sexos, bem como a incidência num grupo etário particular, as características da população estudantil universitária que lhe deu origem.

 

QUADRO 2.a. Análise factorial (N=198)
Solução de 2 factores (com rotação varimax normalizada)
Grupos de adjectivos cujas correlações com os factores (loadings) determinam os factores oblíquos para a análise hierárquica

Factor 1
Afectos negativos

Factor original

Factor 2
Afectos positivos

Factor original

Sem peso mais significativo em qualquer dos dois factores

Factor original

A4 - Receoso

A

A1 - Activo

SS

(A20 - Cauteloso)

 

A5 - Agitado

 

A2 - Ousado

SS

(A41 - Exasperado)

H

A7 - Agressivo

SS

A3 - Afeiçoado

PA

(A69 - Ciumento)

 

A9 - Só

D

A6 - Bem disposto

 

(A81 - Brando)

SS -

A12 - Zangado

H

A8 - Vivo

 

A84 - Obsequiador

 

A13 - Aborrecido

H

A10 - Amável

 

(A94 - Sossegado)

SS -

A14 - Horroroso

 

A11 - Entretido

 

(A97 - Rude)

 

A15 - Acanhado

 

(A19 - Calmo)

 

(A106 - Teimoso, obstinado)

 

A16 - Amargurado

 

A21 - Animado

 

(A125 - Vexado)

 

A17 - Em baixo, abatido

 

A22 - Limpo

     

A18 - Enfadado, entediado

SS -

A24 - Contente

     

A23 - Com razões de queixa

H

(A26 - De cabeça fria)

     

A25 - Contrariado

 

A27 - Colaborante

     

A29 - Rabugento

H

(A28 - Crítico)

H

   

(A30 - Cruel)

H

A31 - Corajoso

SS

   

A32 - Desesperado

 

A34 - Dedicado

     

(A33 - Destruído)

D

A40 - Enérgico

SS

   

A35 - Enfadonho

H

A42 - Entusiástico

SS

   

A36 - Descontente

 

A44 - Bem, perfeitamente

     

A37 - Desencorajado

D

A45 - Em forma, capaz

     

A38 - Desgostoso

H

A47 - Franco

     

A39 - Insatisfeito

 

A48 - Livre

PA

   

A43 - Apreensivo

A

A49 - Amigável, cordial

PA

   

A 46 - Abandonado

D

A52 - Vigoroso

     

A50 - Assustado

A

A53 - Gentil

     

A51 - Furioso

H

A54 - Divertido

PA

   

A55 - Melancólico

 

A56 - Bom

PA

   

(A58 - Severo, inflexível)

 

A57 - Bondoso

PA

   

A61 - Desanimado

 

A59 - Feliz

PA

   

(A62 - Hostil)

H

A60 - Saudável

     

A63 - Impaciente

A

A66 - Inspirado

     

A64 - Incomodado

H

A67 - Interessado

PA

   

A65 - Indignado

 

A70 - Jovial

PA

   

A68 - Irritado

H

A71 - Afável

     

A72 - Solitário

D

A74 - Afectuoso, carinhoso

PA

   

A73 - Perdido

D

A76 - Com sorte

     

A75 - Inferior

 

A79 - Meigo

     

(A77 - Meio tolo, marado)

H

A80 - Alegre

SS

   

A78 - Mau, malvado

H

(A88 - Paciente)

     

A82 - Desgraçado

D

A89 - Tranquilo

PA

   

A83 - Nervoso

A

A90 - Gratificado

PA

   

A85 - Ofendido

 

A91 - Agradável, encantador

PA

   

A86 - Insultado

 

A92 - Educado, cortês

PA

   

A87 - Apavorado, em pânico

A

A93 - Poderoso

     

A96 - Rejeitado

D

A95 - Despreocupado

     

A98 - Triste

D

A99 - Seguro

     

A102 - Inseguro, tremido

A

A100 - Satisfeito

PA

   

A103 - Envergonhado

 

A101 - Protegido

PA

   

[O presente quadro completa-se no seguinte]

Quanto aos resultados da solução de dois factores da análise factorial com rotação do eixo principal eles são apresentados nos quadros 2.a. e 2.b. (sua continuação). Nestes, à frente de cada adjectivo está indicado por uma inicial o factor a que pertence na proposta dos autores: A - Anxiety, D - Depression, H - Hostility, PA - Positive Affects, e SS - Sensation Seeking; neste último caso o sinal de menos a seguir indica pontuação negativa na referida escala. Os adjectivos entre parênteses (caselas a sombreado) indicam loadings inferiores 0.30

QUADRO 2.b. Análise factorial (N=198)
Solução de 2 factores (com rotação varimax normalizada)

Grupos de adjectivos cujas correlações com os factores (loadings) determinam os factores oblíquos para a análise hierárquica

Factor 1 (cont.)
Afectos negativos

Factor original

Factor 2 (cont.)
Afectos positivos

Factor original

Sem peso mais significativo...

Factor original

A109 - Sofredor

D

(A104 - Apaziguado)

     

A110 - Mal-humorado, mal disposto

 

A105 - Firme, constante

PA

   

A111 - Afundado, fracassado

D

(A107 - Explosivo)

     

A115 - Tenso

A

A108 - Forte

     

A116 - Bastante mal

 

A112 - Simpático, complacente

     

A117 - Aterrorizado

 

A113 - Dócil, submisso

SS -

   

A118 - Pensativo

 

A114 - Terno

PA

   

A119 - Tímido

A

(A121 - Compreensivo)

PA

   

A120 - Atormentado

D

A126 - Caloroso

PA

   

A122 - Infeliz

 

A127 - Sadio

PA

   

A123 - Retraído, insociável

 

A129 - Voluntarioso, decidido

     

A124 - Perturbado

 

A132 - Jovem

     

(A128 - Extravagante)

SS

       

A130 - Fatigado, cansado

         

A131 - Preocupado

A

       

Nota: Entre parênteses (caselas sombreadas) vão os adjectivos de correlação inferior a 0.30

Em relação ao número de factores a reter pelo critério de Kaiser segundo o qual um factor deve extrair pelo menos tanta variância quanto uma variável original, a ser o único a ter em linha de conta, levaria a um resultado de trinta e um factores. Por motivos desta ordem resultou a sua insuficiência, o que levou ao aparecimento de outros. Sempre algo subjectivos é certo, na medida em que a decisão fina resulta de uma última análise de conteúdo minuciosa.

É o caso do teste de sedimentação proposto por Cattell, que aqui, conforme se pretende mostrar no gráfico das variâncias extraídas por factor - Figura 1 -, nos remete para a decisão a tomar a partir do terceiro factor.

QUADRO 3. Análise factorial (N=198)
Solução de 3 factores (com rotação varimax normalizada)
Grupos de adjectivos cujas correlações com os factores (loadings) determinam os factores oblíquos para a análise hierárquica

Factor 3
Retraimento

Factor original

Factor secundário
(loadings > .3)

Factor 2
(Afectos positivos)
Itens com loadings > .3 em F1

Factor 1
(Afectos negativos)
Itens com loadings > .3 em F1

A4 - Receoso

A

 

A49 - Amigável, cordial

A9 - Só

A15 - Acanhado

   

A57 - Bondoso

A13 - Aborrecido

(A19 - Calmo)

   

A71 - Afável

A17 - Em baixo, abatido

(A20 - Cauteloso)

   

A74 - Afectuoso, carinhoso

A25 - Contrariado

A39 - Insatisfeito

 

Factor 3

A79 - Meigo

A36 - Descontente

A43 - Apreensivo

A

 

A92 - Educado, cortês

A38 - Desgostoso

A55 - Melancólico

     

A61 - Desanimado

A72 - Solitário

D

   

A98 - Triste

(A81 - Brando)

SS -

   

A102 - Inseguro, tremido

(A94 - Sossegado)

SS -

     

A103 - Envergonhado

       

A118 - Pensativo

       

A119 - Tímido

A

     

A130 - Fatigado, cansado

 

Factor 3

   

A131 - Preocupado

A

     

Nota: Entre parênteses (caselas sombreadas) vão os adjectivos de correlação inferior a 0.30

Repetimos pois a análise com retenção de três - Quadro 3 - e quatro factores, tentando chegar ao significado dos mesmos, e à sua eventual razão de ser, através da reflexão sobre o seu conteúdo. No entanto, dada a lógica da sobreposição dos factores, repetimos a análise de três factores entrando em linha de conta unicamente com os itens de peso mais significativo no contexto dos afectos negativos - Quadro 4 -. E porque nesta última solução acabamos por excluir da análise alguns itens das escalas originais, e sobretudo da escala de hostilidade, dentro do espírito da atitude conservadora supra-referenciada decidimos repetir ainda e uma vez mais esta última prova incluindo também a globalidade dos itens das escalas originalmente propostas para os afectos negativos - Quadro 5 -, resultando a inclusão de destruído (A33) na escala de depressão e de cruel (A30) e hostil (A62) na de hostilidade.

QUADRO 4. Análise factorial (N=198)
Solução de 3 factores (com rotação varimax normalizada)
Análise incidindo sobre os itens com correlações com os factores (loadings) > 0.30 na solução bifactorial

Factor 3
Hostilidade

Factor original

Factor secundário
(loadings > .3)

Factor 3 (Cont)
Hostilidade

Factor original

Factor secundário
(loadings > .3)

A7 - Agressivo

   

A86 - Insultado

   

A12 - Zangado

 

Factor 1

A87 - Apavorado, em pânico

A

 

A14 - Horroroso

   

A96 - Rejeitado

D

 

A16 - Amargurado

   

A109 - Sofredor

D

 

A32 - Desesperado

   

A110 - Mal-humorado, mal disposto

 

Factor 1

A37 - Desencorajado

 

Factor 1

A111 - Afundado, fracassado

D

 

A50 - Assustado

A

Factor 1

A116 - Bastante mal

   

A51 - Furioso

   

A117 - Aterrorizado

   

A73 - Perdido

D

 

A120 - Atormentado

D

 

A78 - Mau, malvado

   

A122 - Infeliz

   

A82 - Desgraçado

D

 

A124 - Perturbado

   

A85 - Ofendido

 

Factor 1

     

Nota: Entre parênteses (caselas sombreadas) vão os adjectivos de correlação inferior a 0.30

Nesta última linha de actuação procedemos igualmente para os afectos positivos fazendo incidir a análise sobre os itens expostos pela solução bifactorial, neles incluindo, pelas razões já aduzidas, todos os mencionados na proposta original do estudo americano - Quadro 6 -. Ressaltam sobretudo a exclusão da agressividade bem como de todos os contributos negativos para a escala de sensation seeking, e o contributo para a mesma de afectos positivos como divertido (A54), satisfeito (A100), firme, constante (A105), e caloroso (A126).

QUADRO 5. Análise factorial (N=198)
Solução de 3 factores (com rotação varimax normalizada)
Análise incidindo sobre os itens com loadings > 0.30 no factor de Afectos Negativos da solução bifactorial

Factor 1
Retraimento / ansiedade

Factor original

Factor secundário
(loadings > .3)

Factor 2
Depressão

Factor original

Factor secundário
(loadings > .3)

A4 - Receoso

A

 

A32 - Desesperado

   

A9 - Só

D

 

A50 - Assustado

A

 

A15 - Acanhado

   

A73 - Perdido

D

 

A18 - Enfadado, entediado

S -

Factor 3

A78 - Mau, malvado

H

 

A35 - Enfadonho

H

 

A82 - Desgraçado

D

 

A37 - Desencorajado

D

Factores 2 e 3

A86 - Insultado

 

Factor 3

A39 - Insatisfeito

 

Factor 3

A87 - Apavorado, em pânico

A

 

A43 - Apreensivo

A

Factor 3

A96 - Rejeitado

D

 

(A46 - Abandonado)

D

 

A109 - Sofredor

D

 

A55 - Melancólico

   

A111 - Afundado, fracassado

D

 

A61 - Desanimado

 

Factor 2

A117 - Aterrorizado

   

A72 - Solitário

 

D

A120 - Atormentado

D

 

A75 - Inferior

   

A122 - Infeliz

 

Factor 1

A98 - Triste

D

Factor 3

A124 - Perturbado

 

Factor 3

A102 - Inseguro, tremido

A

 

Factor 3
Hostilidade

Factor original

Factor secundário
(loadings > .3)

A103 - Envergonhado

   

A118 - Pensativo

   

A119 - Tímido

A

 

A5 - Agitado

   

A123 - Retraído, insociável

   

A7 - Agressivo

SS

 

A130 - Fatigado, cansado

   

A12 - Zangado

H

 

A131 - Preocupado

A

 

A13 - Aborrecido

H

 

Sem peso mais significativo num dos factores

Factor original

Factor secundário
(loadings > .3)

A16 - Amargurado

 

Factor 2

A23 - Com razões de queixa

H

 

A25 - Contrariado

 

Factor 1

A17 - Em baixo, abatido

 

Factores 1 e 3

A29 - Rabugento

H

 

A 38 - Desgostoso

H

Factores 1, 2 e 3

A36 - Descontente

 

Factor 1

A65 - Indignado

 

Factores 1, 2 e 3

A63 - Impaciente

A

 

A51 - Furioso

 

Factores 2 e 3

A64 - Incomodado

H

 

A83 - Nervoso

A

Factores 1 e 3

A68 - Irritado

H

 

A115 - Tenso

A

Factores 1 e 3

A85 - Ofendido

 

Factor 2

A116 - Bastante Mal

 

Factores 2 e 3

A110 - Mal-humorado, mal disposto

 

Factores 1 e 2

Nota: Entre parênteses (caselas sombreadas) vão os adjectivos de correlação inferior a 0.30

Entrando em linha de conta com as considerações anteriormente obtidas, passou-se então a efectuar a análise de itens, começando por analisar os sugeridos para cada um dos factores, tanto quanto possível sem peso significativo nos outros, e isto respectivamente para cada um dos três referentes aos afectos negativos, bem como dos dois referentes a afectos positivos e sensation seeking. Tendo ainda em mente a referida atitude conservadora, fomos incluir ainda e uma vez mais em cada uma das escalas, os itens das propostas originais não contemplados, porém obedecendo ao mesmo princípio de não sobreposição dado ser esse desde logo um contributo da análise factorial para o poder discriminativo da escala. Os resultados são apresentados nos Quadros 7 a 11, referindo-se respectivamente cada um deles sequencialmente a uma das subescalas. Ainda nestes quadros são também apresentados os resultados dos estudos de fiabilidade efectuados respectivamente para cada uma das referidas subescalas a serem propostas.

QUADRO 6. Análise factorial (N=198)
Solução de 2 factores (com rotação varimax normalizada)
Análise incidindo sobre os itens com loadings > 0.30 no factor de Afectos Positivos da solução bifactorial
(incluídos tos os itens das escalas originais que não obtiveram tal peso)

Factor 1
Afectos positivos

F. original / factor secundário

Factor 2
Autoconfiança /
/ Sensation seeking

F. original / factor secundário

Sem peso mais significativo em qualquer dos dois factores

F. original / factor secundário

A3 - Afeiçoado

PA

A1 - Activo

SS

(A18 - Enfadado, entediado)

SS -

A10 - Amável

 

A2 - Ousado

SS

(A76 - Com sorte)

F2

A11 - Entretido

F2

A6 - Bem disposto

 

A127 - Sadio

PA / F2

A19 - Calmo

 

(A7 - Agressivo)

SS

   

A22 - Limpo

 

A8 - Vivo

     

(A26 - De cabeça fria)

 

A21 - Animado

     

A27 - Colaborante

 

A24 - Contente

F1

   

A34 - Dedicado

 

(A28 - Crítico)

H

   

A44 - Bem, perfeitamente

F2

A31 - Corajoso

SS

   

A47 - Franco

 

A40 - Enérgico

SS

   

A48 - Livre

PA / F2

A42 - Entusiástico

SS

   

A49 - Amigável, cordial

PA

A45 - Em forma, capaz

     

A53 - Gentil

 

A52 - Vigoroso

     

A56 - Bom

PA

A54 - Divertido

PA

   

A57 - Bondoso

PA

A59 - Feliz

PA / F1

   

A60 - Saudável

F2

A66 - Inspirado

     

A67 - Interessado

PA

A80 - Alegre

SS / F1

   

A70 - Jovial

PA / F2

A93 - Poderoso

     

A71 - Afável

 

A95 - Despreocupado

     

A74 - Afectuoso, carinhoso

PA

A99 - Seguro

     

A79 - Meigo

 

A100 - Satisfeito

PA / F1

   

A81 - Brando

SS -

(A101 - Protegido)

PA

   

A88 - Paciente

 

A105 - Firme, constante

PA

   

A89 - Tranquilo

PA

A107 - Explosivo

     

A90 - Gratificado

PA

A108 - Forte

     

A91 - Agradável, encantador

PA / F2

A126 - Caloroso

PA / F1

   

A92 - Educado, cortês

PA

A128 - Extravagante

SS

   

A94 - Sossegado

SS -

A129 - Voluntarioso, decidido

     

(A104 - Apaziguado)

 

A132 - Jovem

     

A112 - Simpático, complacente

         

A113 - Dócil, submisso

SS -

       

A114 - Terno

PA

       

A121 - Compreensivo

PA

       
Notas:
1 - As caselas sombreadas indicam os itens que não pertencem ou não têm poder discriminativo na respectiva escala
2 - Entre parênteses vão os itens com loadings inferiores a 0.30 no respectivo factor
3 - Se houver loadings superiores a 0.30 noutro factor dito secundário, também este vai indicado à frente

Apresenta-se ainda - Quadro 12 - lado a lado o estudo da fiabilidade das escalas através dos elementos da análise de itens obtidos respectivamente para as escalas originais e em contraponto com os obtidos para as aqui propostas. De realçar o facto de as escalas globais de afectos positivos, por um lado, e disforia por outro, incluírem conforme referido, não só os itens em somatório das subescalas componentes, como ainda todos aqueles que, oriundos das propostas originais, assumiram loadings significativas num dos respectivos factores da primeira abordagem através duma solução bifactorial. E passando à sua nomeação, são eles, para os afectos negativos: só (A9), com razões de queixa (A23), enfadonho (A35), desencorajado (A37), apreensivo (A43), abandonado (A46), assustado (A50), furioso (A51), impaciente (A63), perdido (A73), mau, malvado (A78), nervoso (A83), triste (A98), sofredor (A109), tenso (A115) e atormentado (A120). E para os afectos positivos em sentido lato: activo (A1), livre (A48), feliz (A59), jovial (A70), alegre (A80), tranquilo (A89), gratificado (A90), agradável, encantador (A91), satisfeito (A100), protegido (A101), firme, constante (A105), caloroso (A126) e sadio (A127).

QUADRO 7. Composição das escalas (N=198)
Contraponto com as propostas originais

Afectos negativos

Ansiedade
F1: Retraimento

Fiabilidade: a = 0.764
Corr. média inter-item = 0.296

Itens no factor original
(10 itens)

Outro factor

Itens propostos
(8 itens)

F original
// outro

Loadings

Corr Item-Total

Rmult2

a
se excluída

A4 - Receoso

 

A4 - Receoso

A

0.45

0.457

0.27

0.740

A43 - Apreensivo

 

A15 - Acanhado

 

0.64

0.517

0.35

0.728

(A50 - Assustado)

F2

A72 - Solitário

 

0.39

0.369

0.18

0.754

A63 - Impaciente

F3

A102 - Inseguro, tremido

A

0.54

0.506

0.29

0.731

A83 - Nervoso

 

A103 - Envergonhado

 

0.62

0.543

0.34

0.723

(A87 - Apavorado, em pânico)

F2

A119 - Tímido

A

0.62

0.502

0.33

0.731

A102 - Inseguro, tremido

 

A123 - Retraído, insociável

 

0.47

0.446

0.22

0.746

A115 - Tenso

F3

A131 - Preocupado

A

0.42

0.392

0.19

0.753

A119 - Tímido

             

A131 - Preocupado

             
Notas:
1 - As caselas sombreadas indicam os itens que se verifica não pertencerem ou sem poder discriminativo na respectiva escala
2 - Entre parênteses vão os itens com loadings inferiores a 0.30; à frente vai o factor primário (se o houver)
3 - Se houver loadings superiores a 0.30 noutro factor dito secundário, também este vai indicado à frente

Conclui-se finalmente com a análise correlacional de que se apresenta em continuação - Quadro 13 - a matriz rectangular de correlações entre as escalas originais e as propostas.Topo

line

Discussão

Da solução de dois factores - Quadros 2.a. e b. - resulta desde logo, até pela rotação operada, que na nossa amostra não se consideram adjectivos cujo contributo significativo para qualquer das escalas seja de tipo negativo. O que até certo ponto era de esperar, além do mais, na medida em que a existência da escala de sensation seeking, única originalmente referida com um contributo desse tipo, resultava aqui em algo de artificioso. Com efeito os autores referem a sua coerência interna problemática na forma do inventário destinada a avaliar o traço, decidindo mantê-la a partir da análise factorial da forma de estado para adultos tendo apenas em vista possíveis comparações entre traço e estado.

Quanto aos dois factores rodados eles referem-se grosso modo, e conforme se esperava, a afectos positivos (F2) e negativos (F1). De referir que os autores por um lado incluem a de sensation seeking nos positivos, e por outro a ansiedade, a depressão e a hostilidade na disforia. Ora o que se verifica é que se podem constatar desde logo algumas discrepâncias que, conforme prevíramos, julgamos poderem ser atribuídas à diferenciação cultural/semântica entre as populações estudadas. Assim, por exemplo, aspectos há das escalas originais que aparecem aqui sem peso significativo: cruel (A30), marado (A77), exasperado (A41) e hostil (A62), para a de hostilidade; destruído (A33) quanto à de depressão; compreensivo (A121) na de afectos positivos em sentido restrito; brando (A81) e sossegado (A94) negativamente na de sensation seeking. Mas de realçar tanto mais são as que ora assumem uma conotação completamente diversa da original. E é o que acontece com o crítico (A28), que sem peso significativo é encarado positivamente e não como uma manifestação hostil, ou da de sensation seeking, com os aqui encarados negativamente agressivo (A7) e extravagante (A128), embora este sem peso significativo. Por outro lado, ainda em relação a esta última escala, dócil, submisso (A113) contribui positivamente para os afectos positivos, e de igual modo enfadado, entediado (A18) para os negativos.

QUADRO 8. Composição das escalas (N=198)
Contraponto com as propostas originais

Afectos negativos

Depressão
F2: Autoculpabilidade

Fiabilidade: a = 0.823
Corr. média inter-item = 0.434

Itens no factor original
(12 itens)

Outro factor

Itens propostos
(7 itens)

F original
// outro

Loadings

Corr Item-Total

Rmult2

a
se excluída

(A9 - Só)

F1

A32 - Desesperado

 

0.65

0.625

0.43

0.791

A33 - Destruído

 

A33 - Destruído

D

0.49

0.411

0.35

0.821

A37 - Desencorajado

F1, F2

A82 - Desgraçado

D

0.58

0.512

0.35

0.807

(A46 - Abandonado)

F1, F2, F3

A87 - Apavorado, em pânico

A

0.88

0.805

0.71

0.772

(A72 - Solitário)

F1

A96 - Rejeitado

D

0.60

0.581

0.41

0.801

A73 - Perdido

 

A111 - Afundado, fracassado

D

0.60

0.564

0.36

0.799

A82 - Desgraçado

 

A117 - Aterrorizado

 

0.69

0.607

0.52

0.797

A96 - Rejeitado

             

(A98 - Triste)

F1, F3

           

A109 - Sofredor

             

A111 - Afundado, fracassado

             

A120 - Atormentado

F1

           
Notas:
1 - As caselas sombreadas indicam os itens que se verifica não pertencerem ou sem poder discriminativo na respectiva escala
2 - Entre parênteses vão os itens com loadings inferiores a 0.30; à frente vai o factor primário (se o houver)
3 - Se houver loadings superiores a 0.30 noutro factor dito secundário, também este vai indicado à frente

Ao efectuarmos uma análise com retenção de três factores, além dos factores anteriores, vimos surgir à custa dos afectos negativos um novo factor - Quadro 3 -, provavelmente relacionado com insegurança e baixa autoestima, e que de momento, seja porque não traduz uma expressão abertamente disfórica, mas antes um potencial de fragilidade, seja pelas implicações em termos de inter-relação, passamos a designar de retraimento: receoso (A4), acanhado (A15), apreensivo (A43), melancólico (A55), solitário (A72), envergonhado (A103), pensativo (118), tímido (A119) e preocupado (131), são os seus itens mais significativos; inclui ainda, mas agora marginalmente (loadings < 0.30), calmo (A19), cauteloso (A20), brando (A81) e sossegado. Provavelmente de expressão determinada pela autoestima, como dissemos, este factor de retraimento dispõe no entanto de um potencial de afectos positivos, com os quais partilha de algum significado: amigável, cordial (A49), bondoso (A57), afável (A71), afectuoso, carinhoso (A74), meigo (A79) e educado, cortês (A92). E de igual modo em relação aos negativos: só (A9), aborrecido (A13), em baixo, abatido (A17), contrariado (A25), descontente (A36), desgostoso (A38), insatisfeito (A39), desanimado (A61), triste (A98), inseguro, tremido (A102), e fatigado, cansado (A130). Se algum cunho disfórico existe, ele deve-se sobretudo a um fundo inerente de ansiedade: receoso, apreensivo, inseguro, tímido, preocupado.

Se contudo retivéssemos quatro factores, um deles agruparia brando, paciente, sossegado, explosivo e extravagante, e passaríamos a ter, além de um factor genérico de afectos positivos, dois de tipo disfórico: ansiedade / hostilidade e depressão. O que vai de encontro aos valores das correlações obtidas entre as escalas propostas conforme apresentados mais adiante. Por outro lado verifica-se aqui que na ansiedade / hostilidade não se incluem assustado (A50) nem apavorado, em pânico (A87), que migram para a depressão; e na depressão, por seu turno, não se incluem só (A9), solitário (A72) ou triste (A98) antes incluídos no anterior.

QUADRO 9. Composição das escalas (N=198)
Contraponto com as propostas originais

Afectos negativos

Hostilidade
F3: Hetero-agressividade

Fiabilidade: a = 0.805
Corr. média inter-item = 0.287

Itens no factor original
(15 itens)

Outro factor

Itens propostos
(11 itens)

F original
// outro

Loadings

Corr Item-Total

Rmult2

a
se excluída

A12 - Zangado

 

A5 - Agitado

 

0.34

0.307

0.13

0.812

A13 - Aborrecido

 

A7 - Agressivo

SS

0.38

0.368

0.17

0.798

A23 - Com razões de queixa

 

A12 - Zangado

H

0.68

0.641

0.47

0.773

(A28 - Crítico)

 

A13 - Aborrecido

H

0.57

0.532

0.35

0.783

A29 - Rabugento

 

A25 - Contrariado

 

0.53

0.514

0.38

0.784

(A30 - Cruel)

 

A29 - Rabugento

H

0.46

0.432

0.24

0.794

(A35 - Enfadonho)

F1

A38 - Desgostoso

H

0.56

0.543

0.40

0.784

A38 - Desgostoso

F1, F2, F3

A62 - Hostil

H

0.35

0.281

0.12

0.804

(A41 - Exasperado)

 

A64 - Incomodado

H

0.50

0.471

0.35

0.789

A51 - Furioso

F2, F3

A68 - Irritado

H

0.67

0.629

0.49

0.771

A62 - Hostil

 

A85 - Ofendido

 

0.52

0.502

0.40

0.787

A64 - Incomodado

F1, F3

           

A68 - Irritado

F1

           

(A77 - Meio-tolo, marado)

             

(A78 - Mau, malvado)

F2

           
Notas:
1 - As caselas sombreadas indicam os itens que se verifica não pertencerem ou sem poder discriminativo na respectiva escala
2 - Entre parênteses vão os itens com loadings inferiores a 0.30; à frente vai o factor primário (se o houver)
3 - Se houver loadings superiores a 0.30 noutro factor dito secundário, também este vai indicado à frente

No entanto, ao fazer incidir esta análise com retenção de três factores somente sobre aqueles itens que na anterior solução bifactorial se revelaram com algum significado (loadings > 0.30), vamos obter um terceiro factor completamente diverso - Quadro 4 -, e desta feita de teor francamente disfórico: agressivo (A7), horroroso (A14), amargurado (A16), desesperado (A32), furioso (A51), perdido (A73), mau, malvado (A78), desgraçado (A82), insultado (A86), apavorado, em pânico (A87), rejeitado (A96), sofredor (A109), afundado, fracassado (A111), bastante mal (A116), aterrorizado (A117), atormentado (A120), infeliz (A122), e perturbado (A124). Além disso ainda partilha os seguintes itens com o pool dos restantes afectos negativos: zangado (A12), desencorajado (A37), assustado (A50), ofendido (A85), e mal-humorado, mal disposto (A110). Este factor sim que, entre baixa autoestima e agitação, pode ser encarado como de hostilidade. Pese embora os sentimentos de culpa / depressão (perdido, desgraçado, rejeitado, sofredor, fracassado, atormentado), é um factor não isento de alguma ansiedade (apavorado, assustado). De realçar aqui uma vez mais que no nosso contexto agressividade é tomada como componente deste factor de hostilidade, e não mais como um afecto positivo de sensation seeking.

QUADRO 10. Composição das escalas (N=198)
Contraponto com as propostas originais

Afectos positivos e Sensation seeking

Afectos positivos
F1: Afectos positivos

Fiabilidade: a = 0.88
Corr. média inter-item = 0.295

Itens no factor original
(21 itens)

Outro factor

Itens propostos
(18 itens)

Factor original

Loadings

Corr Item-Total

Rmult2

a
se excluída

A3 - Afeiçoado

 

A3 - Afeiçoado

PA

0.53

0.510

0.38

0.876

A48 - Livre

F2

A10 - Amável

 

0.60

0.578

0.41

0.874

A49 - Amigável, cordial

 

A22 - Limpo

 

0.41

0.414

0.23

0.879

A54 - Divertido

F2

A27 - Colaborante

 

0.39

0.421

0.27

0.879

A56 - Bom

 

A34 - Dedicado

 

0.42

0.419

0.26

0.879

A57 - Bondoso

 

A47 - Franco

 

0.43

0.422

0.25

0.879

A59 - Feliz

F2

A49 - Amigável, cordial

PA

0.53

0.509

0.33

0.876

A67 - Interessado

 

A53 - Gentil

 

0.61

0.614

0.43

0.872

A70 - Jovial

F2

A56 - Bom

PA

0.45

0.474

0.32

0.878

A74 - Afectuoso, carinhoso

 

A57 - Bondoso

PA

0.53

0.510

0.33

0.876

A89 - Tranquilo

 

A67 - Interessado

PA

0.44

0.457

0.29

0.878

A90 - Gratificado

 

A71 - Afável

 

0.64

0.604

0.43

0.873

A91 - Agradável, encantador

F2

A74 - Afectuoso, carinhoso

PA

0.61

0.593

0.43

0.873

A92 - Educado, cortês

 

A79 - Meigo

 

0.64

0.621

0.50

0.872

A100 - Satisfeito

F2

A92 - Educado, cortês

PA

0.52

0.490

0.35

0.877

(A101 - Protegido)

F2

A112 - Simpático, complacente

 

0.49

0.515

0.38

0.876

A105 - Firme, constante

F2

A113 - Dócil, submisso

SS -

0.44

0.389

0.24

0.880

A114 - Terno

 

A114 - Terno

PA

0.57

0.583

0.44

0.873

A121 - Compreensivo

             

A126 - Caloroso

F2

           

A127 - Sadio

F2

           
Notas:
1 - As caselas sombreadas indicam os itens que se verifica não pertencerem ou sem poder discriminativo na respectiva escala
2 - Entre parênteses vão os itens com loadings inferiores a 0.30; à frente vai o factor primário (se o houver)
3 - Se houver loadings superiores a 0.30 noutro factor dito secundário, também este vai indicado à frente

Quanto à tonalidade ansiosa do retraimento e depressiva da hostilidade assim avaliada, os autores advertem à partida para o facto de muitos dos itens nas subescalas terem loadings a não desprezar noutros factores que não somente os primários. Aliás, a isso atribuem as correlações entre 0.4 e 0.6 que verificam entre as escalas de afectos negativos: ansiedade, depressão e hostilidade, referindo mesmo uma correlação particularmente elevada entre ansiedade e depressão. E isto apesar do encurtamento da tríade das escalas de afectos negativos à custa de somente reter os itens que se correlacionavam de modo mais expressivo com determinada escala. No entanto por este meio os autores só conseguiram depurar e até certo ponto a escala de hostilidade [27]. Porém é de referir desde já que, da análise das correlações por nós obtidas entre as várias escalas, se confirmamos a ordem de grandeza referida pelos autores para as escalas originais (0.58, 0.59 e 0.66), também podemos desde logo referir que esses valores passam a oscilar entre 0.2 e 0.4 para as escalas conforme propostas, o que são resultados consentâneos com os desideratos. Mais além, o valor mais elevado que encontramos (0.66) refere-se às escalas originais de depressão e hostilidade e não de ansiedade e depressão conforme referido, mas passa a verificar-se entre ansiedade e hostilidade (0.37) nas escalas propostas. O que julgamos igualmente consequente à mobilização de energia versus esgotamento implícitas no modelo de depressão e hostilidade que contrapõe inibição à agitação.

QUADRO 11. Composição das escalas (N=198)
Contraponto com as propostas originais

Afectos positivos e Sensation seeking

Sensation seeking
F2: Vigor

Fiabilidade: a = 0.844
Corr. média inter-item = 0.313

Itens no factor original
(8 + 4 itens)

Outro factor

Itens propostos
(12 itens)

F original
// outro

Loadings

Corr Item-Total

Rmult2

a
se excluída

A1 - Activo

 

A2 - Ousado

SS

0.63

0.569

0.35

0.827

A2 - Ousado

 

A6 - Bem disposto

 

0.55

0.515

0.37

0.831

(A7 - Agressivo)

 

A8 - Vivo

 

0.61

0.549

0.41

0.829

A31 - Corajoso

 

A21 - Animado

 

0.59

0.543

0.34

0.829

A40 - Enérgico

 

A31 - Corajoso

SS

0.49

0.506

0.33

0.832

A42 - Entusiástico

 

A40 - Enérgico

SS

0.60

0.574

0.39

0.827

A80 - Alegre

F1

A42 - Entusiástico

SS

0.57

0.566

0.36

0.827

A128 - Extravagante

 

A45 - Em forma, capaz

 

0.44

0.445

0.23

0.837

   

A52 - Vigoroso

 

0.51

0.446

0.25

0.837

(A18 - Enfadado, entediado)

 

A54 - Divertido

PA

0.54

0.498

0.32

0.833

A81 - Brando

F1

A108 - Forte

 

0.49

0.448

0.29

0.836

A94 - Sossegado

F1

A129 - Voluntarioso, decidido

 

0.44

0.449

0.26

0.836

A113 - Dócil, submisso

F1

           
Notas:
1 - As caselas sombreadas indicam os itens que se verifica não pertencerem ou sem poder discriminativo na respectiva escala
2 - Entre parênteses vão os itens com loadings inferiores a 0.30; à frente vai o factor primário (se o houver)
3 - Se houver loadings superiores a 0.30 noutro factor dito secundário, também este vai indicado à frente

Tendo isto presente, e continuando com essa mesma lógica, conforme dissemos, fizemos depois incidir a análise unicamente sobre os itens com significado no pool dos afectos negativos conforme expostos pela solução bifactorial - Quadro 5 -. Daqui resultaram três factores: um claramente identificado com o de agitação e hostilidade (Factor 3), sendo de realçar de novo a inclusão da agressividade neste mesmo factor. Um segundo factor (Factor 1) que vai de encontro ao que anteriormente designamos como retraimento, sendo o seu principal identificador o potencial de ansiedade, e particularmente se partirmos do princípio de que a solidão pesa sobretudo a quem a não deseja, e antes se vê confinado a estar só por receio. Para o terceiro factor (Factor 2), contribuem sobretudo sentimentos que gravitam em torno da depressão, se bem que não desprovidos de ansiedade, assumindo esta aqui um cunho expressivo mais vincado (assustado, apavorado), diríamos mais abertamente disfórico, em contraponto com o potencial de expressão mais moderada, diria mesmo subliminar, assumida no anterior factor de retraimento (receoso, apreensivo, inseguro, tímido, preocupado). Aliás também de realçar é o facto de a principal diferença entre depressão e hostilidade residir sobretudo no sentido assumido pela culpa/agressividade: autodirigida no primeiro caso, heterodirigida no segundo. Quanto à repetição do processo incluindo porém todos os itens das escalas originalmente propostas, ela vem justificar conforme ficou dito, a inclusão de destruído (A33) na depressão bem assim como de cruel (A30) e hostil (A62) na hostilidade; mas outro tanto continua a não acontecer em relação a esta última escala quanto às propostas originais de crítico (A28), exasperado (A41) e meio-tolo, marado (A77). Este último porque pertenceria mais à escala de depressão e culpabilidade; o exasperado porque tem um contributo relativamente fraco (loading < 0.30) no cômputo geral do factor; e o crítico porque, como o indicia desde logo a solução de dois factores, sofre no nosso contexto, ainda que de valor relativamente moderado, uma atribuição positiva a não desprezar. A justificar este novo passo analítico estão os resultados, naturalmente, mas sobretudo a validação empírica efectuada pelos autores na construção das escalas, único pensamento condutor do empreendimento, uma vez que, como diz Kierkegaard, dada a natureza do tempo, se o futuro se constrói no presente, a verdade é que no presente apenas dispomos do passado.

QUADRO 12.
Análise de fiabilidade das escalas (N=198)

Comparação entre os valores obtidos através da análise de itens respectivamente das escalas originais e das propostas

 

Ansiedade

Depressão

Hostilidade

Disforia

 

Original
(10 it)

à

Proposta
(8 it)

Original
(12 it)

à

Proposta
(7 it)

Original
(15 it)

à

Proposta
(11 it)

Original
(37 it)

à

Proposta
(42 it)

a de Cronbach

0.76

à

0.76

0.79

à

0.82

0.72

à

0.81

0.88

à

0.91

a normalizado

0.76

à

0.77

0.79

à

0.84

0.75

à

0.81

0.89

à

0.92

Corr 1ª & 2ª metade

0.62

à

0.67

0.58

à

0.72

0.57

à

0.67

0.75

à

0.85

Atenuação corrigida

------

à

------

0.86

à

------

------

à

------

0.95

à

------

Fiabilidade split-half

0.77

à

0.80

0.73

à

0.84

0.73

à

0.80

0.86

à

0.92

Split-half de Guttman

0.76

à

0.79

0.69

à

0.78

0.72

à

0.79

0.86

à

0.92

a da primeira metade

0.63

à

0.57

0.71

à

0.72

0.59

à

0.71

0.80

à

0.85

a da segunda metade

0.57

à

0.62

0.64

à

0.67

0.52

à

0.63

0.78

à

0.82

 

Afectos positivos

Sensation seeking

Afectos positivos
& Sensation seeking

     
 

Original
(21 it)

à

Proposta
(18 it)

Original (*)
(8+4 it)

à

Proposta
(12 it)

Original (*)
(29+4 itens)

à

Proposta
(43 it)

     

a de Cronbach

0.87

à

0.88

0.74

à

0.84

0.89

à

0.93

     

a normalizado

0.87

à

0.88

0.73

à

0.84

0.88

à

0.93

     

Corr. 1ª & 2ª metade

0.76

à

0.79

0.63

à

0.71

0.83

à

0.88

     

Atenuação corrigida

0.99

à

------

------

à

0.96

------

à

------

     

Fiabilidade split-half

0.86

à

0.88

0.77

à

0.83

0.91

à

0.93

     

Split-half de Guttman

0.86

à

0.87

0.77

à

0.83

0.90

à

0.93

     

a da primeira metade

0.78

à

0.76

0.49

à

0.74

0.82

à

0.87

     

a da segunda metade

0.75

à

0.82

0.63

à

0.73

0.77

à

0.87

     

(*) Subescala de sensation seeking formada pelos adjectivos de contributo positivo

Da análise dos afectos positivos - Quadro 6 - expostos pela solução bifactorial, resultou como ficou dito a diferenciação de um factor que, indo de encontro à designação de sensation seeking proposta pelos autores, antes renasce como vigor e autoconfiança ao excluir, por um lado, a agressividade (A7) e os contributos negativos de brando (A81), sossegado (A94), dócil, submisso (A113), e enfadado, entediado (A18), e ao incluir, por outro, divertido (A54), satisfeito (A100), firme, constante (A105), e caloroso (A126). Esta colecção mais parece de facto qualificar um certo estado de espírito contrário ao retraimento, indo o conteúdo do renovado pool de afectos positivos restantes, em direcção a um contexto relacional sugestivo de sentimentalismo e dependência: afeiçoado (3), amável (A10), colaborante (A27), dedicado (A34), franco (A47), amigável, cordial (A49), gentil (A53), bom (A56), bondoso (A57), afável (A71), afectuoso, carinhoso (A74), meigo (A79), educado, cortês (A92), simpático, complacente (A112), dócil, submisso (A113), terno (A114).

Quanto ao estudo correlacional interescalas, e uma vez que ao contrário da proposta original, se conferiu uma certa autonomia às escalas globais ao transformá-las em algo mais do que o simples somatório das subescalas, as correlações entre essas mesmas subescalas e as respectivas escalas globais viram em regra o seu significado diminuir. Excepção feita para a escala de sensation seeking na medida em que esta, ao contrário das demais, tendo aumentado o seu número de itens, passou a ter uma representação mais relevante no cômputo da respectiva escala global. Também as subescalas de afectos negativos, conforme pretendido no sentido de lhes conferir autonomia e independência, viram diminuir acentuadamente as correlações mútuas conforme ficou dito acima. Outro tanto não aconteceu entre as subescalas de sensation seeking e sentimentalismo, cujo relacionamento se não alterou em relação às propostas originais; o que só por si já é uma melhoria dado uma vez mais o contributo do maior número de itens da primeira a dificultar o seu isolamento e diferenciação a partir do pool geral de afectos positivos. Além do que também o seu significado se renovou ligeiramente, incorporando no seu conteúdo, além do sentido mais energético de vigor, uma vertente comum de autoestima ora expressa em manifesta autoconfiança. Esse mesmo contributo expansivo da autoestima pode aliás ser o responsável pela dificuldade de isolamento da hostilidade em relação aos afectos positivos, mantendo-se idêntica uma correlação com algum significado (0.15 a 0.28) entre estas escalas. De novo surge agora o evidenciar da presença de alguma ansiedade (0.17), e disforia num sentido genérico (0.22) no sentimentalismo/dependência, bem como uma relação inversa (- 0.17) entre retraimento / astenia e sensation seeking / vigor, o que de algum modo reforça o seu significado.

QUADRO 13.
Matriz rectangular de correlações entre as escalas conforme propostas e as originais (N=198)

Variável

TOTAL

Ansiedade

Depressão

Hostilidade

Disforia

Afectos positivos

Sensation seeking

Afectos positivos + Sensation seeking

TOTAL

1.00

0.54 *

0.46 *

0.67 *

0.65 *

0.76 *

0.39 *

0.75 *

Retraimento

0.43 *

0.84 *

0.60 *

0.45 *

0.73 *

0.02

-0.25 *

-0.07

Depressão

0.32 *

0.37 *

0.63 *

0.41 *

0.54 *

0.02

0.07

0.04

Hostilidade

0.65 *

0.61 *

0.62 *

0.90 *

0.83 *

0.17 *

0.09

0.17 *

Disforia

0.65 *

0.87 *

0.83 *

0.83 *

0.98 *

0.10

-0.04

0.06

Sentimentalismo

0.79 *

0.25 *

0.08

0.25 *

0.23 *

0.87 *

0.30 *

0.8 *

Vigor

0.64 *

-0.06

-0.07

0.19 *

0.03

0.68 *

0.83 *

0.83 *

Afectos positivos

0.80 *

0.07

-0.03

0.21 *

0.11

0.95 *

0.59 *

0.96 *

(*) As correlações assinaladas são significativas para p < 0.05

Em relação ao efeito de aquiescência, ou seja à percentagem de respostas a um questionário de tipo "verdade", "sim" ou "concordo" independentemente do seu conteúdo, e que neste caso alternativo de um inventário é avaliado pelo número total de itens assinalados sem atender ao conteúdo, em relação a tal efeito dizíamos, verificou-se através das correlações entre as várias escalas que, no caso da amostra estudada, houve um aumento sobretudo em relação a sensation seeking, mas para os afectos positivos de uma maneira geral bem como para a hostilidade, outro tanto não se passando para a ansiedade e depressão, alvo de uma menor aquiescência, mais favorecedora da especificidade destas escalas.

Ou seja, das modificações operadas no conteúdo das escalas pelos procedimentos de decantação estatística descritos, resultou não só uma certa depuração psicométrica como alguma modulação do seu significado. O que de algum modo se torna patente na matriz rectangular das correlações entre as escalas originais e as propostas - Quadro 13 -. Assim temos: correlações muito elevadas entre as escalas originais e propostas para hostilidade, disforia, e afectos positivos em sentido lato, consubstanciando um significado em tudo sobreponível. Ansiedade, depressão e afectos positivos em sentido restrito passam a apresentar maior correlação com as novas escalas globais correspondentes do que com as que supostamente lhes correspondem directamente. O que não é recíproco, uma vez que qualquer uma das novas escalas propostas revê a sua correlação mais elevada na escala original correspondente; ou pelo menos, como que acontece com a de vigor, igual à da escala global. E é também aqui, com a de sensation seeking original, que a de vigor guarda relação mais íntima. Ou seja, e em resumo quanto ao significado das escalas: a depressão, como não totalmente a hostilidade, é isenta de afectos positivos. Também independentes se podem afirmar o vigor e autoconfiança em relação à disforia. Já retraimento / astenia e sensation seeking / vigor, até certo ponto variam na razão inversa.Topo


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Conclusões

Procedimentos deste tipo, impensáveis até há bem pouco tempo dada a desmesurada quantidade e complexidade do cálculo efectuado, tornaram-se hoje perfeitamente exequíveis graças às poderosas ferramentas informáticas disponíveis para uso pessoal e ao alcance da generalidade dos interessados. No entanto um risco há em que se incorre de novo, e designadamente o de cair na tentação do neófito que se tem apelidado de engenharia estatística; risco tanto maior quão precária a formação curricular e orientação dos investigadores neste domínio. É nossa convicção porém não termos incorrido em tal erro, evitando corporizar o papel do "melhor atirador do Texas"(**) através de um enquadramento teórico que nos permitiu estabelecer previamente os objectivos a alcançar e delinear claramente os procedimentos tidos por convenientes.

No nosso contexto cultural, tal como crítico não é encarado em tom hostil, mas até aceite como podendo ser algo positivo, também a agressividade, num processo inverso, não só não é encarada como salutar, como é dos conceitos mais representativos do que consideramos ser hostilidade declarada. Aliás também neste domínio a extravagância é desembuída do espírito de aventura. Especularíamos concluindo que numa sociedade que promove no berço a competitividade e a progressão rápida, a crítica é uma manifestação obstrucionista uma vez que aí são de apoiar todos os esforços de afirmação, ao passo que num contexto em que é mais valorizada a estabilidade, a agressividade, não mais escorada pela competitividade, passa a ser encarada como um sinal de franca hostilidade, passando agora pelo contrário a ser aceitável a sua expressão verbal através da crítica.

Por outro lado, assustado e apavorado, em pânico, de natureza claramente disfórica, surgem como sintomas de depressão, e não mais de ansiedade, ao passo que solidão, só e triste, de conotação mais moderada, assumem um percurso inverso integrando-se num factor de ansiedade. Aliás este factor merece-nos mais um epíteto de retraimento, na medida em que a ansiedade surge aqui mais como um potencial disfórico de baixo limiar ansiógeno do que como ansiedade expressa, antes aceitável enquanto estado, e que a manter-se de modo sustentado levaria à claudicação das defesas. Com efeito, julgamos que a ansiedade conforme sugerida pela validação empírica do estudo seminal, será mais um estado expressivo do que um modo invariante de reagir; este sim, acabará por ter uma expressão comportamental de tipo evitativo, o que sobressai naturalmente num estudo como o presente que visa a forma de traço. Recordem-se a este propósito uma vez mais as concessões que, invocando uma pretensão de comparabilidade, os autores assumem ter feito na forma de traço em relação à de estado. O que até certo ponto nos não parece lícito, pelo menos nestes termos, uma vez que se pode estar a pretender avaliar algo que pode só existir circunstancialmente, e que em condições normais, isto é, fora do contexto psicopatológico não tem expressão directa estável. Afigura-se-nos pois mais correcto avaliar sinais mais ou menos estáveis que, traduzidos em retraimento, evoquem esse potencial expressivo referido a um baixo limiar ansiógeno.

A claudicação, mercê da relação circunstancial com o autoconceito de acordo com o modelo, surgirá antes por tal expressão, sendo a patoplastia determinada pela direcção assumida: depressão se autodirigida, hostilidade se para o meio. Por outras palavras. Oscilando a ansiedade entre medo e agressão, teríamos, com a claudicação das defesas, a culpabilidade e a depressão encaráveis como uma hostilidade que, reprimida, se vira sobre o próprio na contenção/repressão inerente ao retraimento; e na hostilidade declarada, um equivalente exaltado da depressão assim qualificável de agitada.

Em resumo diremos que a análise efectuada vai de encontro ao modelo originalmente avançado pelos seus autores no sentido de permitir isolar os clusters inicialmente propostos: dois factores abrangentes referidos a afectos positivos e a negativos, destacando-se do primeiro uma subescala de vigor e autoconfiança, que desse modo liberta um pool de sentimentalismo e dependência. E do segundo, três outras subescalas referidas a retraimento / potencial ansiógeno, culpabilidade / depressão e impulsividade hostil. Também por razões compreensíveis no âmbito do estudo, a possível sobreposição das diferentes facetas disfóricas, pode agora ser avaliada no âmbito do factor genérico, uma vez que se pretendeu depurar as subescalas no sentido de lhes conferir algum poder discriminativo capaz de indiciar qual o principal contributo, caso haja. Quanto à validade de conteúdo, à fiabilidade e à coerência interna dos factores, os resultados das sucessivas análises aponta claramente no sentido de uma melhoria expressiva alcançada com as alterações operadas, sem que com isso se tenha perdido ou alterado significativamente. Antes resultou numa aferição das escalas originalmente propostas ao contexto linguístico/cultural do presente estudo, deste modo alcançando em simultâneo uma fiabilidade acrescida que as veio beneficiar a nível da sua caracterização psicométrica.


(*) Enviada mediante pedido nesse sentido ao autor.

(**) Conta-se uma história em que o protagonista ao viajar pelo estado do Texas ia ficando progressivamente mais admirado à medida que, avançando, topava aqui e além com celeiros em cuja parede lateral estavam pintados grandes alvos com inúmeras marcas de tiro na mouche. Isto até que se lhe deparou um agricultor que pintava um desses alvos numa parede em que já se encontravam os buracos dos disparos. Inquirido respondeu que a ideia era amedrontar as visitas indesejáveis fazendo-as crer na presença de um atirador exímio. E assim é que, retirada desta história, a expressão "o melhor atirador do Texas" passou a ser usada por analogia para referir os trabalhos de investigação que, efectuando um percurso inverso ao metodologicamente correcto, repousam numa elaborada análise exploratória, sendo os objectivos determinados a posteriori a partir dos achados da análise, e só então, com estes presentes, sendo formulada a hipótese de trabalho... cuja resposta será desde logo conhecida. A conclusão é a do slogan publicitário: satisfação garantida!Topo

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Referências

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  2. Messick S. The once and future issues of validity: Assessing the meaning and consequences of measurement. In H Wainer & H Braum (Eds): Test validity. New Jersey: LEA, 1988: 35-45.
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