Arquivos Hepato-Gastrenterológicos 1996; 5(2): 63-69.

Qualidade de Vida e doença inflamatória do intestino:
investigação e clínica

Ramiro Verissimo

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Prof Doutor Ramiro Verissimo
Psicologia Médica / Faculdade de Medicina do Porto
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Conceptualização

Introdução

Tem-se vindo a generalizar a convicção de que os índices de morbilidade e mortalidade habitualmente utilizados para avaliar o resultado das intervenções a nível da saúde são bastante parcos de informação. Face a isto, o ritmo acelerado que cadencia o aparecimento de novas formas de intervenção terapêutica tem acentuado o interesse por outros meios de avaliar o estado de saúde, e designadamente o estado de saúde subjectivo enquanto tradutor do estado funcional. Este, dado o crescimento exponencial de estudos que tem vindo a lume, passou inclusive a estar indexado na Medline desde 1977 através das palavras-chave Qualidade de Vida. Mas se é certo que muito se tem escrito sobre a utilização de questionários deste tipo em vários domínios de investigação, e muito particularmente em estudos epidemiológicos e em ensaios clínicos, não o é menos que da sua infiltração na prática clínica quotidiana pouco mais se poderá dizer do que tímida.

Modelo

De facto, o corpo clínico tem mantido certa suspeição em relação a adoptar na sua prática aspectos relativos a características humanas que considera à partida subjectivas e pessoais; sobretudo quando contrapostas a dados laboratoriais ou de achados endoscópicos. E é nessa medida que se tem mostrado relutante em adoptar variáveis de tal natureza para quantificar os resultados das suas intervenções. Isto é, na medida em que o conceito de qualidade de vida lhe surge como uma abordagem algo vaga e pouco consentânea com a operacionalidade necessária no contexto médico. Nesta acepção, contudo, ele prende-se mais com aspectos ligados a vivências relacionadas com a saúde e com os cuidados médicos, do que com noções gerais do tipo da satisfação com o modo de vida, noções de que se pretende de facto ter despido.

Assim é que vulgarmente se encara como equivalente a estado de saúde em termos sintomáticos e de capacidade funcional, e se especifica mais além acrescentando à qualidade de vida a qualificação de relacionada com a saúde: Qualidade de Vida Relativa à Saúde (QV-RS). Pretende-se deste modo circunscrever o âmbito do conceito e depurar a reconhecida multidimensionalidade do seu conteúdo da ganga de aspectos menos relacionados com os objectivos da intervenção médica, como sejam por exemplo os de natureza financeira ou os relacionados com o tipo de habitação.

Aplicações

Conforme ficou dito, o interesse em avaliar a qualidade de vida relativa à saúde tem vindo a aumentar nos últimos anos1, e muito particularmente em relação às doenças crónicas, doenças para as quais se não encara à partida a cura, mas em relação às quais também a morte é considerada como uma eventualidade mais ou menos longínqua e remota. Nesta perspectiva pode partir-se do princípio de que um dos objectivos primordiais da intervenção terapêutica é de algum modo o melhorar a qualidade de vida dos pacientes; e esta deve ser, em última análise, a verdadeira pedra de toque para avaliar os resultados dessa mesma intervenção2.

O objectivo é pois o conseguir uma avaliação mais correcta do estado de saúde, seja em termos individuais seja a nível populacional, no sentido de se poderem encarar mais positiva ou mais negativamente os resultados dos cuidados prestados. Com efeito, verifica-se a este propósito que os índices de actividade em uso na Doença Inflamatória Crónica do Intestino (DICI) não são excepção, revelando-se pouco sensíveis e eventualmente mesmo discrepantes em relação à percepção que o paciente tem do seu próprio estado3. Mais além, estes índices de qualidade de vida têm-se revelado mais fortemente correlacionados com o bem-estar e com um menor recurso à utilização dos serviços de saúde, do que a avaliação clínica da actividade da doença4.

E daqui algumas das aplicações que se podem inferir para este tipo de avaliação. Assim, por exemplo, e em relação aos ensaios terapêuticos, estes têm-se concentrado habitualmente na avaliação das reacções fisiológicas, pelo que pouco lugar restaria para abordar isoladamente a qualidade de vida se os sintomas e capacidade funcional nela incluídos fossem exclusivamente de encontro a tal tipo de respostas. Mas de facto tem-se vindo a demonstrar não haver sobreponibilidade. A plasmaferese, por exemplo, melhora os resultados da serologia dos pacientes com artrite reumatóide, mas em nada altera a sua força preênsil, a dor ou a capacidade de marcha. O benefício do tempo de sobrevida obtido pela terapêutica adjuvante no cancro da mama operável, dificilmente compensa o preço a pagar em toxicidade terapêutica durante um período de outro modo previsivelmente isento de sintomas5. Ou ainda a disfunção sexual implícita na eficácia da terapêutica anti-hipertensiva6. Mas se a capacidade funcional é de facto um resultado importante, então deverá passar a ser avaliada directamente. Ou seja, os ensaios clínicos devem procurar incorporar mais informação deste teor no sentido de avaliar a eficácia terapêutica.

De facto, mais do que os achados laboratoriais e as respostas fisiológicas, aos doentes em particular, e à sociedade em geral, interessam sobretudo as queixas sintomáticas e de capacidade funcional. Mas o que acontece é que essas queixas, assumindo frequentemente um pendor afectivo, são muitas vezes ignoradas. Perante um doente progressivamente mais incapacitado, o médico vai concluindo como "melhorado" nas suas anotações sobre o seu estado. O que vem acentuar o interesse de uma avaliação normalizada sobre a capacidade funcional e mesmo permitir transladar esse interesse da área da investigação para a da prática clínica. Ou seja, poder-se-ão efectuar por este meio triagens no sentido de identificar pacientes que se destaquem dos demais na medida em que possam necessitar de atenção especial ou de certos cuidados diferenciados. E designadamente por via de determinados problemas de índole psicossocial que possam estar em causa, e que estes instrumentos poderão desde logo indiciar ou localizar. Permitirão ainda, por outro lado, monitorizar o sentido da evolução clínica sugerindo eventualmente o recurso a soluções terapêuticas alternativas, e assim contribuir para uma intervenção clínica mais adequada. De facto, conforme ficou dito, a qualidade de vida pode eventualmente colidir com a avaliação clínica, mas o que se tem verificado na realidade é que a informação deste tipo, por desconfiança, inadequação ou indisponibilidade no momento oportuno, tem sido ignorada o mais das vezes nas decisões tomadas a este nível7. Tudo se resume, neste contexto da relação terapêutica, em ir de encontro às expectativas do paciente, que este processo permite de algum modo explicitar. Este último aspecto, a não estar a acontecer, até pode vir assim favorecer a consciencialização da contra-atitude, e constituir-se inclusive num precioso auxiliar da psicoterapia de apoio, mas muito particularmente das intervenções que visem reforçar os mecanismos de superação adaptativos.

A investigação sistemática a nível populacional pode localizar com alguma precisão quais as áreas de intervenção sanitária que, escapando às medidas epidemiológicas convencionais, se podem constituir como mais problemáticas, uma vez que os pacientes as sentem como tal. Por outro lado, também a qualidade dos cuidados prestados pode e deve ser avaliada em termos dos resultados obtidos neste domínio, uma vez que assim se poderão delinear e comparar os resultados de estratégias alternativas. E se, ignorando os seus aspectos possivelmente mais polémicos, pensarmos em termos de política de orientação sanitária, pode inclusive estender-se o conceito da área estritamente médica para a administrativa, seja no planeamento orçamental com reforço das verbas atribuídas às áreas identificadas como mais problemáticas, seja através da análise da relação custo / benefícios em estudos de eficácia. Até porque, e insiste-se neste aspecto, a qualidade de vida traduz de algum modo mais fielmente do que a avaliação puramente clínica, o grau de utilização dos serviços1, 4. Este é mesmo um dos factores que tem levado a pensar em incorporar informação deste tipo nos bancos de dados genéricos usados com fins de gestão. E se pensarmos em termos de auditorias, sendo esta informação relativamente económica de coligir, orienta-se, ao contrário do que é hábito, para os resultados a nível dos utentes e das suas preocupações específicas.

Método

Dimensões

A noção de qualidade de vida relativa à saúde (QV-RS) não deixa de ser uma noção mais ou menos abrangente, uma vez que incorpora as percepções do paciente relativamente ao seu estado de saúde e às suas vivências relacionadas com a doença. Dessa multidimensionalidade resultam, aliás, as principais dificuldades de concepção, análise e interpretação dos estudos de qualidade de vida. Deste modo, se por um lado integra factores relacionados com a doença, também é, por outro, modelada pela dimensão psico-afectiva, bem assim como influenciada por aspectos de índole sociocultural. E é neste sentido que a actividade da doença é compreendida no contexto de uma dimensão somática que a qualidade de vida incorpora, mas da qual difere em dois aspectos fundamentais. E designadamente no facto de a avaliação ter de entrar em linha de conta com factores psicossociais, além dos directamente relacionados com a doença. Disso resulta, inclusive, o segundo aspecto; a saber, o do carácter subjectivo da avaliação uma vez que esta depende do relato que o paciente faz de tais factores. No entanto, à semelhança da actividade da doença enquanto tipificação histopatológica, e determinação da localização e extensão, pretende-se com esta avaliação da qualidade de vida quantificar os múltiplos factores que contribuem para o estar doente. Ou seja, mais do que a doença pretende-se avaliar a percepção que o doente tem da mesma.

Requisitos

A confiança que os médicos depositam habitualmente nos seus dados, contrapondo-se à dos que têm por base os elementos fornecidos pelo paciente, assenta basicamente em três ordens de factores; e designadamente, na sua natureza quantificável, na sua objectividade (observável por terceiros), e na possibilidade de arquivo material (histopatologia, radiografia) para ulterior consulta ou controle. Mas mais do que tudo o resto o que está sobretudo em causa é a coerência e a replicabilidade, o que de algum modo encerra tudo o resto. Ora essa possibilidade de, independentemente do observador, obter os mesmos resultados em observações diferentes, é um dos critérios presentes à elaboração dos instrumentos psicométricos de que os orientados para a qualidade de vida são exemplo. O que de certa forma lhes aproxima a fiabilidade da dos supramencionados achados laboratoriais8.

Com efeito, quando se pretende avaliar a qualidade de vida alguns aspectos há que importa considerar previamente9. O instrumento tem de ter validade e tem de ser coerente e fiável. Ou seja, em primeiro lugar tem de ter especificidade no sentido de avaliar de facto o que se propõe avaliar, e assim diferenciar os casos dos não casos no contexto do modelo que presidiu à sua elaboração. E esta questão pode ser tratada pelo método dito concorrencial, que consiste em comparar os resultados com os obtidos por outros meios previamente validados ou de utilização mais convencional, como os laboratoriais ou clínicos. Estes critérios externos, podendo avaliar aspectos parcelares do mesmo problema, não darão certamente resultados sobreponíveis, o que indiciaria a redundância do novo instrumento. De facto o que se pretende é um meio quantificável de abordar de modo mais significativo a questão de sempre que é a da qualidade de vida dos doentes. Por outro lado ainda, na ausência de uma validação capaz de facultar valores normalizados em relação aos quais se possa interpretar os resultados, devem estes ser sempre referidos ao grupo populacional em que foram obtidos no sentido de permitir ponderar toda e qualquer inferência, uma vez que uma possível especificidade ou idiossincrasia grupal pode dar origem a uma importante fonte de artefactos.

E tem, por outro lado, de ser coerente, o que pode ser testado pelo método de split-half, bem como ter fiabilidade no sentido de permitir replicar as observações; o que é estudado pelo método de teste-reteste que pretende de algum modo verificar esse postulado de base para toda a eleboração científica que é afinal o de, nas mesmas circunstâncias se obterem os mesmos resultados, independentemente dos observadores. Ora em relação a esta última característica, isto é, para garantir a reprodutibilidade, interessa sobretudo a estabilidade. Mas para ter alguma utilidade no sentido das aplicações supramencionadas, um instrumento desta natureza também tem de possuir sensibilidade capaz de lhe conferir capacidade discriminativa; isto é, além de permitir diferenciar entre pessoas com melhor ou com pior qualidade de vida neste sentido, tem de ser sensível às variações da mesma num determinado paciente ou num grupo de pacientes. A este tipo de sensibilidade à mudança, essencial para os ensaios clínicos e para as análises de custo / benefício, também se tem chamado de reactividade.

Pensemos na especificidade como uma característica que até certo ponto varia na razão inversa da sensibilidade. Ou seja, a maior sensibilidade, permitindo detectar a maior parte dos casos, interessa sobretudo aos estudos epidemiológicos de triagem. Mas desinteressa à clínica na medida em que a baixa especificidade leva a incluir muitos resultados falsamente positivos. Ao passo que a maior especificidade, embora dando mais resultados falsamente negativos, isto é, embora deixe passar indetectados muitos casos por falta de sensibilidade, importa sobretudo à clínica na medida em que permite ter uma maior convicção de certeza num determinado caso. Também neste aspecto, a qualidade de vida em nada se diferencia dos métodos de avaliação em uso noutras áreas de intervenção biomédica. Pense-se por exemplo nos meios utilizados com finalidade de detecção da tuberculose em contraponto com as provas para fundamentar a intervenção terapêutica na mesma doença.

Por outro lado ainda, um bom instrumento concebido para ser utilizado num contexto investigacional, pode ser impraticável na rotina administrativa ou de difícil leitura na pressa do dia-a-dia da actividade clínica. Se bem que os pacientes, em regra, gostem de preencher estes questionários cuja informação acreditam ser importante para o seu médico10. No entanto, embora se saiba que as formas mais breves também padecem de menor validade, pense-se por exemplo na eventual morosidade da aplicação ou na dificuldade de interpretação dos resultados obtidos, uma vez que, até pela falta de familiaridade, o seu significado é de apreensão menos intuitiva que o dos dados laboratoriais ou clínicos obtidos por meios mais convencionais11. Daqui se conclui pois pela necessidade de adequação dos instrumentos aos objectivos, isto é, de construção / selecção criteriosa conforme a natureza dos fins em vista.

Finalmente ficam algumas questões como a da avaliação de analfabetos, em relação aos quais se não pode recorrer à auto-aplicação, sabendo à partida que a entrevista, estruturada que seja, se distancia do procedimento normalizado necessário à reprodutibilidade, obrigando por exemplo a estudar a fiabilidade inter-rater. Ou ainda a questão proposta por alguns autores5, sobretudo dirigida a pacientes com patologias terminais, de que poderá eventualmente interessar fazer a combinação da qualidade de vida com a taxa de sobrevida, permitindo obter um meio de dar significado a uma avaliação da sobrevida ponderada pela qualidade da mesma: quality adjusted life years.

Instrumentos

As escalas para avaliar a capacidade funcional do paciente remontam aos anos 40. Referem-se a Escala Funcional da Associação Americana de Reumatismo12, o Índice de Karnofsky13 criado para pacientes com cancro e de que o eixo V do DSM-IV é de hoje em dia de algum modo herdeiro, ou ainda as Classes Funcionais da Associação de Cardiologia de Nova Yorque. Estes primeiros instrumentos pretendiam resumir várias dimensões numa só escala. Nos anos 50 surgiram depois as Escalas de Actividades Diárias para avaliar o grau de incapacidade de pacientes internados em unidades de cuidados terciários. Pela sua própria natureza eram de menos valia em relação a aspectos psicossociais, e só nos anos 70 começaram a aparecer meios capazes de avaliar o estado de saúde como modernamente se entende. Mas apesar dos estudos de validade e reprodutibilidade, ainda eram questionários de difícil aplicação dada a sua extensão, vindo esta a reduzir-se nos anos 80. Exemplos desta tendência são o Nottingham Health Profile14, o Dartmouth COOP Charts15, o Medical Outcome Study Short Form16, e o Mini-Duke Health Profile.

A tendência nos anos 90 tem vindo a ser para a especificidade, o que lhes confere mais valor facial aos olhos dos clínicos e lhes dá maior sensibilidade às alterações do estado do paciente em função da evolução clínica. Além disso o seu carácter multidimensional permite obter informações mais pormenorizadas sobre determinados aspectos.

Em trabalho anterior referenciado2 já tivemos oportunidade de descrever os diversos instrumentos em uso, e que passamos a enumerar:

Avaliação global

Avaliações genéricas

Técnica de Negociar Tempo (TTOT)
Perfil do Impacto da Doença (SIP)
Escala de Adaptação Psicossocial à Doença (PAIS)
Escala de Auto-avaliação da Qualidade de Vida

Avaliações específicas (doença inflamatória do intestino)

Questionário da Doença Inflamatória do Intestino (IBDQ)
Questionário da Doença Inflamatória do Intestino (IBDQ) Modificado
Questionário da Doença Inflamatória do Intestino da Clínica de Cleveland
Formulário para Pontuar as Preocupações dos Doentes com DICI (RFIPC)
Escala do Estado de Saúde da UC/CD (UC/CD HSC)

Estudos

Apesar do incomensurável número de estudos publicados em que se refere ter avaliado a qualidade de vida, de um modo geral foi utilizado o recurso à avaliação clínica ou a questionários em relação aos quais não há dados suficientes relativamente à sua normalização. O que relativiza imenso as conclusões possíveis, e leva a restringir a quantidade de informação disponível nesta área. No entanto a regra é de que, de um modo geral, os pacientes de ambulatório com DICI têm uma boa QV-RS4, 17, 18, 10.

Em trabalho por nós efectuado20 com recurso, entre outros, ao IBDQ (numa forma então proposta), se verificamos a não sobreponibilidade da qualidade de vida em relação à actividade da doença, como não à avaliação clínica da mesma, ou à percepção global que o paciente tem do seu próprio bem-estar, comprovamos também por outro lado a sua correlação significativa com tais parâmetros. No mesmo trabalho acabamos por concluir que, na nossa amostra, as mulheres com colite ulcerosa têm pior qualidade que os homens em razão de queixas sistémicas, gerais, e aspectos emocionais. Verificamos ainda que, numa tendência inversa à da colite ulcerosa, a uma menor actividade corresponde, na doença de Crohn, um estatuto sócio-económico significativamente mais baixo.

Num outro trabalho21 em que nos propusemos avaliar as preocupações específicas dos doentes com doença inflamatória do intestino, verificamos que tais preocupações têm particular relevância na doença de Crohn, guardando aqui, sobretudo as relativas à vida íntima, mas também o receio de morrer precocemente, uma associação significativa com uma pior qualidade de vida, e designadamente em relação a aspectos emocionais e de funcionamento social. Por outro lado não confirmamos inteiramente os resultados obtidos pela equipe que desenvolveu o RFIPC22 no sentido de que não obtivemos uma relação tão peremptória do mesmo com outros meios de avaliar o estado de saúde. O que não invalida o valor do instrumento, seja para avaliar intervenções comportamentais como é o caso dos grupos de apoio, do aconselhamento, ou o de uma intervenção psico-educacional mais directa. De facto o que verificamos na nossa amostra22 foi que a uma maior actividade na doença de Crohn corresponde uma menor valorização por parte dos doentes relativamente a receios de sentirem dificuldades económicas ou a sentirem-se "sujos ou mal-cheirosos"… como que isso lhes passa a importar menos. Já na colite ulcerosa, com a actividade aumentam de facto as preocupações relativas a produzir cheiros desagradáveis, com o relacionamento íntimo, com a capacidade de realização, e com o receio de morrer precocemente, diminuindo o receio de contagiar alguém. Provavelmente, um dos factores mais decisivos a contribuir para as diferenças por nós encontradas relativamente aos resultados obtidos originalmente, consistirá na relativa falta de esclarecimento da nossa amostra. Com efeito, para além da baixa média de escolaridade, deparamos, talvez não com desinteresse por parte dos doentes, porém com uma ignorância quase sistemática em relação a determinados aspectos de clínica e prognóstico da sua doença, cujo conhecimento os autores seminais valorizam na validação do constructo subjacente aos questionários: incerteza de diagnóstico, efeitos terapêuticos, risco de cancerização, possibilidade de contágio, etc.

Conclusões

O interesse que se tem verificado nos últimos tempos para avaliar a QV-RS levou a que fossem criados vários instrumentos de avaliação que, incorporando, mais além do que os sintomas, concomitantes psicossociais da doença, vêm a ter aplicação em diversas áreas de intervenção como sejam a da clínica, a da investigação, ou ainda a da orientação da política sanitária. No entanto, para uma escolha adequada e / ou utilização correcta, necessário se torna ter algum conhecimento sobre as características e aspectos limitativos inerentes aos instrumentos de avaliação genérica, por um lado, ou aos específicos das DICI neste caso, por outro. Quanto aos inúmeros estudos publicados que referem este conceito, a principal conclusão a tirar desde logo é a da míngua de condições normalizadas. No entanto de um modo geral todos indiciam uma boa QV-RS nestes doentes.

A previsão é a de um acrescido interesse por este tipo de instrumentos nos próximos tempos, no sentido de conseguir avaliar melhor o impacto das DICI, quer a nível individual (orientação clínica no âmbito médico ou cirúrgico) quer populacional (eficácia terapêutica, planeamento orçamental).

Como nota final fica a da indispensável necessidade de aferir os instrumentos utilizados à realidade local da nossa população, já que a matriz sociocultural é comprovadamente diferente da das populações a que em regra se referem outros estudos.Topo

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